Quinze anos – Jornal A Gazeta

Quinze anos

Formalmente seu nome todo era Mauricélia Barrozo Alves de Sousa (Barrozo com z e Sousa com s, favor não se enganar). Mas ninguém a chamava assim. Nem em casa e nem na rua. Para todos ela era apenas Célia e para alguns, muitos, ainda, simplesmente Célinha.

Quem não a conhecia achava, à primeira vista, que era de uma das muitas tribos indígenas acreanas. Uma bela índia de olhos claros cor de mel. E, na verdade, ela era mesmo tão doce quanto o mel de seus olhos. Mas não era indígena. Pelo menos não assim, de forma direta.

Seu pai, Seu João, era mais um dos muitos nordestinos vindos na loucura da Batalha da Borracha. Sua mãe, Dona Joana, era do interior do Acre, filha de nordestinos e, talvez, também de indígenas dessa grande floresta acreana.

Aliás, para a grande maioria, a Célinha era acreana do pé rachado e isso de fato ela era. Mas, por força do destino, havia nascido em Guajará Mirim, nesta imensa fronteira entre o Brasil e a Bolívia. E amava esta terra, com uma força e uma determinação impressionantes.

Ela era uma pessoa muito na dela, calada por que preferia assim. Mas, queria ver a mulher virar onça era só falar mal do Acre. Quantas vezes eu a vi, lá no intolerante sul maravilha, defendendo o Acre com unhas e dentes. E olha que não era uma época muito fácil de fazer isso. Início dos anos 90, um monte de coisas dando errado por aqui.

Mesmo assim, não havia semana em que ela não ligasse algumas vezes pra família, pra saber como estavam as coisas por aqui, pra contar como tinha saudade e como não via a hora de voltar logo. Era tanto Banzo, tanto sofrimento pela distância, que acabou me convencendo a vir pra cá, largando emprego, mestrado, família, amigos e todo o resto. Foi só então que eu soube que a Célia era uma pesquisadora extraordinária! A mais disciplinada, detalhista, organizada e per-feccionista pesquisadora que já conheci nesta vida. Contar o tanto que essa mulher produziu ao longo de sua breve atividade profissional, não caberia aqui. Mas como esse artigo é pra lembrar. Não custa lembrar pelo menos uma parte do tanto que nos deixou.

Ela se formou em história na Ufac. E, junto com a saudosa Profª. França, produziu uma preciosa coleção de jornais microfilmados que ainda hoje está disponível nos abastecendo de histórias e mais histórias. Jornais que, de outra forma, certamente já não seriam mais encontrados e consultados. Mais tarde, dessa vez junto com o Prof. Rui Duarte, e depois com o Prof. Oldemar Blasi participou das primeiras e únicas pesquisas ar-queológicas realizadas pela Ufac até hoje. Uma experiência que determinou que Célia viesse a se tornar a primeira arqueóloga acreana.

Ela era também técnica da Fundação Cultural e ajudou a organizar e manter o Museu da Borracha, desde os anos 80. Foi Coordenadora do Patrimônio Histórico e Cultural da Fundação Garibaldi Brasil na gestão de Antonio Alves, quando deu início ao trabalho de recuperação, revitalização e valorização de nosso Patrimônio Cultural que depois se consolidou nas duas gestões do governador Jorge Viana.

Além de suas atividades como técnica e gestora pública, seu talento e disciplina para a pesquisa tornaram-na a maior especialista que já tivemos em fontes hemerográficas do Acre. Sua paixão pelos jornais antigos foi canalizado para muitas outras paixões, dentre as quais, em especial, a história do cinema e do teatro acreanos. Por isso, sua monografia de conclusão de curso, infelizmente ainda desconhecida da maioria dos pesquisadores (o que teremos que corrigir um dia), foi sobre esse tema. Quando desfiou histórias desde os primeiros tempos do cinematógrapho que funcionava no Campo dos Pipiras, nas primeiras décadas da existência de Rio Branco, até a consolidação do gosto da sociedade local pela sétima arte através da abertura do Cine-teatro Recreio, Cine Acre e Cine Rio Branco.

Tive o prazer e a honra de compartilhar com ela a publicação de diversos artigos e livros sobre diferentes temas da história acreana: como o álbum fotográfico que conta a história do Bairro Seis de Agosto, o livro “O Capitão e as seringueiras” sobre a vida do Capitão Ciriaco e o livro “Vertentes da Memória” sobre o “Cacimbão da Capoeira”.

Mas, independente de qualquer outra atividade, o que falava mais alto ao coração da Célia era mesmo a arqueologia acreana. Não foi por outro motivo que ela se despencou para o Rio de Janeiro onde, em menos de três anos, se tornou uma das principais pesquisadoras do Instituto de Arqueologia Brasileira (IAB), desenvolvendo inúmeras pesquisas no Rio, em Minas Gerais e na Amazônia, através do que se tornou especialista em cerâmica pré-histórica.

A partir disso conseguiu financiamento do Smithsonian Institution e da National Geographic Society para realizar aqui no Acre diversas missões de pesquisa nos sítios arqueológicos com estruturas de terra geométricas, que haviam sido descobertos por Ondemar Dias (principal pesquisador do IAB) no final dos anos setenta e que passaram a ser mais recentemente chamados de geoglífos.

Sua fecunda atividade como arqueóloga, além de ter motivado duas teses de doutorado na Universidade Federal Fluminense (UFF), era tema da dissertação de mestrado que estava elaborando na Universidade Federal do Rio de Janeiro (ICS-UFRJ), quando o destino ocasionou uma reviravolta completa em nossas vidas.

Em 1998, em meio a uma série de acontecimentos muito dolorosos em sua família, Célia teve que começar uma enorme batalha por sua vida. Uma luta que durou dois anos, durante os quais ela nunca esmoreceu ou se entregou. Até seus últimos dias nesta terra, já imersa num doloroso tratamento rádio e quimioterápico, continuava a frequentar a Biblioteca Nacional, atrás de matérias sobre o Acre nos jornais do início do século XX. Era uma forma de, com infinita coragem e determinação, não esquecer quem era e nem o que fazia de melhor nessa vida.

Até que num domingo, dia das mães, 14 de maio de 2000, Mauricélia – mãe de meu filho João Luiz – nos deixou… Mas, tenho certeza que, como eu, todos aqueles que tiveram o privilégio de conviver com ela são incapazes de esquecer o tanto que ela fez pelo Acre e por nós…

E, no fim de semana passado, lembrei que ela fazia aniversário no dia 17 de outubro. Ao lembrar disso não consegui evitar a sensação de que a vida é, na verdade, como os rios acreanos: tem tantas curvas e voltas que, às vezes, parece quase impossível manter o rumo de nossos destinos. Assim, só nos resta buscar coragem pra continuar lutando e, com isso, honrar a obra e a memória dessa extraordinária mulher.

* Marcos Vinicius Neves

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