Inundações para nós, carne para eles

Uma matéria no canal Management TV, mostrou Pequim na China com um cenário diferente daquele velho conhecido com seus pagodes, seus bairros comerciais, os chamados hutongs, de ruas estreitas onde circulavam as bicicletas e ficavam as lojas enfileiradas uma de frente para outra. Pequim está se tornando uma cidade norte-americana. Já foram destruídos três mil hutongs, com 600 anos de cultura, em menos de três anos, para dar lugar às avenidas duplicadas, arranha-céus e ao trânsito infernal produzido pelos carros.

Só a Mercedes Benz e a Crysller detêm uma área de 1,9 milhões de metros quadrados para seu parque industrial onde um operário chinês  ganha 20 vezes menos que o seu colega europeu: 8 dólares por dia. Uma jovem operária, comparou a si mesma a “um parafuso – no grande carro que hoje é a China, disse ela” que, inclusive, está estudando inglês. Em 2020 haverá 140 milhões de carros em Pequim. Podemos imaginar a pressão sobre países do terceiro mundo que contém minérios e petróleo em seus subsolos.

Entre as dezesseis cidades mais poluídas do mundo doze estão na China, onde 400 mil pessoas morrem, por ano, com problemas respirató-rios. Enquanto isso, empresários chineses vasculham o mundo à procura de gás e petróleo. Eles são os novos ricos que moram em bairros de luxo, fechados, de arquitetura italiana, francesa ou inglesa, com esculturas neo-clássicas nos jardins. Nessa matéria o repórter registrou um evento no local, uma exposição de “vinhos’ e “carros de luxo”. Um destes novos ricos confessou ter vergonha de usar carros japoneses. E disse que ali todos dão preferência para a Benz, a Audi, a Land Rover, a Bentley, etc.. Os carros, em Pequim, são símbolos da posição social e da identidade. As favelas, por sua vez, aumentam na contramão.

Aqui não há sistema jurídico, disse um jovem, “aqui você se sente impotente, sem poder fazer passeatas nem manifestações”. A abertura econômica não foi acompanhada de abertura política, permanece um Estado autoritário herança do regime comunista que agraciou, contudo, alguns grupos privilegiados que começaram a correr atrás de ganhar dinheiro com as reformas econômicas.

Um casal de classe média lembrou que não está tão longe o tempo em que uma família que possuía uma bicicleta era considerada rica. O proprietário de um Drive-in disse que em Pequim as pessoas ficaram ricas do dia para a noite e que não se acostumaram ainda com isso, gastando tudo com luxo, prostituição e jogo. Quanto a ele ainda não se acostumou, pois às vezes se sente como se estivesse num sonho. Lembrou que foi criado comendo vegetais, às vezes até mesmo capim sendo que agora os chineses podem comer carne.

Este é um dos fatores que impulsionam o projeto de aceleração do crescimento do governo brasileiro. A construção da transoceânica tem por finalidade também a exportação de carne para a China através dos portos do Pacífico. Já vai ter início também a pavimentação da rodovia ligando Cobija a Riberalta e La Paz, orçada, por baixo, em 800 milhões de dólares. O saldo comercial das exportações de  soja e gado, no Brasil, é determinante.

Outro jovem, dirigindo seu vistoso carro, bem lembrou: “aqui nós não cremos em nada, aqui as pessoas não têm crenças como os norte-americanos”. Ou seja, o crescimento material não foi acompanhado do crescimento espiritual. O que não é de estranhar, num país submetido a um partido comunista por décadas. Fidel, em Cuba, mandou demolir todas as igrejas, com exceção das de Havana.

A pressão da China não se exerce somente em função de gás e petróleo, como também sobre regiões de florestas. Companhias chinesas começaram a exploração madeireira em Madre de Dios, nosso vizinho, antes mesmo de estar concluída a trans-oceânica. Em alguns países dos trópicos, utilizam empresas nacionais como fachadas, sendo responsáveis por grande parte da madeira extraída ilegalmente na região amazônica.

No final dos anos 90, esgotaram-se as reservas florestas da China. Além disso, o governo chinês proibiu a exploração doméstica de madeira em grande parte do país, devido às catastróficas inundações de 1998. Inundações para nós, carne para eles.
A demanda de madeira é estrondosa com degradação acelerada. Chineses possuem empresas madeireiras no Suriname, na Guiana, no Congo, na América Central, onde funcioná-rios públicos corruptos tornam a legislação florestal, quando existente, inaplicável. Não há transparência nas transações comerciais e assim, aqueles corruptos fornecem concessões aos amigos, sem respeito pelo am-biente ou considerações pelas populações locais, em especial as indígenas, segundo os analistas ambientais. 

A Nigéria perdeu 55,7 por cento de florestas primárias, nesta década, para a WEMPCO chinesa de Hong Kong, que pagou ao governo 28 dólares para cada árvore mogno enquanto revendeu a madeira a 800 dólares por metro cúbico ou  2.900 dólares por árvore.

Um acordo de exploração em 1994, com o Suriname concedeu 25 por cento da área terrestre daquele país, 7,5 milhões de acres ou 3 milhões de hectares, a menos de $ 35 por acre, enquanto faltam dispositivos legais, nesses países, para a proteção do ambiente, reflorestamento ou mesmo para permitir que possam acompanhar adequadamente as atividades madeireiras.

O Brasil é o 4º maior emissor de gases causadores das mudanças do clima. Na Amazônia as derrubadas e queimadas representam 70% de todas as emissões brasileiras de gases que aumentaram a temperatura do planeta e geram mudanças no clima. O que explica essa “amizade” entre o nosso Governo e o da China e o mesmo modelo desvairado de sociedade consumista.

 

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