A falta de memória dos anos de chumbo

Um perigo que as forças políticas progressistas enfrentarão nas próximas eleições é a falta de memória dos anos de repressão militar que aconteceram no Brasil por mais de 20 anos. Quem tem atualmente 36 anos de idade não viveu os tempos em que os jornais fechavam as suas edições com censores governamentais determinando aquilo que poderia ser publicado. Era comum os grandes jornais brasileiros saírem com receitas de bolo ou trechos dos Lusíadas de Camões na primeira página. Um amigo meu que assinava revistas em quadrinhos da China, sem nenhum conteúdo político, foi convocado a ser ouvido pela polícia política do regime, o Dops. Foi difícil ele se explicar e quase permaneceu preso.

 
Tem gente que acha pouco. Mas o saldo, segundo a Anistia Internacional, foi de mais de três mil mortos e desaparecidos no Brasil. Como em países vizinhos, como a Argentina e o Uruguai, a repressão dos regimes militares foi ainda mais violenta a memória das nossas vítimas foi diluída. Mas três mil mortos é uma enorme chacina.

A partir da abertura democrática iniciada, em 1974, a repressão foi se abrandando. Mas ainda tivemos que esperar até 1982 para escolhermos diretamente os nossos governadores. O primeiro presidente eleito do Brasil, pós-ditadura, só em 1988. Ainda assim, um desastre que colocou Fernando Collor de Melo (PTB) no poder. Um governo instável marcado pela corrupção que quase nos fez retroceder aos anos de chumbo.

Na prática, a consolidação democrática do país só se iniciou com o governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), seguido depois por Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Quem tem atualmente 16 anos e vai votar pela primeira vez não tem a menor idéia do que é um país com as suas instituições democráticas amordaçadas. Mesmo quem tem pouco mais de 30 anos também não viveu na pele o terror político daqueles tempos.

Vejo pessoas ainda novas criticando ferozmente situações de corrupção que acontecem na atual política brasileira. Elas estão certas porque a corrupção é inadmissível. Mas o fato é que agora tudo é mostrado ao vivo, em tempo real pela internet. Nos é dado o direito de julgarmos e condenarmos eleitoralmente os corruptos. Nos anos de chumbo se roubava dinheiro público, se matavam os adversários e ninguém ficava sabendo.

Apesar das mudanças e dos ventos democráticos é importante que a repressão da ditadura seja lembrada em tempos eleitorais. Senão corremos o risco de vermos eleitos lobos em peles de cordeiros, verdadeiros golpistas da extrema direita disfarçados, que ainda sonham com o poder das trevas e da ignorância governando o Brasil. Podem acreditar, a extrema direita brasileira ainda não morreu. Está mais viva do que imaginamos. A cada erro da nossa esquerda lá estão eles ávidos para tomarem o poder. Por isso, é preciso muita responsabilidade de quem governa atualmente o Brasil e os seus estados para que o flagelo da ditadura jamais volte a reinar entre nós.   

Nelson Liano Jr. é jornalista e escreve às quintas-feiras nesta coluna. E-mail: [email protected]

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