As Veias Abertas

Por conta do intenso processo de integração que o Acre vive com os vizinhos Peru e Bolívia tenho viajado bastante por esses países. Durante os mais diversos trajetos quase sempre me lembro do livro que li na minha adolescência do escritor argentino Eduardo Galeano, As Veias Abertas da América Latina. Escrito nos anos 60, a obra mostra a exploração das potências econômicas do nosso Continente Sul-Americano.

No percurso mais recente que fiz entre Pucallpa e Huanuco,  no Peru, cheguei a conclusão que as coisas não mudaram muito. Como pode um país tão rico em petróleo, gás, prata, estanho ter uma população vivendo de maneira tão pobre? As elites conti-nuam cada vez mais ricas e o povo vivendo à margem da prosperidade. Na transposição da floresta para as montanhas andinas o que vejo são casas construídas de maneira precária, falta de água potável e esgotamento sanitário, escolas deficitárias e as pessoas vivendo de maneira primitiva em pleno século XXI.

A solução para essa equação humanitária é a criação de uma infra-estrutura que leve em conta não só o desenvolvimento econômico, mas também a inclusão social. Não adianta construir estradas, pontes e obras faraônicas se o povo não tem saúde e nem recursos para crescer no conhecimento das novas tecnologias disponíveis do mundo globalizado.

Assim como no tempo de Galeano os nichos de pobreza na America do Sul continuam a ser uma ferida aberta para ser curada pela nossa civiização. É certo que houve alguma evolução natural dos meios de produção e da infra-estrutura desses países e do Brasil. Mas a problemática ainda é muito séria.

A tão propolada integração só será possível se feita pelos seres humanos de maneira igualitária. Já passou da hora dos pobres países do terceiro mundo se unirem num bloco político e econômico que permita às gestões governamentais beneficiarem os seus habitantes. Enquanto o planeta discute o seu futuro em Copenhague, na Dinamarca, por aqui continuamos marginalizados dos serviços essen-ciais para o bem-estar humano.

Se serve de consolo, a realidade social do Brasil é muito melhor que a dos seus vizinhos. Mas há muito ainda para ser feito para vencermos a corrupção e o desperdício de dinheiro público. É preciso que os nossos políticos tenham a consciência de que ninguém vive para sempre. As próximas gerações de brasileiros e de latinos americanos cobrarão num futuro próximo as sementes plantadas que possam gerar uma vida digna para todos e todas. A única saída viável para o futuro planetário é realmente a inclusão das massas empobrecidas. Senão for assim continuaremos a assistir as difusão das ditaduras populistas e nacionalistas que pouco acrescentam ao nosso desenvolvimento.     

* Nelson Liano é jornalista
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