UM REI NO ACRE (Final)

Postado em 27/03/2017 23:10:54 Alceu Ranzi e Evandro Ferreira

Na segunda parte desse artigo havíamos descrito a chegada e os primeiros dias da visita ao Acre de Leopoldo III, ex-monarca belga que permaneceu no Estado entre o dia 27 de novembro (segunda-feira) e 02 de dezembro (sábado) de 1967. No dia posterior à sua chegada, terça, 28 de novembro, ele se dedicou a observar a paisagem quase selvagem que margeava a rodovia BR-317 entre Rio Branco e a então Vila Capixaba. Ficou admirado com a densidade da floresta e o porte avantajado das árvores existente ao longo da referida rodovia, e, como um turista, visitou uma colocação de seringal, bateu fotos e almoçou em uma pensão de beira de estrada. Voltou impressionado com a generosidade e hospitalidade dos Acreanos que conheceu.

Na quarta-feira (29 de novembro) o rei partiu em avião de carreira para a cidade de Cruzeiro do Sul, tendo ficado admirado com seu aspecto pitoresco e romântico, especialmente o relevo colinoso e o verde abundante que cobria a cidade à época. Em seu diário ele não explica a razão para ter ficado, durante sua estadia no Acre, mais tempo no vale do Juruá do que em Rio Branco e adjacências. Imaginamos que possivelmente sua visita àquela região foi organizada pelos padres alemães que “controlavam” a prelazia do Juruá. Sua fluência em alemão também pode ter ajudado em sua escolha.

O texto apresentado a seguir é uma tradução da parte do diário de Leopoldo III (“Léopold III Carnets de Voyages 1919-1983”) que fala de sua visita ao Acre. O texto original em francês foi traduzido para o português pelo primeiro autor do presente artigo. As notas explicativas [entre colchetes, em itálico] são apresentadas como uma forma de contextualizar para os leitores algumas das descrições feitas por Leopoldo III.

Sexta-feira 01 (Dezembro 1967)
De canoa visitamos um lago de sacado, encoberto de vegetação flutuante. Poucos peixes, mas de grande variedade. [Provavelmente Leopoldo III visitou um dos lagos que o rio Juruá origina cada vez que seu leito muda de trajetória. Na atualidade, uma breve observação no Google Maps permite identificar pelo menos sete desses lagos entre a cidade de Rodrigues Alves e o porto de Cruzeiro do Sul, logo após o complexo de armazenamento de combustível da Petrobras].

Caminhada pelo bairro da Várzea. A maior parte da população de Cruzeiro do Sul é composta de gente pobre e simples (notadamente seringueiros), são particularmente amáveis e sorridentes [O bairro da Várzea, visitado pelo Rei, localiza-se nas imediações do complexo da Petrobrás e é um dos mais antigos de Cruzeiro do Sul. Deve ter sido lá que o Rei observou a pobreza e a simplicidade dos habitantes locais, que por certo receberam o Rei com uma hospitalidade sem igual, deixando nele a impressão de que apesar da pobreza, as pessoas do lugar eram amáveis e felizes].

Á noite eu encontrei o prefeito titular que voltava de uma viagem à Belém. Moacir de Souza Rodrigues, simpático e bom. [O prefeito Moacir Rodrigues da Souza, reconhecido informalmente por muitos cruzeirenses como um filho rejeitado do Coronel Mâncio Lima, havia sido prefeito de Cruzeiro do Sul várias vezes e em 1971 foi substituído pelo hoje Desembargador do Tribunal de Justiça do Acre Pedro Ranzi – na época Pedrinho Ranzi].

Sábado 02 (Dezembro 1967)
Tomamos café no pequeno restaurante verde. O prefeito e o juiz substituto nos acompanham. Chegamos ao aeroporto às 6h45 min. Eu relutantemente deixo Cruzeiro do Sul – pitoresca, folclórica, romântica e acolhedora. De todas as cidades do Brasil equatorial que eu conheço, essa é a mais atraente. [O juiz substituto referido pelo Rei era o Dr. Jurandyr Rodrigues da Silva e o restaurante “Verde” que ele afirma ter tomado café deve ter existido estação de passageiros do antigo aeroporto de Cruzeiro do Sul, uma construção em madeira pintada de verde].

Impressiona que o Rei Leopoldo III, tendo ficado apenas dois dias e meio em Cruzeiro do Sul, tenha elegido a “Princesinha do Vale do Juruá” como a mais atraente entre todas as cidades da Amazônia brasileira que ele já havia visitado. Em verdade, Cruzeiro do Sul, localizada a menos de 500 km da Cordilheira dos Andes, reflete na sua topografia e sua vegetação influências dessa cordilheira diferindo, portanto, da maioria das cidades Amazônicas que geralmente foram erigidas em terrenos invariavelmente planos, tendo em volta florestas não tão ricas quanto as encontradas no vale do rio Juruá no Acre.

Provavelmente Leopoldo III deixou o Acre em voo da empresa Cruzeiro do Sul que seguiu para Manaus com escalas em Eirunepé e Carauari, cumprida pelos velhos aviões modelo DC-3. O primeiro autor desse artigo fez esse trajeto pela mesma empresa em 1971.

Não se sabem as razões da visita de Leopoldo III ao Acre no final da década de 60, mas os registros históricos mostram que por muito pouco os interesses de empresas belgas envolvidas na exploração da borracha na Amazônia no início do século XX – especialmente no Vale do rio Guaporé, em Rondônia e na Bolívia – não foram tragados para o conflito que envolveu a posse do Acre.

Muito embora a aventura de capitalista belgas na fronteira Oeste do Brasil tenha sido efêmera – entre 1895 e 1912 – e mais intensa no Mato Grosso, onde empresas belgas receberam concessões de milhares de hectares de terra e um consulado daquele país funcionou em Corumbá entre 1901 e 1912, a historicamente tardia visita de Leopoldo III ao Acre pode ser vista simbolicamente tanto como o ato final dessa aventura do início do século passado, como o ponto de partida do último intento capitalista do pequeno país europeu na região, que se materializou no Acre em meados da década de 70: a empresa BONAL, o maior empreendimento de cultivo de seringueira já implantado no Acre.

Para saber mais:
– Léopold III Carnets de Voyages 1919-1983. Editions Racine, 2004, Bruxelles;
– Rei Leopoldo III – Diários de Viagem 1962-1967. Fundação Álvares Penteado, 2010, São Paulo;
– Território e negócios na “Era dos Impérios”: os belgas na fronteira oeste do Brasil. Tese de Doutorado em História Econômica. Domingos Sávio da Cunha Garcia, Unicamp, 2005.

*Agradecimento: Professor Selmo Azevedo Pontes, UFAC.

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