O pai, o filho e o daime

Uma noite memorável aconteceu nesta quinta-feira na Biblioteca da Floresta, nesta Capital, quando se deu a apresentação dos resultados do projeto intitulado A Linha do Tucum, por Vera Froes Fernandes, historiadora, formada na Ufac em 1983, e pessoa da comunidade Céu do Juruá, uma das várias comunidades religiosas originárias da Colônia Cinco Mil que emergiu no município de Rio Branco, nos anos setenta, sob a liderança carismática de Sebastião Mota de Melo.

O projeto foi um dos sete aprovados, nesta linha de cultura imaterial, entre mais de sete mil apresentados à Petrobras que dispõe, hoje, de um fundo para financiamento de projetos destinados à preservação am-biental, que segundo se comenta, é uma forma daquela estatal amenizar os danos que o seu produto vem causando ao ambiente.

A idéia surgiu quando Valfredo Gregório Mota, filho e sucessor de Sebastião e também primo de Francisco Gregório Filho, comprou o seringal Adélia no Vale do Juruá, onde nasceu em 1950, com sua biodiversidade preservada pelo antigo dono, ao contrário dos demais já bastante agredidos, em especial os lagos piscosos, pela ação dos mercadores de peixe com seus barcos frigoríficos. E também pelo fato de sua mãe, Rita Gregório de Melo afora outras mulheres de mais idade da comunidade religiosa, ainda lembrar-se dos seus conhecimentos e habilidades no fabrico da linha do tucum bem como dos diversos artefatos tais como linha de anzol, tarrafa, chapéu e outros produzidos com a fibra daquela palmeira.

Valfredo Mota contou que ao chegar naquele seringal que dista vários dias de barco de Cruzeiro do Sul, município acreano, sede da bacia do Juruá, encontrou várias famílias esparsas, uma “humanidade abandonada” disse ele, desde a queda do preço da borracha, ocorrida no mesmo período em que nasceram ele e seus irmãos, o que obrigou seus pais e tios, trabalhadores daquele seringal, a migrarem para Rio Branco, onde acontecia assentamento em meio rural deste município, juntamente com diversas outras famílias de ex-seringueiros. O fato de que algumas dessas famílias passaram a vender seus lotes, ao preço de cinco mil cruzeiros, deu origem ao nome Colônia Cinco Mil. O fato também de que seu pai, Sebastião, em razão de uma enfermidade aparentemente incurável pelos médicos ter buscado socorro com Irineu Serra, mentor da doutrina do Santo Daime, tornou-se, também ele, um condutor de comunidade místico-religiosa que ficou conhecida no mundo inteiro com esse nome de Colônia Cinco Mil.

A feição mística e religiosa desses grupos que estão hoje sob a liderança de Valfredo Mota, em diversas partes do mundo, contribuiu para o surgi-mento de uma consciência ecológica. Desde o período da gestão de Sebastião que já havia essa preocupação com a preservação da natureza e em especial, a idéia de que a sobrevivência material e espiritual das pessoas seguidoras e da própria doutrina do Santo Daime, dependeria de um retorno à floresta onde está o Jagube e a Chacrona, nativos, espécies que entram na composição do chá inventado pelos indígenas. Tanto é que, entre as diversas igrejas de daime que surgiram em Rio Branco, a única que apresenta esse tipo de preocupação é aquela fundada por Sebastião Mota. Isso porque, para ele, era preciso trazer as idéias do céu para a terra, ou seja, a irmandade deveria ser algo vivido de fato e não só falado. Sem contar que ele percebeu que em Rio Branco, a depredação aumentaria cada vez mais, após a abertura da BR-364 e que aquela comunidade, que crescia por sua vez, com diversas famílias agregadas, não poderia sobreviver em um pequeno agrupamento de lotes rurais. Foi dele a iniciativa, em 1983 de reconduzir essas famílias para a floresta, numa espécie de retorno, partindo para uma gleba na região de Boca do Acre, de onde foram expulsos anos depois por um grileiro, partindo pela segunda vez para outra região da bacia do Purus, a margem do Igarapé Mapiá, desta vez, com apoio do Governo Federal.

Essa preocupação com a preservação da floresta como condição primeira da preservação do Santo Daime foi que levou seu filho, décadas depois para essa grande empreitada que foi retornar ao Vale do Juruá e trabalhar nesse sentido de preservar a nossa biodiversidade, ainda intacta, naquele seringal e ao mesmo tempo resgatar as antigas técnicas aprendidas com os indígenas, no caso, os Kulina e os Katuquina, de fabricação de artefatos com as fibras vegetais da palmeira do Tucum. Além disso, no campo da simbologia,  a Linha do Tucum, que é título de um dos hinos que compõem o “O Cruzeiro” de Irineu Serra, origem de todos os hinários que passaram a surgir com a contribuição mística de seus seguidores, representa, no campo da simbo-logia, os laços da solidariedade e da lealdade, sobretudo. Representa, por assim dizer, a força inquebrantável da lealdade no âmbito das relações humanas. Por isso que o projeto, apresentado pela comunidade e aprovado pela Petrobras, trabalha esse resgate das antigas competências e habilidades dos povos da floresta em inter-face com a simbologia imbuída na própria doutrina contando com a consultoria de antropólogos e, do acreano Evandro Ferreira, do INPA, referência mundial como especialista em palmeiras.

O retorno à fabricação de artefatos com a linha do Tucum é um modo de resistência ao impacto ambiental produzido pela grande indústria que estimulou o consumo nesta região, como em outras, de artefatos de nylon e plásticos em geral que, não são biodegradáveis. Centenas de milhares de moradores das florestas estão hoje a poluir os rios e igarapé com resí-duos sólidos, descartáveis, produzidos pela indústria.
As atividades desenvolvidas durante a execução desse projeto, mostradas em documentário exibido nesta quinta-feira, no auditório da Biblio-teca da Floresta, foram as do processo da fabricação dos artefatos desde a retirada da folha da palmeira, à extração da fibra, à produção de tinturas com produtos da flora regional tais como urucum e açafrão, a fiação, o macramé e outras técnicas. Além disso, oficinas de tratamento de sementes, e sistemas de agroflorestas envolvendo, inclusive, crianças da comunidade, representam um novo modelo de ocupação e exploração econômica realmente sustentável. Os produtos que resultaram desse projeto estão expostos no salão da Biblio-teca da Floresta, no andar superior, até 1° de janeiro.

Essa iniciativa de Valfredo Mota representa uma verdadeira resistência de forma organizada e pacífica à penetração dos poluentes da indústria, através das estradas, e também às práticas predatórias dos mais diversos agentes da força mercantil que devassam nossas selvas, solapando nossas reservas para corte e exportação de madeira, alterando o equilíbrio ecológico também com a caça indiscriminada e a pesca sem controle. Segundo Valfredo Mota que fez uma explanação dessa grande empreitada ecológica, registrada inclusive em seu livro, Viagens pelo Juruá, lançado nesta mesma noite, o Ibama está colocando um freio nesse processo pavoroso de destruição.

Podemos afirmar que a iniciativa de Valfredo Mota, uma liderança místico-religiosa representa uma verdadeira trincheira nessa grande batalha onde de um lado está a nossa biodiversidade e de outros os interesses dos capitalistas. A preocupação em reunir famílias e comunidades que estavam dispersas, ao abandono, como bem disse ele, em novas bases comunitárias, segundo os valores da solidariedade e da lealdade constitui um modo de resistência que poderá enfrentar, em curto espaço de tempo, a avalanche de destruição que irá cair sobre o Vale do Juruá com a finalização da rodovia que liga Rio Branco a Cruzeiro do Sul, onde populações urbanas, incapazes de cultivar tomates, vivem a chorar e lamentar-se com a carestia de produtos alimentícios que chegam de avião.

 

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