Libere o seu grito

Na antiga Grécia, literalmente, ganhava um debate quem tivesse a capacidade de gritar mais alto. Os gregos amavam a palavra. Submetiam-se aos piores sacrifícios para aprimorar a oratória. Ficavam dias, meses, e até anos, recolhidos exercitando a arte de bem falar.

Sabiam que um argumento bem construído era capaz de manipular a opinião pública, condenar inocentes, absolver culpados, enfim, mudar os destinos de uma nação. Os políticos profissionais sabem disso. E se não sabem contratam quem sabe para ensiná-los. E assim vão maquiando a realidade e se perpetuando no poder.

Infelizmente, o cidadão comum, aquele que procura as Unidades de Pronto Atendimento e não encontra médico para atendê-lo; que é obrigado a conviver com o lixo porque o caminhão da coleta não passa há um mês; que é vítima da violência de todas as espécies por falta de segurança; ainda não despertou para o poder do seu grito.

Não consigo entender porque a sociedade permanece calada diante de tantos descasos.

No “livro Oratória – A Arte de falar em público”, Silvia Brun, diz que “O homem é apenas metade de si mesmo, a outra metade é a sua expressão”. Partindo desse raciocínio, chego à conclusão de que nós acreanos estamos aptos a perder a expressão.

A máxima popular “quem não se comunica se trombica” é a mais pura verdade. Na prática nos deparamos dia-riamente com vários casos de que a solução só vem mediante pressão. No grito. Um exemplo recente é a condenação a 26 anos de um policial civil acusado de matar um fiscal de limpeza e ferir duas mulheres durante uma discussão de bar.

Foi um dos julgamentos mais céleres que a Justiça acreana já conheceu. O acusado foi preso, julgado e sentenciado no mesmo ano. Não foi por acaso. Familiares da vítima, munidos de faixas e cartazes, estavam constantemente na frente do Fórum de Rio Branco, expondo a sua dor e pedindo uma resposta da Justiça.

Na semana passada, um exemplo contrário. Um policial militar acusado de matar um jovem e ferir outro, durante uma bebedeira, foi libertado e está de volta as ruas da Capital, diga-se, armado. O caso poderia ter tido um desfecho diferente. O PM poderia seguir preso até o julgamento ou então ser designado para trabalho interno no quartel, numa demonstração de respeito àqueles que ainda choram a morte da vítima.

Todavia, como a Justiça não socorre aos que dormem e o comando da PM está amparado por uma decisão judicial para colocar o militar de volta a escala de serviço, o caso caminha para o esquecimento, a não ser que a família da vítima acorde e  libere o seu grito.

*Dulcinéia Azevedo é jornalista e escreve às terças-feiras nesta coluna. E-mail: [email protected]

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