Quem é da floresta não se espalha – Jornal A Gazeta

Quem é da floresta não se espalha

Sábado passado tive o prazer de  ir até o Espalha, um pequeno  afluente do Riozinho do Rola, que passa nos fundos da Reserva Extrativista Chico Mendes. É lá que fica a comunidade São Mateus, antiga colocação Samaúma do Seringal Boa Vista, que há quinze anos promove um campeonato de pesca com o objetivo de reunir os moradores do entorno. Mas, teve ocasiões em que veio gente de longe, até de Sena Madureira e outros locais, pra participar desse inusitado torneio.

E é impressionante mesmo ver a quantidade e a variedade de peixes que foram pescados por lá apenas nesse dia: Piranha, Piau, Mandi Liro, Surubim, Tambaqui, Caparari, Traíra, Bodó, Bico de Pato, entre outros. O campeão desse ano, Raimundo Lira da Silva, de 48 anos, morador da colocação Quatro Bocas, pegou um Surubim de 12 kg na linhada, depois de lutar muito até cansar o bicho, e faturou o primeiro prêmio deste ano.

Mas, como não sou pescador, pra mim o mais interessante que aconteceu por lá naquele dia foi a oportunidade de conversar com tradicionais lideranças desse lugar que, há pouco mais de trinta anos, vivia um dos piores conflitos de toda a história do Acre: a luta dos seringueiros contra a derrubada da floresta promovida pelos novos donos da terra nos anos 70 e 80. Desde os mais conhecidos como o Raimundão e o padre Luis Ceppi, até aqueles, anônimos pra maio-ria, que desde aquela época ainda moram no mesmo canto.

É o caso do próprio dono dessa área e promotor do torneio de pesca, Seu Raimundo Jorge, de 64 anos, que está aqui na colocação Samaúma desde 1979, e me presenteou com a narrativa de parte do que viu e viveu por aqui.

“Meu pai era cearense e veio pro Acre em 45, como soldado da borracha. Minha mãe era paraensa, veio criança e chegou aqui antes de meu pai. Nasci no seringal Albracia. Nasci e me criei no seringal, trabalhava com seringa. Toda minha vida foi na floresta, sempre cortando seringa, mesmo na época em que a borracha custava só 50 centavos o quilo, que foi o preço mais baixo que eu vi, era uma vergonha. Mas, sempre tive também o meu roçado.

Com dez anos de idade cheguei por aqui. Era o seringal Boa Vista, colocação Sumaúma, e sempre foi bom de caça e de peixe. Já não tinha mais patrão, era marreteiro que trazia tudo em costa de burro. Em 1974 já não tinha mais patrão, eles tavam vendendo as terras. Foi quando Seu Chico comprou do Neném França, que era o dono desse seringal aqui. Ai tiraram os piques dividindo o seringal. Seu Chico ainda colocou muitos pra fora, mas muita gente resistiu e eu fui um desses. Foi quando surgiu o Sindicato dos Trabalhadores Rurais incentivando a gente a lutar por nossos direitos, Raimundão foi um. E eu participei desde o início do sindicato e da luta pela criação da reserva extrativista.

A vida aqui sempre foi sofrida. Era 18 horas de pé pra ir pra rua. Eram 5 dias de viagem, dois dias pra ir, um dia lá na cidade e dois dias pra voltar. Mas, eu nunca tive vontade de sair daqui. Eu não tive estudo, pra ir pra rua pra mendigar era melhor ficar por aqui mesmo. Tive nove filhos, desses só três moram em Xapuri. A maioria se casou e ficaram aqui perto de mim. A criação da reserva extrativista foi ótima pra nós. Eu trabalhei muito, sofri muito, mas pra mim foi bem vivido. Sabendo viver faz gosto a gente morar na floresta”.

Depois desse depoimento de Seu Raimundo Jorge comecei a olhar em volta de um jeito diferente. Afinal, tem um bocado de intelectuais orgânicos (ou seriam, na verdade, inorgânicos?) dizendo que a Resex Chico Mendes deu errado, que os jovens estão abandonando a floresta e vindo pra cidade, que essa história de viver na floresta é só propaganda de governo que poderia parecer um total contrassenso tudo que estavam me contando. Mas, ai me lembro que esses mesmos intelectuais, tão críticos em relação a quase tudo que se move sobre a terra, hoje em dia fazem greve e vão passear por ai ao invés de fazer piquete, ocupar o campus, discutir e mobilizar por alternativas que não prejudiquem a vida das pessoas atingidas por suas atitudes. Mas, não se atrevam a chamá-los a atenção por isso, senão a casa cai. Só eles conhecem a verdade ultima, enfim…

E o que, a seguir, me contou o Prof. João do Guarani apenas confirmou o que eu estava pensando. Mas, que ninguém se assuste porque não estou me referindo ao São João do Guarani, o santo milagreiro daquelas mesmas bandas, porque este morreu, segundo contam, em 1903. Trata-se de um professor de nome João que dá aula na escola que fica lá na comunidade do São João do Guarani, e que, por isso, é chamado por todos como João do Guarani.

“Nasci no seringal Nazaré, filho de pai e mãe acreanos. Quando formei família, vim pra cá pro Boa Vista. Participei de empates no Cachoeira e na Bordon que hoje é a fazenda soberana. Não tinha líder coordenando a gente, todo mundo era junto e igual. Lá no empate da Soberana chegou a polícia com armas pesadas, mas foram embora e nós ficamos. No dia seguinte a polícia voltou e nós tivemos que sair.

Mas, valeu a pena porque a floresta ainda tá em pé e aqui a gente vive tranquilo. Nunca tive vontade de ir pra cidade, eu não me dou lá. Aqui tem o mamão, a macaxeira, a banana, tem a criação, ou vai na floresta e mata uma caça, vai no açude ou no rio e mata um peixe, tem tudo. Além disso, tenho meu trabalho na escola. Passei minha vida toda aqui e acho melhor do que morar na cidade. Aqui a gente se mantém tranquilo na floresta”.

Diante dessas e de outras falas que ouvi naquele dia, pude começar a ver que os inimigos dessa gente simples, que vive de um modo também muito simples, hoje, são outros. A música que toca massivamente nas rádios e propõe outra cultura rural pros filhos dos Raimundos e Joões. Os missionários daquelas religiões expansionistas que querem a todo custo cooptar (embora digam converter) a todos. Os tais intelectuais (in)orgânicos que tentam nos (e lhes) convencer de que a vida na floresta já não passa de propaganda oficial e enfraquecem as formas de resistência que ainda existem. Aqueles políticos conservadores que preferiam que a floresta já não existisse mais mesmo e não fazem nenhuma questão de esconder isso. Enfim, inimigos tão ou mais perigosos do que aqueles que vinham de armas na mão pra expulsá-los do lugar onde viveram por toda a vida.

* Marcos Vinicius Neves

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