Um livro e a história de um povo* – Jornal A Gazeta

Um livro e a história de um povo*

A história se constrói pela sucessão de fatos. É como um novelo onde a ponta do cordão acaba por levar à outra, que puxa mais uma e outra, outra… Assim, vai-se fazendo o infinito da experiência humana.

Os caxinauás – povo do morcego, como os brancos os chamavam – ou huni kuin, gente verdadeira, como todos os outros habitantes da floresta, é parte desta imensa tecelagem. Os índios cresceram acreditando que os bichos descendem dos homens, e que os peixes sobem os rios na piracema para buscarem adornos.

Eles plantavam, caçavam, pescavam e se reproduziam em suas aldeias. Cada oca representava quase um território livre, com um chefe que obedecia a um chefe maior. Os homens podiam se casar apenas com as mulheres de outra oca, seguindo um ciclo de parentesco capaz de preservar os sentimentos de uma ética fundada no senso ancestral.

Um dia, os brancos chegaram às margens dos rios, batizando-os: Muru, Jordão, Juruá, Tarauacá. Os novos nomes desenhavam uma nova geografia que crescia com a ambição pela borracha, o ouro negro defumado nos confins da mata.

Os caxinauás não puderam assistir, pacificados, à vida se reinventando. Foram caçados em correrias e tiveram suas terras invadidas. Era o final do século XIX, seringueiros e seringalistas do Brasil lutavam contra os caucheiros peruanos. E todos se voltavam contra os índios.

No início do século XX, Felizardo Cerqueira, um dos mais cruéis e prósperos seringalistas do Acre, marcava os caxinauás com as iniciais do seu nome. Era o senhor de tudo. Assim era a vida, rude, naqueles tempos primordiais. O ciclo econômico engolia mais e mais a mão de obra que já não chegava com a fartura necessária do Nordeste, sobretudo do Ceará. Por isso, houve quem se lançasse na floresta em busca de uma mão de obra barata: os índios. Era o princípio do “tempo do cativeiro dos patrões”.

Mas, em meio ao terror, às vezes, há espaço para a delicadeza.

Em 1909, vindo do Acre para o Ceará, o capitão Luís Sombra trouxe consigo um índio caxinauá. Era um rapaz de 20 anos de idade. Sua aldeia ficava às margens do Rio Ibuaçu, afluente do Muru. Havia três anos que ele trabalhava como seringueiro. Chamava-se Borô, mas adotara o nome cristão de Vicente Pena Sombra, em homenagem ao seu protetor e ao presidente da República da época, Afonso Pena, que o batizara em Manaus.

O capitão Sombra ficou pouco no Ceará. Partiu para o Rio de Janeiro, levando Vicente e outro caxinauá, um menino de 13 anos, que se mudara quatro anos antes para Manaus e, logo em seguida, para Maranguape, no Ceará. O garoto já não lembrava a língua de sua gente, mas falava um “cearense perfeito”. Chamava-se Tuxinin. Na convivência com Vicente e a mata, acabou relem-brando sua ancestralidade.

Foram esses dois jovens caxinauás que, em longas conversas com o historiador cearense J. Capistrano de Abreu, deram as informações para o livro Rã-Txa Hu-ni-ku-i: Gramática, textos e vocabulário caxinauás – A língua dos Caxinauás do Rio Ibuaçu – afluente do Muru.

Durante meses, os jovens informantes falaram da língua, da forma de vida na aldeia, das lendas e dos costumes de sua gente. Capistrano tomava notas e escrevia em seu novo livro as mudanças de sítios promovidas pela busca de lugares com melhores condições para o plantio de roças. Sim, os caxinauá cultivavam mandioca, legumes, milho. E tinham algum sentido de poupança, pois acumulavam alimentos para os períodos de entressafra. Também contaram histórias carregadas de mitos e, talvez, invenções. Falavam da luta pela borracha em que os peruanos, os cauchei-ros, eram maus e os brasileiros, os seringueiros, bons.

Foi certamente o que sobreviveu como narrativa oral para os informantes de Capistrano. É o que ele conseguiu apurar daquele dialeto, que não segue uma lógica semântica linear – ao contrário, é entrecortado por expressões que se repetem, mas fecha-se coerentemente. Em outras palavras, mesmo que muitas expressões aqui registradas tenham caído em desuso, a importância do livro se mede pelo rigoroso registro que faz das lendas, das expressões e dos costumes dos caxinauás no início do século XX.

O rã-txa hu-ni-ku-i, o “falar de gente verdadeira, de gente fina”, está salvo para a posteridade.

Um exemplo? Um dia, vasculhando um sebo, a escritora cearense Ana Miranda – que como todo cearense carrega algo de acreano no sangue – encontrou o livro de Capistrano. Maravilhada com a beleza da obra, sentou-se para contar a vida imaginária de uma caxinauá que vence os medos e os desafios para se inserir no novo mundo que se forma à margem de sua existência. O romance Yuxin (Alma) é também um belo grito em favor do poder da resistência humana.

A trajetória do povo caxinauá seguiu depois de Capistrano e foi tocada por outra delicadeza quando o caxinauá Sueiro Sales Cerqueira herdou da madrinha, esposa do falecido Felizardo Cerqueira, o seringal Fortaleza, nas margens do Rio Jordão, com cinco colocações e 27 estradas. Com o fim da 1ª Guerra Mundial e o florescimento dos seringais da Malásia, a crise paralisou a economia da Amazônia brasileira. Marcados pela fome e as doenças de branco, como a gripe, os índios se voltaram às próprias tradições para reconstruir suas aldeias pelas cabeceiras mais remotas dos afluentes dos rios do alto Juruá e alto Purus.

O mundo entrou em uma nova guerra e um novo ciclo da borracha floresceu na Amazônia. Os caxinauás voltaram então à extração do látex no seringal Fortaleza. Com o fim da 2ª Guerra Mundial, houve nova crise. Outra vez, o mundo determinou o destino daquele povo ribeirinho, que buscou novos rumos.

Hoje, os índios caxinauás são o povo mais fecundo do Acre. Quatro mil habitantes vivem em dez porções de terras reconhecidas pelo governo a partir do final dos anos 1970. Seus conhecimentos ancestrais moldaram uma bonita volta à vida em harmonia com os recursos da natureza. Experientes, não se abateram com a crise política e econômica da sociedade acreana dos anos 1970. Revigoraram suas aldeias e formaram cooperativas para a comercialização da borracha e de outros produtos extrativistas.

A sobrevivência do grupo ainda depende, em parte, da aposentadoria dos mais idosos como trabalhadores rurais e “soldados da borracha”. Mesmo assim, os caxinauás não temem enfrentar o desafio de, enfim, criar uma cultura de manejo sustentável. É que, tal qual Capistrano de Abreu, acreditam na perenidade de seu povo.

A leitura deste Rã-Txa Hu-ni-ku-i faz parte do projeto de sobrevivência de um povo.

Senador Jorge Viana (vice-presidente do Senado)

* Apresentação publicada na nova edição do livro.

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