Que sejam felizes…

Na década de sessenta, jovens da classe média norte-americana, em protesto contra a guerra do Vietnam rasgaram o documento oficial de convocação ao alistamento militar perdendo, por isso, os direitos básicos de cidadania. Devem ter sido anistiados, anos depois, mesmo porque a guerra do Vietnam foi um fracasso. O Governo enviava chocolate para os soldados no front enquanto os vietnamitas carregavam uma leve sacola com arroz integral.

Vários filmes, várias composições musicais foram realizados na linha desse protesto. Muitos jovens morreram e milhares voltaram mutilados. O musical Hair de Milos Forman, realizado em 1979, com John Savage e  que tem na trilha sonora a música Aquarius, foi um dos filmes mais vistos em todo o mundo. O filme ao contar a história de um rapaz do interior que às vésperas de embarcar para a Guerra do Vietnam trava conhecimento e convive com um grupo de hippies,  coloca em questão duas visões de mundo diametralmente opostas.

Aqueles jovens hippies contesta-dores das políticas oficiais externas e internas passaram a vestir calças e macacões jeans, com camisetas, numa identificação óbvia com a classe operária. Estavam ocupados em viver em liberdade e pouco se lixavam para especulações teóricas do tipo que outros jovens adeptos do comunismo faziam. Mesmo porque o comunismo, do outro lado do mundo, transformou um conglomerado de países em uma verdadeira máquina de guerra, na base do “o Estado é tudo, o indivíduo é nada”.

Onde a “vigilância” atingia até mesmo os artistas a quem não era permitido exercer a livre expressão,  acusada de ser um “subjetivismo anárquico”.

Os livros de Carlos Castañeda, que eram lidos por aqueles jovens, relatavam as experiências daquele antropólogo norte-americano junto a um índio Yaqui, remanescente das culturas pré-colombianas, desde convivência pura e simples aos usos ritualísticos do peiote, um pequeno cacto da farmacopéia mexicana daquela região que engloba o sul dos Estados Unidos e o México. A busca dele era reintegrar o índio que existia dentro dele, em estado de dormência, no conjunto da sua personalidade.

Entre os indígenas existe a idéia de que os humanos possuem um totem, um ancestral que pode ser um animal ou um vegetal. Kaxinauá, por exemplo, quer dizer “povo do morcego”. E eles nunca ouviram falar de Darwin, mas essa concepção está em todos os grupos indígenas e é componente essencial na formação de suas identidades.

Castañeda relata em um de seus livros o encontro com  seu totem, no caso, um jaguar. Com o tempo ele percebeu que sua musculatura começava a mudar, a partir do momento em que aprendia a respirar como um jaguar. Tudo isso, pode parecer muito estranho, mas se refletirmos sobre esse fato temos que reconhecer que os métodos ocidentais, brancos, de adquirir músculos é de forma diame-tralmente oposta, ou seja, através de movimentos repetitivos em acade-mias e ingestão de inúmeros produtos tais como complementos vitamí-nicos, sem conexão com a natureza que ocorre com os esforços físicos feitos nas roças.

No substrato do movimento ecológico que nasceu, de fato, com o movimento hippie, pacifista, norte-americano, está, portanto, a questão da religação do homem à natureza numa concepção vitalista, ou seja, com “o corpo junto” e não somente, de forma intelectual, ou seja, livresca.

Na nossa sociedade separa-se corpo de intelecto, ou seja, nenhum doutor, por exemplo, se dispõe a pegar numa enxada e trabalhar sob o sol para cultivar o seu tomate. As escolas são fabriquetas de futuros intelectuais em busca de ascensão e conquistas no mercado de trabalho que é, em última instância, uma luta para eliminação dos concorrentes. Querem estar a salvo nos gabinetes com ar condicionado enquanto os eliminados, em especial, os analfabetos que plantam maca-xeira começam a usar mangas compridas, preferindo o calor às bolhas na pele. Papai Lula está construindo hidrelétricas para termos muito ar condicionado.

Com relação à problemática dessa relação com os indígenas, existem aqueles que acreditam que os indígenas devam ser “preparados” para conviver com a sociedade dos brancos em pé de igualdade. Outros acreditam que os indígenas devam ser mantidos em seu modo de vida original. O que é comum a todos é a propagação da imagem do indígena como inferior, “menor”, vítima do preconceito generalizado, e que por isso precisa ser “acompanhado”, protegido, e nesse processo, organizações missionárias, leigas e órgãos oficiais se confrontam competindo pela  exclusividade no trato dessa questão indígena.

Acredito que o “ser índio” está além de uma localização geográfica, está sobremaneira nos modos de uma existência comunitária, nos usos e saberes produzidos há milênios, a par com um modo de relacionamento com a natureza diferente do modo da economia de mercado, o nosso, que estamos o tempo todo comprando ou vendendo alguma coisa, de forma compulsiva e imediatista, estimulando a indústria que por sua vez estimula a exploração da natureza de forma agressiva. O “ser índio” é o ser ecologicamente correto e isso não tem a ver com o modo caricatural de representação do índio, pintado de urucum, visto sempre como um coitado. Esse debate deveria entrar nas escolas, ser conteúdo de livros didáticos, inclusive.

Não é permitido às novas gerações pensar e decidir o futuro, nem tornarem-se inventivas e criativas, com domínio sobre as ciências e as tecnologias e ao mesmo tempo fincadas nas raízes, nas tradições e na cultura. O foco não deveria estar na busca de um novo modelo de desenvolvimento e sim na construção de um novo ser humano. Mas o MEC é um balcão de negócios.

Mao Tsé Tung, que fez a revolução comunista na China negou Confúcio que privilegiava a conduta, aquela coisa do “não faça aos outros aquilo que não quer que vos façam a si mesmos”, fez apenas a China tornar-se apta para ingressar na economia de mercado, tornar-se imperialista invadindo o Tibete, governado por monges, massacrados, condenando o Dalai Lama ao exílio, pelo afã de explorar inescrupulosamente os recursos naturais daquele país.

Aqui, os povos indígenas do lado português foram recuados pela economia de mercado, do litoral para o interior, até ficarem espremidos nas cabeceiras dos rios e contrafortes andinos, mas até mesmo aí estão sendo alvos da cobiça dos madeireiros que continuam avançando, dos garimpeiros e até mesmo do Governo ocupado em construção de hidrelétricas e prospecção de petróleo, nessa ânsia de colocar o Brasil em quinto lugar no rol das potências mundiais. Que sejam felizes enquanto a Terra durar.

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