Triste colocação – Jornal A Gazeta

Triste colocação

E lá se foram 16 dias de ativismo pelas mulheres, com excelentes iniciativas sobre o respeito aos direitos femininos e a tão sonhada igualdade entre gêneros. Tudo seria perfeito se nossa sociedade ao menos se inclinasse a escutar esse clamor. Mas o contrário insiste em nos assombrar nessa questão.  O que vemos são estatísticas que só constatam o longo caminho que ainda precisamos percorrer para dizer que, sim, respeitamos nossas acreanas.

Pesquisa realizada em delegacias da mulher e em órgãos e entidades de redes de atendimento em todo o país, em 2015, mas divulgada ontem, apontam que o nosso Acre ocupa nada menos do que a 1ª posição [isso mesmo, voce não leu errado, é a PRIMEIRA] no ranking de registros de estupros de mulheres, proporcionalmente. De 2011 para 2015, saltamos de 380 casos para 524, numa rota anual de aumentos. Imagina o tamanho do salto de 2015 para 2017?

O lugar é incômodo. Vergonhoso.

Pior ainda é saber que, sim, estamos cientes de que se trata de uma prática vil, abusiva e que ofende a todo e qualquer princípio de liberdade e de dignidade humana. Mas, ainda assim, continuamos a acobertá-la, tratando o estupro como uma atrocidade comum da atualidade, punível com leis imprecisas e penas de pouco efeito inibitivo, responsabilizando mais as mulheres pela forma com que se vestem do que os monstros que cometem tal crime.

Passamos do tempo de dizer que muitos cometiam estupros porque não entendiam ao certo o que estavam fazendo, como se fosse um lampejo de fraqueza perante a um instinto natural de momento. Essa lorota é velha. O estuprador tem plena consciência, sim, do que está fazendo.

“Os Treze Porquês” (do inglês, Thirteen Reasons Why), entre outras séries e seriados retratam, cruel e duramente, a violência empregada em um ato de estupro, bem como o abalo causado nas vítimas. Um tema também explorado constantemente por novelas [inclusive, na Globo, já teve com cenas polêmicas de estupro coletivo, e o de dependência por drogas] e pelo cinema nacional. Assistimos a tudo isso e, tolamente, pensamos “meu Deus, que homens nojentos tem aí pra fora! Degenerados. Como é que deixam essas coisas acontecerem?”

Doa a quem doer, a realidade da Hannah Baker é a que pode estar se passando agora dentro do seu bairro, da sua escola, da sua família ou do seu trabalho. Talvez até da próxima festa que você planeje ir. Olhe bem para o estudo e lembre-se: o Acre é o primeiro de casos de estupro. O que você vê nos filmes, talvez seja fichinha para o que acontece aqui. Quem vai saber?

No pé que estamos, talvez nem um ano inteiro de ativismo pela mulher mude as coisas. Por isso, se queremos ser um Estado melhor, focado na vontade de crescer, precisamos superar essa cultura maléfica do estupro. Esse tem que ser um compromisso geral e cotidiano. A maioria da nossa população é composta de mulheres, e precisa ser respeitada.

“Continuamos a acobertar o estupro como uma atrocidade comum da atualidade, punível com leis imprecisas e penas de pouco efeito inibitivo”

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