O sonho acabou

A casa situada na Avenida Brasil conhecida por “Casarão” foi residência de um governador do ex-território federal do Acre, coronel Manoel Fontenele de Castro, da ex-Guarda Territorial, no período de novembro de 1958 a março de 1961. A sociedade desse período era formada por seringalistas e grandes comerciantes, estes na maioria de origem sírio-libanesa, de um lado, e seringueiros de outro, com algumas camadas médias, no caso, servidores públicos, guarda-livros e contadores, professores, jornalistas e advogados, como é o padrão.

A casa de madeira, construída em madeira, acima do solo pelo menos um metro, segue o padrão da época, um modelo adequado ao clima bastante diverso das novas construções em alvenaria e chapadas no solo afetando os moradores pela umidade excessiva da terra que fica encharcada durante o inverno. O espaço em volta, arborizado, favorecia também a circulação do ar entre e no interior das residências. Ao longo da Avenida Cea-rá outras casas de madeira também seguiam este padrão, aliás, em toda a pequena cidade. Logo na esquina, ficava a casa de Raimundo Melo, cujo partido fazia oposição ao de Fontenele. O Acre seguia o país, PTB e PSD, ambos fundados por Vargas.

Em determinado momento, o mangueiral que existia ao lado esquerdo do Casarão foi abatido para dar lugar a um prédio semelhante a uma caixa de concreto, onde passou a funcionar a Acredata, órgão responsável pelo processamento de dados do Governo. Hoje, assessoria de comunicação. Foi quando teve início essa forma de manter os servidores públicos sem comunicação com o ambiente externo, em salas fechadas com ar- condicionado e iluminação artificial. Um modo também de afastar os populares, isolando dessa forma, mu-tuamente, Governo e povo com um, aparentemente inocente, artifício arquitetônico. Nesse período outras casas da Avenida Brasil também desapareceram para dar lugar aos atuais prédios das companhias telefônicas, Banco do Brasil e loja de eletrodomésticos. Ainda está de pé a casa de Raimundo Melo. Na esquina seguinte, existia uma enorme mangueira que fazia sombra onde os eleitores de Raimundo Melo sentavam-se para chupar picolé, com suas melhores roupas, vindos das colônias. A Albuquerque Engenharia construiu um espigão no local, onde ficava também uma ampla casa de madeira, antiga sede do Clube Juventus.

Na primeira metade dos anos oitenta, a casa dos Fontenele foi alugada pelo casal Walter e Graça que fizeram funcionar ali um restaurante/bar, com preços populares, onde também se realizava eventos tais como shows, festas e exposições de artes, sendo referência para jornalistas e escritores, artistas em geral, militantes de partidos de esquerda, afora outros. O Walter tinha sido operário em São Bernardo, amigo e companheiro do Lula e, vindo conhecer o Acre conheceu e casou-se com a Graça, uma acreana que estudava História. Segundo Zezé Mortari, primeira garçonete do Casarão e talvez do Acre, eles foram morar no Conjunto Bela Vista onde passaram a produzir e vender salgadinhos. Segundo Tião Maia, o bar e restaurante “O Casarão” teria sido fundado por Élson Silveira, Jayme Ariston e Pedro Vicente que não tinham como gerenciar o negócio passando-o para as mãos do Walter. O casal passou então a morar no andar de cima junto com seus três filhos e o pai Nicolau.

O casal Walter e Graça descontavam os cheques salários, deixavam que se pendurassem contas e, muitas vezes a própria Graça levava para suas casas, em seu fusquinha branco, aqueles clientes já bastante embriagados que ficavam dormitando pelas mesas. Segundo Zezé Mortari, ex-PCdoB e pedagoga, certa vez, estudantes do seu partido estavam comemorando uma vitória no DCE da Ufac e queriam ficar até mais tarde estando o casal, porém, muito cansado, quando a Graça deu a chave da cozinha com a permissão para que pegassem as cervejas do freezer e fizessem seus tira-gostos, para prestar contas no dia seguinte.

Era um lugar onde havia de tudo sem sombra de discriminação, disse Zezé Mortari ao contar de duas moças que faziam programas sexuais com aqueles engenheiros vindos de fora, daquelas primeiras empreiteiras e que as mesmas sentavam-se sempre na mesma mesa, convivendo e participando das conversas com os demais, artistas e/ou militantes de esquerda. Disse ainda que elas lhes contavam tudo que faziam até o fato de quando uma delas, então apaixonada e saudosa, cortou um pouco dos pêlos púbicos, os colou numa carta e enviou para o engenheiro que tinha ido embora. Ali mesmo Romeu Tuma também sentou e almoçou. E a maioria dos candidatos que em épocas de eleições dava as caras.

Foi o primeiro bar que fez música ao vivo, disse Zezé, recordando os nomes dos músicos que fizeram shows no Casarão e até trabalhando por meses a fio como foi o caso do Léo Nogueira e seu irmão Bec que iniciavam o show cantando: “…quando esse trem, atravessa o Pantanal..” E mais, Heloy de Castro, Keilah Diniz, Tião Natureza, o paraense Nilson Chaves, Grupo Capú e tantos outros. Ela lembra de quando Jorge Carlos, do grupo de teatro “4° Fuso” estava tão apaixonado que subiu numa mesa e ficou gritando “Te amo” para a mulher amada que se beijava com outro numa mesa dos fundos. Certo é que se muitos casais se encontraram e, muitos também se “desencontraram”, naquele Casarão. Hoje, até mesmo o nosso 4° fuso acabou.

Os bandejões alaranjados podiam conter filet ou bisteca, mas também arroz integral para os alternativos. O professor Moacir Chaves, do Colégio Meta, almoçava todos os dias no Casarão e pedia sempre dois copos de suco. Lembro-me do Chico Mendes olhando para a mesa em que eu estava rindo entre divertido e complacente com os nossos “modos”. Toinho Alves jantava todas as noites e às vezes tinha a companhia do Terry Aquino quando este não estava nas aldeias. Aliás, o PT inteiro freqüentava o Casarão. Aníbal Diniz dançava até ficar ensopado de suor. Francisca Bezerra, a Quinha e a Lucinete Caetano eram da Comissão de Frente.

  A mulher do Tião Maia jogou no recinto uma mala, com todas as roupas dele, toda furada com faca. Durante vários dias ele teve que morar na casa da Zezé Mortari. De tanto sofrer agressões desse tipo ele deu uma surra naquela mulher por incitação do Zé Leite que ficava lhe dizendo, na redação do jornal O Rio Branco: “rapaz, se tu não deres uma surra nessa mulher eu digo que tu não és homem!” Tião Maia foi na conversa do Zé Leite e foi preso na delegacia. Mas, a sua banca de advogados não era para qualquer um: Aloísio Maia, Emilio Assmar e Aderbal Maximiliano! Todos têm lembranças desse tempo, boas e ruins, conforme o vento das paixões estivesse a favor ou contra. Havia liberdade, igualdade e fraternidade de fato, sem Danton nem Robespierre.

Tudo o que o Casarão representou para a nossa geração assim foi por causa do casal Graça e Walter que gerenciavam o bar e restaurante tratando os clientes como se fossem irmãos. Para fazer shows não tínhamos que agendar, enviar ofício nem fazer projetos. Todos nós dispúnhamos do espaço para lançar e vender nossos livros, expor quadros e até projetar slides de viagens de férias como Edunyra Assef fez quando retornou da Espanha e nos mostrou as torres de Gaudi. Era um espaço cultural livre, ali brotaram muitas idéias e planos de peças teatrais, montagens, greves e tudo o mais. Como disse a Zezé Mortari: The dream is over, não volta nunca mais…

 

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