Surgia, pois, um infinito de possibilidades – Jornal A Gazeta

Surgia, pois, um infinito de possibilidades

Encomendara roupas novinhas em folha a serem usadas durante a festa do Padroeiro. Também os festejos de momo se aproximavam. Uma calçola frouxa vermelha de lamê, com suspensórios, e uma camisa com listas largas em exagero faziam parte da indumentária. Bolinha amarela lhe adornava o nariz. Portava um apito estridente. No bolso, uns tostões para os gastos com as alcoólicas. Uma moça por ele tinha algum encanto, ou uma ligeira admiração. O poeta menor já contornara o sol pela décima oitava vez. Tudo estava dentro dos conformes.
Ele vivera naquela freguesia dias muito venturosos. Trabalhou desde que se tornou adulto, antes dos dez anos. Isto o deixava cada vez mais rijo e crente nas oportunidades que haveriam de surgir. Não lhe caíram os dedos, nem os braços, ao executar o tão auspicioso trabalho infantil. Era necessário ajudar aos pais e aos três irmãos mais novos, que careciam de boa escola e futuro de paz. Vendeu merenda nas ruas e nas escolas, pela manhã, porque as aulas do curso ginasial ocorriam à tarde, no colégio das freiras. As leituras eram o seu hábito predileto. Nas férias, vendia os picolés fabricados por um casal de sírios. Aos catorze, já labutava na construção civil, de sol a sol, quando a pequena cidade era urbanizada, junto com uma rapaziada que ainda arranjava tempo para os treinos de futebol, à tardinha. Depois, à noite, passou a frequentar as aulas de um curso secundário no divina providência.
Verteu muito suor e nenhuma lágrima, a não ser aquelas de alegria, como na ocasião em que a professora da quarta série do primário resolveu acolhê-lo em sua casa, em pleno horário de folga, durante um ano inteiro, para ensinar-lhe os rudimentos da matemática, dentre outras, sem nada cobrar, apesar das mesmas necessidades vivenciadas pelos filhos dela. Foi a partir daí que ele começou a busca pelos melhores caminhos.
Sorriu feliz e verteu alguma lágrima de emoção, quando a professora de português e dona de um curso de datilografia resolveu, gratuitamente, a pedido da mãe do menino, ensinar-lhe como bem se comportar e produzir bons trabalhos a partir do uso razoável dos teclados de uma máquina de escrever.
A irmã de criação o ensinou a ler aos cinco de idade, em casa. Quando chegou à escola, aos sete, já ajudava a professora a tomar a lição dos demais alunos.
Outras tantas almas boas o ajudaram. Ele sempre andou de braços dados com o espírito absoluto – Deus! – e teve o auxílio psicológico, apoio moral, inclusive, de pessoas que diziam dele ser dotado de umas tantas qualidades que o levariam a patamares pouco imagináveis, como realmente aconteceu mais tarde. Tudo isso extasiava o menino, mas ele sempre se fez consciente da realidade do garoto pobre que ali estava para construir o seu próprio mundo.
Havia muitas orações da parte da mãe e da avó, além do exemplo de um irmão mais velho que, simplesmente, num desses anos, na quarta série do ginásio, resolver fazer uma coleção maravilhosa e tirou notas dez em todas as disciplinas durante todo o ano. Um colosso. Nunca se viu. Extraordinário. Tornou-se o melhor aluno de todos os tempos. Pior é que as freiras quase exigiam que o mais novo seguisse o exemplo ao pé da letra. Impossível.
Antes, todo o apurado das vendas era entregue à mãe, para a compra de roupas e material escolar. Aos domingos, caía um trocado para o matinê e a pipoca, no cine poeira. Depois, o diarista servente de pedreiro passou a dar a metade do ganho para os pais e, com a outra metade, começava a satisfazer a vaidade e, ainda, a tomar alguma bebida do ramo das alcóolicas, em fins de semana, ao som da boate do caboclo da morena, o homem com o apelido mais pomposo de que sem tem notícia lá por aquelas bandas.
Veio, então, a época em que se fez secretário do padre, que também era juiz de paz e casava e batizava no civil e no católico. A renda deu uma melhorada significativa, tal como, em seguida, quando trabalhou em um escritório de topografia, ou quando enveredou pelos caminhos burocráticos e passou a prestar serviços no departamento de ensino supletivo. A prosperidade batia à porta e as calças já eram boca de sino, o sapato, cavalo de aço, as cuecas, supermacho, e as camisas queriam mostrar o umbigo, bem ao estilo do rei. Alvíssaras!
Uns caras muito legais eram os seus amigos, a começar pelo próprio bacana, que era um moleque muito bacana, sim, e até hoje é quase irmão. Havia também o mico, que pouco tinha a ver com macaco, uma vez que era branco e louro. Estava lá também o pimba, um misto de moleque engraçado e valente ao mesmo tempo. Havia um tal cabim de aço. Um outro lhe passava lições da arte de ser goleiro. Eram muitos, enfim. Com eles aprendia a fazer jogo de cintura em quaisquer ocasiões, e para eles ensinava sobre como observar e anotar tudo na memória límpida e leve.
Aprendera a dançar nos forrós do pega, ouvindo mundico sanfoneiro e a sua sanfona de cento e oitenta baixos. Depois, fez estágios avançados em festas de colônia, na companhia das moças e rapazes filhos de um homem apelidado coroné, lá pelas bandas do igarapé majoçá.
Jogou bola no campo e na quadra. Não era especialista em nenhuma posição no tabuleiro do futebol, uma vez que as leituras dos melhores livros apraziam muito mais. Era craque sobre uma perna-de-pau, arremessava o pião com maestria, mas nunca jogou peteca, nem soltou papagaio, pois o sol lhe castigava forte a moleira rasa. Aprendeu a fazer caipirinha de limão ou cajá. Ficava bêbado. Experimentou sucesso fabricando e vendendo a bom preço máscaras de carnaval do jeitinho que o mestre pintor o ensinara. Morria de medo dos saltos que a molecada dava a partir da famigerada ponte da bolívia. A avó cearense era muito esperta e um crioulo soldado vivia fazendo ronda ao redor.
Entre os dezesseis e os dezoito, foi preso por três vezes e encaminhado à cadeia pública sob as ordens da autoridade na qual estava investido o soldado crioulo.
Os moinhos de vento do figurante estavam em estado de aceleração. Numa das ocasiões, vingou um irmão que havia sido ameaçado. Em outra, entrou injustamente num rol de guris que fizeram desordem na escola em um fim de semana. Depois, enquanto filho de pobre, pagou o pato pelas estripulias que alguns filhos de bacanas fizeram e às quais ele apenas observou e anotou tudo. Nas três, houve alguma condescendência da autoridade competente. O vilão arranjado era bom aluno no colégio e isso sempre o juiz levava em consideração, não sem antes aplicar-lhe um corretivo de oito a dez horas atrás das grades… Mas, enfim, tudo passou.
Todavia, como cantarolava o poeta efeminado, ventos do norte já não moviam moinhos. A partir dos esforços ingentes de um dos irmãos mais velhos, a família estava se transferindo para a capital onde, muito provavelmente, cursos superiores estavam esperando o agora tido e havido por alguns como um adolescente inconsequente.
Estava, então, de partida da terra que lhe viu nascer. No matulão e alforjes rendilhados de prata, tinha por bagagem, além dos pertences comuns, muitos bordados de memória, assim do tipo rascunhos, gravuras, croquis, tudo muito bem anotado nas entrelinhas ocultas entre as duas orelhas.
Além disso, o povo pertencente à etnia dos chapuris lhe havia dado, de presente, régua, compasso e um bocado de rimas bem acabadas e sonhos mirabolantes. Coisas de Deus.
A sorte estava lançada. Surgia, pois, um infinito de possibilidades.

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