Quem quer ser um criminoso? – Jornal A Gazeta

Quem quer ser um criminoso?

O rapaz queria ser ‘bicho doido’ no seu pedaço, então começou a pensar na sua iniciação no mundo do crime. No seu bairro, ele via muita gente trabalhadora, mas também via malandros zanzando na rua sem fazer nada. E era aquela vida de vagabundagem que ele queria pra si. Já tinha se decidido. Para ele, estudar era pros fracos. Trabalho era pros caretas. Dinheiro mesmo tinha que ser conseguido com o ‘suor’ do crime.
A primeira coisa foi conseguir uma arma de mentirinha e postar suas fotos ostentando com o seu novo brinquedinho nas redes sociais que era pra todo mundo ver que ele não era flor que se cheire. Depois fez tatuagens e nunca mais pôs uma camisa pra andar na rua. O look só ficou completo com as suas cuecas aparecendo e com o jeito de andar bem ‘muleque-piranha’.
Falar como gente, nem pensar. A comunicação do rapaz se limitou a gírias e palavreados chulos.
Tinha tudo. Faltava só uma coisa. Um pequeno enorme detalhe: cometer um crime. Enquanto ele não tivesse ficha suja na polícia, não teria o respeito da bandidagem e nem seria mau visto pela comunidade onde vivia. ‘Mas o que fazer pra minha iniciação?’, pensou ele. E matutou, matutou, matutou e não chegou a lugar algum. Pelo menos a burrice de bandido ele tinha.
Pensou em roubar, mas aí se deu conta que qualquer um podia fazer isso. Pensou em depredar um bem público, só que aí ele podia se machucar. Pensou em agredir alguém, no entanto, quando se bate se apanha, e ele não queria tomar uns tapas. Pensou em estupro, mas a mulher poderia machucar seus países baixos. Pensou em aliciar menores de idade, mas se tocou que ele não gostava de crianças. Pensou em matar, só que ele não teria ‘colhões’ pra tanto.
Foi quando lhe veio a solução perfeita: ‘vô  rôba um carango dos puliça e alucinar geral por aí’. Dito e malfeito.  O rapaz esperou uma guarnição descer da viatura e se enfiou na RP. A adrenalina tomou conta dele. Logo, os marginais do bairro iam lhe respeitar. Olhou pra ignição e se lembrou que não sabia fazer ligação direta. Achou que era igual nos filmes e, então, abriu o painel debaixo do volante e começou a mexer nos fios. O carro não ligou.
Agoniado, ele desistiu. Mas quando ia sair, várias viaturas pararam atrás. Os policiais iam fazer um protesto. Um comboio de RPs se formaram atrás dele. Ele saiu rápido do carro e deu de cara com o policial que a dirigia. O guarda foi duro ao perguntar o que ele estava fazendo perto do seu carro. O rapaz, a esta altura já se cagando nas calças, só conseguiu dizer ‘sô flanelinha, só queria uns trocados’. O policial deu uma enquadrada nele e seguiu no seu protesto.
No final das contas, o rapaz largou a modinha de malandro e decidiu virar gente. E só o que ele aprendeu é que bandido é bom é aquele que é bandido mesmo. Pronto pra ir além dos extremos e depois sofrer as consequências por isso.

* Tiago Martinello é jornalista.
E-mail: sdmartinello@gmail.com

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