As aparições

Uma pessoa que dormia numa barraca nos arredores de Porto Acre acordou no meio da madrugada com a visão de uma estranha presença, um homem fardado, na verdade um esqueleto fardado, que a olhava com olhar profundo de tristeza. Essa visão me lembrou Cândido Portinari com sua obra Os Retirantes. Uma segunda pessoa foi lavar as mãos no rio frente a um restaurante que existia em Porto Acre e para seu assombro o rio lhe pareceu totalmente tingido de vermelho como sangue. Uma terceira pessoa viu um oficial fardado andando para lá e para cá na rua de frente ao rio, provavelmente se tratava da alma penada de Plácido de Castro.

Saber dessas aparições não me causou estranheza nem choque cultural porque sou nascida e criada nesta cidade e na minha infância, a luz apagava cedo e eu era do tipo onde tinha uma roda eu dava um jeito de entrar para ouvir a conversa. Sendo que as conversas do depois do jantar mais constantes eram aqueles com o Compadre Joaquim que ficava a contar casos de aparições em seringais e outras histórias sem pé nem cabeça as quais ele mesmo denominava de miolo de pote. O que era mais comum eram as histórias de botijas cheias de patacas de ouro, cujo proprietário já falecido ficava a aparecer para um e outro que tivesse a coragem de ir desenterrá-la à meia-noite. Pessoas que mor-riam afogadas e apareciam para dizer onde estava o corpo. E várias outras.

Nós crianças ficávamos com muito medo principalmente na hora de voltar para nossas casas coisa que se fazia em separado sendo que as casas eram avarandadas e altas o suficiente para olharmos apavoradas para a escuridão do porão da casa do vizinho. Ainda existia o fato de que no Cine Recreio a proibição para menores de idade não era muito aplicada e assim podíamos ver filmes horrendos. E se não os víssemos éramos obrigado a ouvir algum adulto até da nossa casa a narrar com detalhes quando a múmia se levantou e andou. Uma vez após assistir um filme de vampiro adoeci com febre de tanto pavor que senti.

Mas aquela primeira aparição volta e meia incomoda como quando algo inquietante nos acontece e fica a pedir alguma explicação a qual não podemos apresentar logo de imediato.

Um dos livros de história que mais amei foi A Cidade Antiga de Fustel de Coulanges. Ele faz uma abordagem sobre os costumes da Roma e Grécia antigas, entre os quais o fato de que para esses antigos não existia medo da morte e sim medo de ficar sem sepultura. Tanto é que se um cidadão romano envelhecia sem filhos ele era autorizado a adotar um rapaz, pois, estava implícita na adoção a obrigação de fazer libações anuais no túmulo do pai. Uma vez aconteceu que uma tempestade atingiu os barcos cujas tripulações estavam guerreando. De volta à Atenas, feita a contagem de mortos e vivos ficaram faltando alguns corpos. Os generais explicaram aos pais que devido à tempestade não foi possível recolher os corpos. Foram enforcados por isso. De outra feita um soldado grego passou a ser perseguido em sonhos pelo fantasma de um amigo morto em campo de batalha que lhe indicava o local onde estava seu corpo. Finalmente ele conseguiu autorização para entrar no campo inimigo e trazer os restos mortais do amigo.

Ouvi falar uma vez, em Porto Acre que haviam encontrado os restos mortais de alguém que não se sabia quem era, quando se cavava um poço. Trabalhei naquela região quando coordenava o patrimônio histórico da Fundação Cultural, ocupada com o trabalho de revitalização da Sala de Memória e com a descoberta do sítio histórico do Seringal Bom Destino.

Nos arquivos da Coordenadoria de Patrimônio Histórico da extinta Fundação Cultural me deparei com um projeto que tinha sido do governo Nabor Júnior sobre a reconstrução de Porto Acre. Uma comissão havia sido encarregada de fazer um levantamento histórico, da qual lembro os nomes da Rose Costa e do Josué Fernandes, ambos meus colegas na faculdade de História. O que me chamou a atenção, em especial, foi a idéia de se construir, naquela cidade, um monumento aos mortos. Muitos anos depois participei de uma reunião do Conselho de Patrimônio Histórico quando sugeri que se realizasse um culto ecumênico em Porto Acre em razão dos mortos da revolução acreana que ficaram sem sepultura.

Fustel de Coulanges é aquele historiador do tipo que pensa que o passado tem um lugar, é um fato consumado e assim deve ser abordado. Jules Michelet seu contemporâneo pensava diferente que os vivos e os mortos habitam uma mesma cidade e na sua visão de totalidade coexistiam vários planos da realidade. Aquelas aparições que me foram narradas em Porto Acre tanto podem ser substantivas, como projeções do inconsciente coletivo segundo a psicologia junguiana. O que importa é que evocam uma mesma realidade, no nosso caso, milhares de mortos, de um lado e de outro, ficaram sem sepultura.

A cultura brasileira, bem como a boliviana é predominantemente latina e mesmo romana por causa dos alicerces colocados pela Igreja Católica no período colonial em ambos os paí-ses. A preocupação com a sepultura é um costume que permanece inalte-rado com o passar dos séculos.

Para um historiador o que importa é o que falta, ele procura o que está oculto nas ausências, nas lacunas, na página que falta ou que foi arrancada, no que não foi dito. E mais, ele não é alguém que está fora do acontecimento, na platéia, ele também participa do teatro, da tragédia, do drama, da tragicomédia, como se queira. Ele dialoga com seus pares e com o ambiente em que vive, investiga e elabora. Do mesmo modo um médico que não conhece os costumes dos habitantes onde trabalha pode ser de pouca ajuda.

Amanhã se comemora o aniversário do final da revolução acreana. Uma revolução como as outras quase sempre por causa de impostos. Assim foi com a revolução francesa, assim foi com a revolução norte-americana. Só os grandes vultos são homenageados. E é bom lembrar Brecht: “quem construiu as sete portas de Tebas? Nos livros só vem o nome dos reis. Cezar venceu os gauleses. Nem sequer tinha um cozinheiro a seu serviço?” Os cozinheiros e os infelizes seringueiros combatentes que foram obrigados a pegar nas armas a mando dos coronéis de barranco, ocupados e preocupados com seus negócios na exportação da borracha, ainda estão lá, no limbo.

 

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