Fila da morte: a história dos ex-guardas que lutam pela vida

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Se há algo que atormenta o homem desde o início de sua existência é a morte. Todos têm medo de um dia estar frente a frente com ela. A forma como encará-la é mais aterrorizante ainda. Em conversas de amigos, fala-se da melhor maneira de morrer, se é que isso é possível. Para centenas de homens que da década de 1960 até 1997 trabalharam com o pesticida Dicloro-Difenil-Tricloroetano (DDT) a morte chega da forma mais cruel possível.

Aos poucos ela se aproxima de uma forma destrutiva e silenciosa, causando dor e sofrimento. Pessoas jovens sofrem de doenças degenerativas que as deixam agonizando sobre um leito de hospital ou em casa mesmo. Para elas, a morte sempre se avizinha. No Acre, o problema pode ser encontrado de Acrelândia a Mâncio Lima, os dois municípios localizados nas duas extremidades do Estado.

Nos últimos nove anos, 57 ex-guardas da falecida Sucam morreram vítimas de complicações no organismo provocadas pela contaminação por DDT. Não há um número preciso, mas estima-se que mais de 400 pessoas também estejam afetadas pelo veneno. As seqüelas aparecem em menor ou maior grau. Criada há um ano, a Comissão DDT e Luta pela Vida diz acreditar que 18 estão naquela que foi chamada a “fila da morte do DDT”.

À primeira vista talvez essa definição soe como uma hipérbole. A fila da morte não segue uma ordem sequen-cial. Há casos, sim, de pes-soas a um passo de morrer. Com o DDT a morte chega de surpresa. A maior prova foi o falecimento de Manoel Nogueira dos Santos, de 48 anos. Ele foi a 57ª vítima do DDT. Mas ninguém esperava que ele seria o próximo. “Nós dizemos que o Manoel furou a fila”, comenta José Rocha de Aguiar, vice-presidente da comissão.

Essa semana A GAZETA visitou as cidades mais próximas de Rio Branco para ver de perto como está a situação dos ex-guardas da Sucam contaminados pelo pesticida.  São relatos que chegam a ser uníssonos de  Franciscos, Sebastiõess, Joões, Raimundos, Josés que têm em comum uma história de vida e o preço que pagam hoje. Em um sofá já desgastado pelo tempo, Sebastião Granjeiro de Melo, 58, passa o dia deitado. A destruição causada ao organismo pelo DDT impossibilita-o de andar grandes distâncias.

Antes não era assim. Seu apelido entre os colegas de trabalho era “tratorzão”, uma referência à força e bravura de Sebastião, que chegava a passar mais de 90 dias dentro da floresta carregando seus pesados equipamentos. Entre eles, os pacotes de 670 gramas de DDT. Sob sol e chuva, os ex-guardas da Sucam mantinham contato direto com o veneno. Os resultados desse convívio perigoso, que eles não sabiam, surgem anos depois.

Em 1999, Sebastião precisou passar por uma intervenção cirúrgica para retirar tumores em sua cabeça. A anomalia afetou o osso craniano, e agora esta região do corpo é protegida por uma superfície artificial. Em um armário da cozinha, uma cesta de remédios tarja preta ameniza os efeitos da contaminação. José Maria dos Santos tem 46 anos. Por uma década borrifou a casa de ribeirinhos e seringueiros no município de Xapuri (distante 188 km de Rio Branco).

No meio da floresta ficava mais de dois meses com a mesma roupa e botas. O contato com o DDT acontecia dos pés à cabeça. O balde usado para preparar o veneno também servia para armazenar a água que bebiam. O trabalho pesado, que resultava em caminhadas de várias horas por dia, afetou o pé. Há duas semanas teve o dedo mínimo do pé direito amputado.

Com 49 anos, o ex-guarda Sebastião Batista traz nas lembranças o passado sofrido em plena Floresta Amazônica. Isso foi de 1983 até a extinção definitiva do uso do DDT no Brasil: 1997. “Sinto fortes dores nas articulações. Por dentro há um formigamento horrível”, tenta explicar Batista. Para controlar as sequelas, ele mantém uma rotina diária à base de medicamentos.

Os alimentos usados nos primeiros dias de missão, conta Batista, eram armazenados por cima dos pacotes com o DDT em pó. “Da mesma forma iam nossas redes e roupas”. Os mantimentos acabavam logo. A casa dos seringueiros era a salvação; lá dormiam e saciavam a fome. “Me cansei das vezes que passei aniversário, Natal e Ano Novo dentro da floresta”, afirma.

Inconformado com a situa-ção que vive hoje, desabafa: “Demos um nome sagrado à instituição [a Funasa] e agora estamos assim. Levamos saúde para os seringueiros e perdemos a nossa”. A revolta toma de conta, principalmente, dos que estão à frente da luta para que a estrutura do Estado reconheça o erro do passado, e preste um auxílio digno dentro do sistema público de saúde. 

“Considero essa situação uma chacina”, diz José Aguiar, numa referência ao descaso do passado, do presente e, quiçá, do futuro. A grande maioria dos guardas da Sucam, hoje funcionários da Funasa (Fundação Nacional de Saúde), está na faixa etária entre 48 e 60 anos. Homens jovens que apresentam uma fisionomia abatida, conseqüência do convívio com o veneno e o tratamento realizado com remédios fortes.

José Ribamar, 49, começou a manusear o DDT em 1987. Foram mais de 10 anos “respirando” o pesticida e tocando-o. Morando em Acrelândia (105 km da Capital), ele precisa usar constantemente camisas de mangas longas para esconder as feridas provocadas pelas coceiras que sente. As cicatrizes também estão espalhadas pelas costas. Além disso, fortes dores musculares o impossibilitam de andar.

Seu companheiro de trabalho Francisco da Costa Melo, 54, também passa pelo mesmo drama. O sofrimento é sentido por toda a família. Melo só consegue dormir durante as noites após as massagens feitas pela esposa, pois a dor nas pernas não permite repousar, tamanha é a tormenta. Ele saiu do hospital há poucos dias, pois só o tratamento caseiro não foi suficiente para amenizar os efeitos destrutivos do DDT.

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Do guarda ao motorista, DDT não fez escolha de suas vítimas
Durante os anos que foi usado na Amazônia, o DDT afetou todos os funcionários que trabalhavam perto dele – não importando o nível de contato. Mas quem mais acarreta os danos são, com certeza, os ex-guardas de endemias que por mais tempo lidaram com o pesticida. O veneno estava impregnado nas suas peles. Sebastião Gomes da Costa, 57, foi admitido em 1975 para integrar o “exército” de combate ao mosquito da malária.

Sente os mesmos sintomas que os colegas citados acima. Chegou a estar em estado grave meses atrás. Recuperou-se, mas precisa lidar todo dia com o fardo da contaminação. “São doenças incomuns para uma pessoa da minha idade”, lamenta Gomes. O que mais deixa indignados os ex-guardas da Sucam é o fato de não terem sido avisados no passado sobre os riscos do DDT. “Falavam-nos que o único efeito era contra os vetores da doença”.

O DDT quando enviado para o Brasil já tinha sido proibido na Europa e Estados Unidos. “A indústria [que fabricava o pesticida] ‘empurrou’ para os países de Terceiro Mundo tudo aquilo que tinha sido produzido”, diz Emir de Mendonça, 64, que foi chefe de equipe dos ex-guardas da Sucam entre 1965 e 1980. Seu trabalho era de colocar o DDT em pó nas embalagens de 670 gramas, e as distribuía.

Os pacotes, recorda ele, eram usados como travesseiros durante o tempo de repouso no trabalho. Mesmo não inalando o DDT nem aplicando-o nas residências, sua saúde foi afetada. A região do corpo mais afetada foi a garganta, além, lógico, de sentir as mesmas dores nas articulações e o formigamento. “É como se tivesse queimando por dentro do corpo”.

Da mesma época de atuação de Mendonça é o senhor Francisco Rodrigues de Nascimento. Mesmo trabalhando tanto tempo em contato direto com o DDT, ele chegou aos 78 anos de idade resistindo à contaminação. Mantém uma memória lúcida, e se lembra quando percorreu seringais de Rio Branco, Sena Madureira e Brasiléia. Sem forças para andar, ele precisa de uma bengala para caminhar entre sua cadeira de balanço na varanda da casa para o interior.

Para não machucar ainda mais a pele por conta das constantes coceiras, ele usa uma escova de lavar roupa para atenuar o sofrimento. Gerson Leandro é mais um servidor que não teve muito contato com o DDT. Por algum tempo foi motorista, transportando guardas e centenas de quilos do pesticida. Mas a “distância” não o livrou. Exames realizados apontaram um índice de contaminação de 13%.

Além das histórias e sequelas comuns entre essas centenas de ex-guardas da Sucam, eles dividem outro problema: a dificuldade em ter um tratamento digno na rede pública hospitalar, além do desprezo da instituição em que trabalham, ou trabalharam.  Para eles, só cabe torcer para que não sejam os próximos da “fila da morte do DDT”. É uma luta de Davi contra Golias.

 

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