A ilusão do ego

Por muitas vezes pensei em escrever este artigo. Mas sempre desistia por achar que o assunto não tem relação com as minhas funções em A GAZETA de repórter e editor de política. Fui adiando até que nesses dias assisti a uma entrevista de Gilberto Gil na televisão. O cantor e compositor está cada vez mais sábio. Ele falava sobre a questão de se dar muita importância a si mesmo. A excessiva auto-valorização do ego em tempos de mídia. O importante é ser “famoso” estar além dos pobres mortais que nascem, crescem e morrem desconhecidos. A fama, para alguns, é mais importante que a própria vida. Gil afirmava que em alguns momentos caiu nessa armadilha, mas que a reflexão da inevitável chegada da morte e do esquecimento eterno tornava tudo isso muito fútil e passageiro. A verdade é que o ex-ministro falou quase tudo o que eu queria escrever.  

Uma pergunta que já me fiz várias vezes: será que o espírito de William Shakespeare, o autor mais famoso de todos os séculos, se lembra de que ele foi tão importante? Muito provavelmente não. Segundo a cultura védica os espíritos reencarnam com missões e objetivos diferentes. O que ficam são os sans-karas, as impressões e as conseqüências dos atos cometidos na vida anterior, que é o karma. É mais ou menos assim: quem planta mamão não adianta esperar colher melancia. Tudo que fazemos no plano material e espiritual terá uma conseqüência nas vidas futuras.

O que me espanta é que os sábios da floresta inspirados pela ayhauasca adquiriram esses conhecimentos milenares instintivamente. O Mestre Raimundo Irineu Serra, fundador do Santo Daime, uma religião amazônica, aconselhava nos seus cantos: “fazer bem, não fazer mal”. O Mestre prevenia seus discípulos sobre a colheita. Também ensinava: “a morte é muito simples…é igualmente ao nascer… Depois que desencarna, firmeza no coração, se Deus te der licença volta a outra encarnação”. É incrível que a essência da cultura védica estimada em 10 mil anos esteja nos versos simples dos nossos caboclos da floresta acreana.

O conhecimento é universal e está disponível no subconsciente de toda humanidade. Para acessá-lo é necessário se olhar para dentro de si próprio. Ficar só divagando no mundo exterior pode levar a conseqüências imprevisíveis. Quando acessamos o mundo infinito que existe no nosso interior nos aproximamos da verdade. O caminho é a meditação, a oração, a concentração e a contemplação da eternidade que permeia todas as coisas.   

Portanto, perder tempo com egolatria de valores passageiros e ilusórios é caminho certo para a solidão e a ignorância. Cada um é que sabe de si. Mas para se alcançar a máxima de Aristóteles de “conhecer a si mesmo” é preciso ter a coragem de enfrentar fatos decorrentes da vida como a morte e a temporalidade da existência. O resto é tudo vaidade e vento que passa como dizia o Rei Salomão.       

* Nelson Liano é jornalista
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