Quando as flores não cheiram bem

As flores nunca me fascinaram. A explicação, talvez, esteja relacionada às extravagantes cortinas de chita florida que a minha mãe pendurava em vários cômodos da casa quando eu ainda era pequena demais para protestar. Ou quem sabe, seja pelo fato, de que na Estação Experimental, bairro onde eu passei toda a minha infância, era costume as crianças colherem flores para enfeitar os caixões dos falecidos da vizinhança. Já na idade adulta, elas sempre surgiram como um pedido de desculpa, por umas e outras que toda mulher conhece bem.

Portanto, meus caros leitores, no meu caso em particular, as flores não trazem boas recordações, e na semana passada eu ganhei mais um bom motivo para continuar pensando assim. Fiquei sabendo que, as flores, junto com as receitas de bolos, são temas utilizados pelos jornalistas para dizer que não podem dizer nada ou então para mudar de assunto quando recebem recados do tipo “a chapa vai esquentar pras bandas do…..”.

Infelizmente o jornalista Antônio Muniz não teve tempo de escrever sua receita de bolo ou demonstrar seu romantismo através de um artigo assinado sobre flores. Foi levado ao xadrez sem pena nem dó e ainda humilhado publicamente com um par de algemas. Ao contrário do Adailson Oliveira, articulista do Portal de Notícias agazeta.net, que na semana passada publicou o artigo “Então vamos falar de flores”, quando na verdade queria mesmo era falar sobre “A festa da lista trípice”.

O que precisa ser dito neste momento é que a imprensa mais uma vez corre o risco de ser amordaçada, e desta feita não pelo Executivo, como já era costume, mas por instituições que, em tese, tem o dever constitucional de zelar pelo bem da coletividade. O jornalista também tem um papel social relevante. É através dele que a sociedade fica sabendo dos escândalos, das roubalheiras e das armações que são arquitetadas diariamente contra o povo.

O que muito nos admira, é que  uma instituição como o Ministério Público, – o guardião das leis e da sociedade – como ocorreu nos dois casos, se sujeite a fazer o papel de intimidador de jornalistas. Então vejamos, a prisão do Muniz foi sugerida pelo MPE e o repórter Adailson Oliveira, já foi avisado, através de um aliado do MPE que será interpelado judicialmente por conta do seu artigo “A festa da listra tríplice”.
Espero que os jornalistas acreanos deixem de lado as suas questões pes-soais e combatam fatos como estes, que a priori, podem parecer questões isoladas, mas o que realmente está em jogo é muito mais que a liberdade de expressão, é o direito da sociedade de ficar real-mente bem informada.

Pensem nisso ou então se matriculem urgentemente num curso de culinária ou de reciclagem sobre flores. Ademais, ninguém nos liga para agradecer ou nos manda recado quando somos pautados para fazer matérias positivas a respeito de suas ações.

*Dulcinéia Azevedo é jornalista e escreve às terças-feiras nesta coluna. E-mail: [email protected]

 

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