Enrolados nas bandeiras

Sou da opinião que deva ser criado um Governo da Amazônia independente das nações cujos territórios a integram. As fronteiras, os limites, são artifícios construídos ao longo dos séculos pelas nações em suas campanhas militares e/ou diplomáticas em razão dos interesses de suas respectivas economias. O nacionalismo é um artifício, uma invenção. Para que a Amazônia sobreviva esses artifícios devem desaparecer.

O Banco Mundial e seus congêneres, já vêm alongando seus tentáculos e se apropriando de toda sorte de informações sobre a nossa biodiversidade, sempre em intenção da expansão do sistema capitalista que só privilegia as classes altas.

 Há décadas lemos nos jornais sobre milhões de dólares que sempre estão vindo para o Acre, enviados pelo BID ou BIRD sendo que as populações da Amazônia continuam na situação de sempre. Eduardo Galeano, escritor e jornalista uruguaio, em artigo recente, fez severas críticas aos ecologistas: “os tecnocratas do meio ambiente embrulham o tema com o papel celofone da ambigüidade”. E, “propalam a ecologia neutra, ou seja, a militância ecológica divorciada da luta social”.

 De fato, os ambientalistas cientistas não se preocupam com a mobilização da sociedade e passam ao largo da relação capital versus trabalho, como se a questão ambiental fosse descolada da questão social, da má distribuição de renda, da exploração dos trabalhadores, das suas dificuldades de sobrevivência e acesso a saúde e educação.

Tecnocratas ambientais estão trabalhando, em nossa região, para identificação de áreas florestais onde ocorrem cacaueiros nativos em função da demanda de uma grande indústria européia que quer vender “o melhor chocolate do mundo”. Várias Ong’s e Universidades estão executando esse projeto. Podem estar com as melhores das intenções, mas atuam como meros agentes do capital internacional. A economia da Amazônia não sai do século dezesseis, aquele do ciclo das drogas do sertão, do mero extrativismo vegetal que enriqueceu uma cadeia de intermediários até chegar ao consumidor europeu. Hoje não se trata mais de aventureiros como no século dezesseis e sim de cientistas cujo trabalho é monitorado por satélites. Não se vem a público discutir esse tipo de coisa com a sociedade.

 Não será possível nunca proteger a Amazônia enquanto os governos dos países em que ela se inscreve estiverem comprometidos com os interesses daqueles que possuem capital. Apenas a Bolívia avançou, politicamente. Naquele país os três partidos, tradicionais, perderam espaço para o movimento social indígena que se fortaleceu no calor das lutas, como ocorreu quando se mobilizaram contra a exploração de uma companhia francesa que detinha o monopólio da distribuição da água em El Alto – lugar com problemas de escassez de água – e que cobrava as contas indexadas ao dólar. No Brasil, os movimentos sociais estão paralisados, os partidos tradicionais ainda dominam a cena, a serviço de si mesmos e dos seus patrocinadores, em especial as empreiteiras.

Os movimentos sociais com suas formas de mobilização das forças sociais constituem verdadeiras escolas de apropriação do conhecimento que só se verifica na luta. Aquele conhecimento das condições materiais da existência e, por conseguinte, das múltiplas formas de exploração dos trabalhadores pelos patrões. Não é porque se cessou de falar sobre isso, não é porque não se fala mais em “patrões e trabalhadores”, como “antigamente” que a problemática desapareceu. Está mais complexa. E envolve hoje a questão dos recursos naturais não renováveis que é patrimônio da humanidade.

Em  São Paulo, 50% da água consumida por 18,5 milhões de habitantes, mais cidades vizinhas, vêm de bacias distantes.  O número de imóveis cadastrados nos últimos dez anos naquela capital aumentou 55%. A Sabesp está investindo neste quadriênio 2007-2010, 6 bilhões de reais. A cada segundo, 80% de 70 mil litros de água tratada, são lançados, por segundo, nas redes de esgoto. E ainda, 40 mil litros de água não tratada, são jogados, por segundo, nos rios e igarapés. O Brasil detém 13% de toda a água do mundo. .São Paulo detém apenas 2% desses mananciais. E o Acre quanto detém? Quanto vem perdendo com poluição e saques das florestas?  O Banco Mundial há uma década vem pressionando pela privatização da água. A água vai ser o grande problema dos anos próximos para todos no planeta, do mesmo modo como está penalizando as populações africanas há décadas. Em nossa capital, o Governo construiu um Pronto Socorro e está construindo, logo em frente, uma Rodoviária Internacional, ambos sobre os mananciais daquela área, onde existe, inclusive, uma indústria de captação e engarrafamento de água mineral. Nosso governo é confiável para proteção das nossas reservas de água?

Qual é a idéia sobre o futuro que preenche a mentalidade de nosso governo? Essa monotonia arquitetural em que Rio Branco se transformou e que produz mais segregação social? Está ocupado em melhorar os ramais lamacentos para impedir que mais pessoas venham habitar as periferias insalubres de Rio Branco? Existe um planejamento sobre a utilização da água na esteira da construção civil que encontrou seu paraíso nesta cidade enquanto aumenta a pressão sobre os esgotos? O Governo investe em educação ambiental para acabar a poluição dos igarapés em meio rural, por agrotóxicos e toda sorte de lixo industrial? E na cidade, está executando algum programa de educação ambiental que promova a formação de novos hábitos na população em geral? Parece missão impossível impedir que as pessoas joguem garrafas pets nas ruas, mas o sistema estadual de trânsito muda as regras de mão e contramão a toda hora e todos nós que dirigimos conseguimos nos adaptar com muita rapidez devido ao medo das multas. Por que não mudar os hábitos de jogar pets nas ruas?

Se você, leitor, pesquisar sobre Copaíba na internet encontrará descrição, ocorrência geográfica, habitat e uso na indústria ou construção civil. Não há indicação do tempo que a árvore leva para atingir quinze metros e um metro e oitenta de diâmetro. Nem das árvores e arbustos consortes. Nem da sua função no ecossistema e modo de reprodução da espécie.

Aqui, o Estado permite à iniciativa privada a exploração dessa árvore para exportação no mercado internacional de móveis, mas não exige que produzam mudas em viveiros. No entanto, em Socorro, São Paulo, uma associação de proteção ambiental produziu quinze mil mudas de copaíba em apenas seis hectares e meio!

O mercado de fitoterápicos mobilizou bilhões de dólares em todo o mundo. Aqui na Universidade não existem laboratórios para análise fitoquímica, nem mesmo faculdade de farmácia. A árvore Copaíba vira pó e nós compramos cápsulas do seu produto nas drogarias de laboratórios de outros Estados. E isso quando os balconistas não estão aterrorizados pela ANVISA e jogam fora os medicamentos fitoterápicos, apesar de constar o registro do farmacêutico responsável, respectivo laboratório, número da Portaria Ministerial e todo o resto, como é a norma. Isso aconteceu na Drogaria Popular da Estação Experimental onde eu comprava, periodicamente, Unha de Gato.

A Amazônia deveria ser tombada como Patrimônio Cultural e Natural da Humanidade sob a gestão da UNESCO, a organização das nações unidas para a educação, a ciência e a cultura. Os estados membros deveriam entrar com os fundos para financiamento de pesquisas, estratégias de proteção às comunidades indígenas, à fauna, à biodiversidade enfim. Estou me lixando para nacionalismos. O patrão dos brasileiros, dos bolivianos, dos peruanos, enfim, é o mesmo, o Banco Mundial. Se o modo como vivemos é determinado pelas decisões tomadas em Washington por que morrer enrolados numa bandeira?

 

 

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