Sobre filmes e filosofias

Com o fim da Ditadura civil-militar, não foi pensada uma nova política educacional que pudesse reverter, minimamente, a predominância da cultura norte-americana, entre nós, desde a guerra fria. Os nomes das crianças hoje são do tipo Máicon, Darlis, Jackson, Magaive e por aí vai, com situações as mais esdrúxulas. Quem duvidar disso, consulte uma lista de chamadas de quaisquer dessas escolas públicas. Afora a paixão por carros e motocicletas, pelo risco, sem atentar para o fato de que nos filmes norte-americanos as lanchas, os carros, as motos que se espatifam ou explodem é só de mentira, ou seja, não morre ninguém. Do mesmo modo a paixão por armas de fogo, a naturalidade com a qual um adolescente pega uma arma e a usa. A indústria cinematográfica norte-americana pode ser responsável pela má formação das novas gerações que não têm recursos para ampliar a sua visão de mundo com base em viagens e leituras diversificadas. E ainda, os maus costumes alimentares tais como ingestão de alimentos gordurosos, frituras, industrializados com um flagrante desprezo pelos produtos naturais e regionais.

 O venerável Thich Nhat Hanh, monge tibetano indicado para o Prêmio Nobel da Paz 1967, e que dirigiu a Delegação Vietnamita Budista Para a Paz durante o Acordo de Paz de Paris faz conferências e retiros na Europa e Estados Unidos pela arte de viver conscientemente. Segundo o Dalai Lama, aquele monge nos ensina “a plena consciência da respiração e a percepção de pequenos atos de nossas rotinas diárias, demonstrando depois como fazer uso dos benefícios da plena atenção e da concentração para transformar e curar estados psicológicos difíceis. E, finalmente, nos mostra a conexão entre a paz interior, pessoal e a paz na Terra”.

A filosofia oriental parece a nós ocidentais algo exótico e sem finalidade. Sendo seguidores do modo de vida norte-americano, marcadamente pragmático, buscamos em tudo, uma utilidade ou finalidade. Quanto ao prazer o buscamos pelas portas dos sentidos que ironicamente, se escancarados culminam com os sete pecados capitais. Nos dias de hoje, a indústria caminha na direção do estímulo ao consumo, ao pecado em última instância que pode até ser virtual.

Segundo aquele monge, a luz, a paz e a alegria não podem ser concedidas pelos outros. O poço está em nosso íntimo e, se cavarmos o suficiente no momento presente, a água jorrará. Precisamos voltar ao momento presente para que estejamos realmente vivos. Quando praticamos a respiração consciente, estamos praticando a volta ao momento presente, no qual tudo está acontecendo. A respiração consciente, portanto, é o primeiro passo para nos reaproximarmos da natureza. Sugerir que os alunos das escolas públicas passem a fazer exercícios de Yoga é perder tempo.

A civilização ocidental empresta tanta ênfase à idéia da esperança que acabamos sacrificando o momento presente disse aquele monge. A esperança é para o futuro. Ela não pode nos ajudar a descobrir a alegria, a paz, e a luz no momento presente. Muitas religiões se baseiam no conceito da esperança, e essa recomendação no sentido de evitá-la pode provocar uma forte reação. A esperança é a de ser “alguém” sendo que essa imagem é completamente revestida pelos apelos do consumismo. Além de que exige que se viva num campo de competição todo o tempo e que sejamos indiferentes à boa ou má sorte dos outros entes vivos.

A filosofia ocidental, a nossa, é baseada em Platão de fulcro idealista, ou seja, somos convencidos da existência de um mundo ideal alhures, seja uma sociedade organizada em base socialista na terra, seja um paraíso após a morte. O cristianismo é uma doutrina fundamentada em Platão e os cristãos passam sua vida inteira pensando num modo de parecerem melhores do que são negando, na maioria das vezes, a sua própria condição humana, o que gera uma intolerância generalizada e também as neuroses.

Por conseguinte, essa negação motivada pela moral cristã que aponta como ideal a ser alcançado a santidade, culmina numa negação da natureza. A visão do paraíso é uma idéia onde as plantas e os animais são decorativos, feitos de plástico e não uma cadeia alimentar. A visão de paraíso dos cristãos é uma visão antiecológica Eu falei com um rapaz que estava pregando no mercado: você não fica preocupado em salvar o rio da poluição? Ele me olhou indignado: e o que Deus tem a ver com o rio?.

Apesar de tudo nós que estamos sempre culpando os norte-americanos pela nossa condição de cultura dominada, até pelos nossos vícios como fumar, por exemplo, não podemos negar que se a indústria cinematográfica norte-americana produz tantos males tem realizado reflexões significativas e profícuas mesmo porque atuam no plano do imaginário e utilizam linguagem subliminar. É o caso de alguns filmes como Matrix, filme de ficção que consegue traduzir de maneira impressionante o modo como vivemos todos, plugados num mundo virtual e maquínico, programados sem conhecermos o programador, sem nem mesmo nos darmos conta nem mesmo de que estamos executando um “programa” todas às vezes que saímos para consumir algo que inflame nossos sentidos como uma roupa nova, um carro novo ou uma passagem aérea, por exemplo.

Em 2008, O Dia Em Que A Terra Parou, outro filme de ficção, remon-tagem do primeiro de 1951 atualiza a discussão do anterior que preconizava a paz logo no início da guerra fria, transferindo o problema para a questão ambiental. Mais uma vez recorre ao simbolismo cultural, usando a metáfora da “arca” para avisar que se a humanidade não andar direito os habitantes de outros planetas, “mais evoluídos”, virão buscar exemplares das espécies para salvar a biodiversidade do planeta Terra enquanto as sete pragas do Egito fazem a faxina, ou seja, eliminam os terráqueos abusados.

E mais recente, o filme AVATAR que já bateu recorde de bilheteria em todo o mundo, é de longe a melhor realização cinematográfica norte-americana no âmbito das preocupações com a salvação do planeta. Tudo isso significa que o nosso planeta está se mexendo, como bem disse o cientista do filme O Dia Em Que a Terra Parou: todas as vezes que a humanidade está à beira do precipício ela muda, ou seja, dá um pulo na espiral evolutiva.

E nós, acreanos e acreanas temos  o conforto de existir uma pessoa como Marina Silva que está em consonância com essa grande “mexida” da terra e que conta com todos nós para lhe dar o apoio necessário e irrestrito.

 

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