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Estudiosos aguardam fim das chuvas para continuar a explorar geoglifos

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Depois de ser notícia nos principais veículos de comunicação do país e do mundo, a equipe de especialistas que está à frente dos estudos sobre os geoglifos se prepara para uma nova temporada de análises e levantamentos. Tão logo as chuvas do “inverno amazônico” cessem, geógrafos, historiadores, geólogos e tantos outros estudiosos irão a campo para aprofundar as pesquisas em torno dos misteriosos desenhos geométricos encontrados em território acreano.

“Temos muitas perguntas e poucas respostas”, diz o paleontólogo Alceu Ranzi, um dos coordenadores do grupo responsável por tentar dirimir as inúmeras dúvidas que ainda restam sobre os geoglifos. Para financiar os estudos, haverá recursos tanto do governo estadual como federal.

Pelo Acre, a empreitada receberá recursos do Departamento do Patrimônio Histórico do Estado. Já o CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) darão a contrapartida pelo Governo Federal.

“São recursos suficientes para os próximos dois anos e que serão gastos com passagens, sobrevôos, hospedagens, entre outras coisas”, afirma Ranzi. São quase 300 geoglifos catalogados. Eles se espalham de Xapuri a Boca do Acre (AM) ao longo da BR-317. Muitos deles, inclusive, estão atravessados pela rodovia e tantas outras vicinais. 

Um dos trabalhos nesta nova fase dos estudos em 2010 é realizar escavações de até quatro metros nas valas de seis geo-glifos. O objetivo é encontrar vestígios da civilização responsável pela construção dos geoglifos e que habitava a América antes da chegada dos exploradores europeus. Diz Ranzi sobre as dificuldades que encontrarão: “na Amazônia tudo o que é orgânico desaparece. Cerâmica, madeira e as vestimentas com o tempo se decompõe”. 

“A única informação que temos é que eles [os antigos povos] viviam aqui em torno do ano 1000. Parece-nos que quando Cabral [Pedro Álvares] chegou ao Brasil eles já tinham sido extinguidos”, destaca Ranzi.

Quando da chegada dos primeiros colonizadores ao Acre, continua ele, a região dos geoglifos era ocupada pelos Apurinãs, mas este não era o povo indígena que produziu todo este complexo sistema geométrico. A estimativa era de que quase 60 mil pessoas viviam nesta parte da Amazônia.

“Temos um imensurável volume de dados que precisam ser processados”. A descoberta destes desenhos na região só foi possível por conta do desmatamento da floresta para a abertura das primeiras fazendas acreanas, no começo da década de 1970. Para os estudiosos, ainda pode haver dezenas de geoglifos que estão sob as copas das árvores das áreas conservadas.

Em alguns casos, há geoglifos que estão parte visível e outra dentro da floresta. É nessa área “invisível” que botânicos irão atuar para descobrir se há diferença entre a fauna e a flora da parte interna dos desenhos da exterior. 

 Segundo Alceu Ranzi, o material coletado até agora ainda são insuficientes para se chegar às respostas que se quer. “São poucos artigos publicados, pouco sobrevôo e imagens de satélite”, esclarece o paleontólogo. Para ajudar nos estudos, a equipe contará com as imagens de satélite da Funtac (Fundação de Tecnologia do Acre), as mesmas usadas pelos órgãos ambientais para detectar queimadas e desmatamentos. 

No meio da Amazônia, sociedade mostrava domínio da geometria

A milhares de quilômetros do mundo conhecido da época (Europa, África, Ásia e Oriente Médio), os povos que habitavam esta região da Amazônia mostravam ter o domínio da ciência geométrica. “Eles fizeram ângulos perfeitos de hexágonos, octógonos, triângulos, quadrados e círculos”, ressalta Alceu Ranzi.  Para o pesquisador, por se tratar de uma sociedade complexa, havia todo o planejamento antes de fazer as formas no meio da floresta.

Longe da Grécia Antiga, berço da ciência (entre elas a aritmética) e da filosofia, uma civilização aborígene desenhava na floresta as formas mais complexas de uma disciplina que até hoje é difícil para muitos estudantes. “Na minha opinião a geometria surgiu não em um único ponto do planeta, mas em várias partes”, analisa.

Um dos desafios dos estudiosos é descobrir o porquê deles terem produzidos os geo-glifos, qual seu significado: religioso ou estratégia militar?