Eles que paguem

O mundo inteiro, na parte que se mantém mais ou menos informada dos acontecimentos, está voltado para Copenhague onde as cúpulas apresentam propostas para redução do carbono em razão dos riscos do aquecimento global. Os desmatamentos, a queima de combustíveis com a expansão escandalosa da indústria automobilística, afora, outros, estão forçando até os limites, a capacidade de sobrevivência do planeta.

Duas questões se impõem a nossa reflexão. A primeira é o fato de que esse processo industrial do tipo que começou no século dezoito vem se dando em bases científicas segundo o modelo cartesiano. “Penso, logo existo” de René Descartes é a idéia referência para se compreender esse processo, pois a partir de então o mundo dito civilizado passou a crer que o intelecto tem a primazia quando surgiu essa tendência de dominação sobre a natureza, com apoio dos cleros que justificaram isso com a idéia de que Deus criou o mundo para os homens. Do mundo os homens tomaram posse e com esse espírito passaram a explorar de forma abusiva o ambiente natural, sentindo-se os eleitos de Deus e acreditando que todas as demais espécies vieram ao mundo para a sua própria satisfação.

Tanto os detentores do poder, seja no plano econômico seja no jogo político dos estados, cuidaram para que, através do ensino nas escolas e nas universidades toda sociedade, mesmo as classes trabalhadoras e até desempregados passassem também a viver suas existências acreditando nessa idéia de que o homem tem a primazia e todos os demais seres vivos existem para satisfação de seus interesses. É assim, em toda parte, desde Berlim, onde nos bosques não se consegue ouvir um grilo no silêncio mortal da ausência de pequenos seres vivos, até no Acre onde todos são indiferentes à situação de risco dos animais silvestres e das florestas. Desde aqueles que abatem com tranqüilidade e consentimento geral, árvores como sapupema e copaíba, para fins comer-ciais e de exportação, até aqueles que se dirigem para as cercanias do Ipê a fim de capturar curiós. O padrão mental é o mesmo, entre ricos e pobres.

O pinho de Riga desapareceu em Portugal com a construção das caravelas. A exploração do pau Brasil destruiu grande parte da mata atlântica neste país, para produção de tinturas para a indústria têxtil européia. As reservas minerais desapareceram no velho continente, obrigando os países com liderança na revolução industrial a disputarem territórios na África fato esse que transformou aquele continente numa colcha de retalhos, com diversidade de idiomas europeus e a eclosão de conflitos tribais porque países como França, Alemanha, Inglaterra submeteram esses povos de acordo com a lógica dos recursos naturais disponíveis para sua indústria sem atentar para a formação étnica dos povos submetidos. Esse processo culminou com a primeira guerra mundial que levou à segunda.

Aqui, os povos da floresta caçam indiscriminadamente com a justificativa da sobrevivência sem respeito ao ciclo reprodutivo das espécies, mesmo porque a nossa Universidade, até hoje, não criou nenhum programa de pesquisas voltado para a nossa fauna. Sem a pesquisa, sem o conhecimento é mais difícil se propor quaisquer tipo de legislação apropriada a disciplinar esse tipo de caça predatória. Do mesmo modo quase nada se conhece a respeito do processo de reprodução e restauração das próprias floretas. Por iniciativa governamental pesquisas foram e têm sido feitas com respeito às especificidades das árvores cuja madeira é útil ao processo industrial e comercial. A idéia mestra é o da utilidade. Os ganhos para alguns grupos.

Enfim, parece missão impossível desmontar essa gigantesca máquina mundial cuja alavanca está nas mentalidades. As tentativas e iniciativas de uns poucos românticos não conseguem fazer com que a humanidade reconsidere o modo como habita o planeta terra e desse modo, reverter esse processo.

A segunda questão se refere ao fato de que, nesse mesmo tempo da revolução industrial com apropriação das riquezas por uma minoria, os modelos de participação política não se estenderam à maioria, subjugada e colocada na posição de eleitora à mercê de recursos propagandísticos os mais variados. Os currais eleitorais ficaram mais dissimulados, como por exemplo, você chegar num supermercado em Rio Branco e ser obrigada a ouvir músicas de louvor e petição de milagres. Ler no jornal que um pastor foi contratado como “assessor” na prefeitura de nossa cidade. Buscam novas roupagens, mas, os currais continuam currais.

 No início do século vinte as cúpulas decidiram a partilha do mundo, como no início do século dezes-seis, Portugal e Espanha decidiram a partilha do América. Agora elas decidem sobre quem vai pagar as contas dos prejuízos causados à natureza por conta de todo esse modelo de exploração econômica, destrutivo, corroborado pelos cientistas das engenharias em geral, financiados, em suas pesquisas, pelo próprio capital industrial. Em parte alguma, nós, pessoas comuns podemos participar do jogo decisório. Nunca nos consultam para coisa alguma fazem o que querem com o nosso dinheiro, com os recursos naturais, de forma inconseqüente afetando a vida, a sobrevivência e até a saúde de todos. As cúpulas, pelo fato de serem cúpulas, já estão condenadas. Consultem os livros de História, tudo que está registrado é resultado das decisões das cúpulas, sempre em prejuízo da humanidade.

A mim, parece claro que eles, os países ricos, é que têm que pagar as contas. São elas, as grandes potências que produziram esse modelo infame de arrastar a todos, indiscrimi-nadamente, em todo o mundo para a sua órbita. Vêm deles esses modelos de universidades, excludentes e voltadas para pesquisas aplicadas que têm uma finalidade óbvia, atender aos interesses do mercado, aos interesses das atividades lucrativas de uns poucos. Por causa deles com seu aparato bélico é que se configurou esse modelo de exportação de produtos primários dos países terceiro-mundistas. Foram eles que produziram essa idéia de que os povos ditos “civilizados” são superiores aos povos tribais, africanos e americanos. Foram eles que construíram suas metrópoles com equipamentos urbanos sofisticados ao custo do sangue dos negros e indígenas nas minas brasileiras e na América espanhola. São eles que decidem o que uma professora primária ensina numa sala de aula perdida nos cafundós dessas Américas e Áfricas.

Tudo que eles são, os mais ricos, é a contrapartida da miséria do lado de cá. Eles é que têm que pagar as contas. Eles é que têm que desarmar a bomba.

 

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