Quero arroz Tio Jorge

É possível que não haja solução para a problemática social neste Estado. Isso porque existe governo, mas ao mesmo tempo não existe. Há que se cumprir o que determina o planalto mesmo porque aqui se vive quase que só de emendas parlamentares.

Por toda parte há um clamor sobre os milhões de pessoas que passam fome no mundo inteiro, isso porque a produção e a distribuição de alimentos se dão de acordo com os interesses comerciais de alguns grupos. Isso não é novo, mas o problema se agiganta e nenhum país apresenta uma solução. O Brasil está sendo olhado como modelo por causa do programa bolsa família que aqueceu, inclusive, o mercado interno.

O mercado interno, nesse caso, é o dos centros produtores do país já que no nosso caso, consumimos os alimentos produzidos em outros estados. As iniciativas governamentais, aqui, são pontuais, como a de alguns núcleos de produção de farinha e alguns pólos de piscicultura e outros. Precisamos de um planejamento para a produção de alimentos mais amplo e capaz, de, em futuro próximo, fazer com que nossos salários não sejam sangrados, como ocorre, para outros centros produtores.

 Afinal, com nossos salários nós mantemos os empregos de agricultores, operários e bóias-frias de outras regiões. Então, falar em aquecimento do mercado interno, no Acre, é um engano. Tudo vem de fora. Quero comer arroz Tio Jorge e não Tio Urbano. Na terra da seringueira e onde o inverno dura seis meses, seringueiros não fazem mais sapatos de borracha, compram botas sete léguas da indústria paulista! E o governo se ocupa com fábrica de camisinhas, um descartável baratíssimo. “Procura-se” economistas no Acre.

A produção de alimentos já foi alvo de interesse de estados, quando era necessário um grande contingente de recrutas para os exércitos, devido às guerras anteriores à era dos mísseis. Se os campos não eram produtivos não poderiam existir soldados bem nutridos, nem seria possível vencer nenhuma guerra. Hoje, isso não sendo mais necessário, não ocorre esse tipo de preocupação com a produção de alimentos de forma a garantir os nutrientes essenciais para toda a população. No caso do Brasil, as coisas ficam ainda piores, pela sua posição no mercado mundial enquanto exportador de produtos primá-rios ao custo de grandes extensões de terras que sacrificam aquelas médias e pequenas voltadas para a produção de alimentos. Na Europa, países, como a França realizam o protecionismo em sua produção de horti-frutigranjeiros. Ou seja, o Governo francês protege suas divisas.

O Brasil por não ser um Estado unitário e sim uma federação, apresenta históricas e insolúveis discrepâncias regionais. Para Octavio Ianni o Brasil é um arquipélago, um conjunto de ilhas, onde cada Estado cuida de si. Visão esta muita distinta daquela que aprendemos na escola. Aprendemos a amar o Brasil e os símbolos na-cionais, mas não conseguimos identificar as contradições que existem por trás dessa aparente unidade nacional. Desde o perío-do das Capitanias Hereditárias que as exportações se faziam de forma isolada e direta com o centro comercial europeu. Com as províncias durante o Império e depois os estados, pós República, aqueles que se constituíram enquanto economias fortes, como São Paulo com a exportação do café, seguido por Minas e Rio de Janeiro, esta capital e centro exportador, passaram a ocupar um lugar mais privilegiado que os demais. A derrocada da borracha jogou o emergente Acre, em alta, no início da República, para o último lugar da fila. E continua capengando. A grande visão dos grupos que estão no poder é a redenção na forma de corredor de exportação.

Desde o número de parlamentares no Congresso e de eleitores ao próprio modelo de desenvolvimento econômico, nosso Estado, que figura na bandeira como mais uma estrela, não constitui uma força expressiva. Dá para imaginar o malabarismo que nossos parlamentares devam fazer, junto às bancadas dos grandes estados, para conseguir suas emendas e manter aqui, o costumeiro e velho jogo da perpetuação do poder. É nesse sentido que dizemos que temos governo e não temos governo.
Além disso, as nossas elites que constituíram patrimônio no período da borracha, aqui e em outras praças, tomaram duas direções distintas, uma parte se dispersou, a outra parte aderiu aos novos modelos de exploração econômica, tanto dos nossos recursos naturais como dos trabalhadores, além de que se apropriou do controle do Estado. Nesse sentido, nada podemos esperar delas que sobrevivem, enquanto casta, dessa circulação de mercadorias, da mera revenda de tudo. 

Na margem, muitos homens e também mulheres, de todas as idades, passam suas existências nesse ir e vir da penitenciária. Se trancafiados, reclamamos porque pagamos a conta. Se liberados, vêm nos ameaçar. Não há possibilidade para eles de inclusão social porque não existem empregos disponíveis e nem terra para trabalhar, ou caso tenha, não têm recursos. A imprensa local está mostrando todos os dias essa onda de violência causada pelo narcotráfico. Mas nossas instituições ainda não estão fortes o suficiente para, através do fisco, encontrar e identificar os principais responsáveis. Sendo um mercado paralelo não deixa de apresentar as características típicas de um mercado, ou seja, precisa de credores e/ou financiadores.

No governo de Guiomard Santos, cujos ossos foram trazidos de um cemitério no Rio de Janeiro para o centro da nossa cidade, junto com os de Lídia Hammes, a idéia de prisão era concebida como Colônias Agrícolas. Os presidiários poderiam viver nessas colônias, em suas casas simples, com suas famílias e a produzir alimentos. Não sei se ao sair rece-biam um lote de terras cultiváveis. Acredito que sim, a cidade era muito menor que hoje e mais fácil para os governos serem complacentes. Se o narcotráfico já existia não estava afetando a milhares de famílias, em especial as de baixa renda como hoje em dia. Entrevistei Lidia, aos 83 anos, quando percebi que ela tinha cons-ciência ecológica.

De todo modo, esse tipo de iniciativa governamental, colônias penais agrícolas, não pode ocorrer hoje, porque existem as concessões para fornecimento de alimento para os presidiários e esse tipo de coisa envolve alianças políticas. Ou seja, todos querem se capitalizar sem preocupação com os custos sociais. Todos querem ficar no poder sem preo-cupação com o bem-estar geral. Buscam saídas sofisticadas em vez das mais simples e eficazes.

Quando Jesus disse “Pai perdoai-os porque não sabem o que fazem” provavelmente estava se referindo ao fato de que as pessoas que cometem crimes são, na maioria das vezes, inconscientes. Acredito que se colocassem esses jovens infratores para trabalhar no campo, em hortas, roças, para que queimassem as energias mal sãs e tivessem o prazer de saborear o alimento produzido com o próprio suor, bem como, se pudessem ter aulas após o almoço, de marcenaria, mecânica e outros ofícios, e após o jantar, aulas de matemática, português, história e geografia, o dinheiro do contribuinte seria muito melhor empregado. Deixá-los à própria sorte é nos deixar também a todos, indiscriminadamente, à própria sorte.

 

 

 

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