Cada cabeça uma sentença

Pelas dimensões territoriais e popu-lacionais o Acre consegue ter uma boa produção jornalística. Mas é uma pena que cada vez mais as assessorias de imprensa das entidades governamentais, não-governamentais e dos políticos prefiram informar a população através de press-releases. Isso limita e pasteuriza a visão das notícias. Tira a possibilidade da diversidade de opiniões e pontos de vista dos repórteres à interpretação dos fatos. Os leitores acabam a ser obrigados a entender a informação apenas por um viés oficial-publicitário que, às vezes, tem um efeito contrário ao esperado.

Quem conhece comunicação social sabe que a função de uma assessoria de imprensa não é a de produzir a informação pronta para o consumo. Mas a de provocar matérias diversas produzidas por diferentes meios de comunicação. O repórter tem o dever de interferir na matéria a partir da maneira como recebe a informação. Uma determinada situação poderá levar um texto para uma ou outra direção. O que determina o resultado final de um trabalho jornalístico são os fatos que acontecem durante a apuração. É muito comum um repórter sair da redação determinado a alcançar um determinado resultado e mudar de direção completamente durante o processo. Essa criatividade é que dá prazer para exercermos a nossa profissão.

É preciso entender que o repórter é quem faz a interação entre a visão da população e os fatos. Quando se tenta encurtar esse caminho o resultado é desastroso. Todo leitor medianamente informado sabe quando se trata de um texto publicitário de uma assessoria. É lamentável que essa prática do press-release esteja crescendo cada vez mais entre nós. Fico ainda mais chocado quando alguns desses textos são assinados como se fossem produzidos para o órgão de comunicação em questão.

Não vou dizer que A GAZETA não publique esses textos. Mas tem pelo menos a ética de avisar o leitor que se trata de uma informação de assessoria. Alguns colegas de profissão reclamam com a nossa editoria de não ver os seus nomes assinando o informe. Mas é preciso entender que um texto dessa natureza é idêntico a um anúncio publicitário e ninguém assina texto publicitário. Com isso não quero minimizar, sob hipótese nenhuma, o valor do trabalho dos nossos companheiros. Mesmo porque eu mesmo já trabalhei em assessoria e também em agência de publicidade e publiquei esse tipo de texto. Mas é uma situação específica profissional que exclui a autoria, aliás, como acontece no mundo inteiro. Quem assina é a instituição e não o profissional. 

Com tantas mudanças positivas que o Acre tem vivido nas últimas décadas está na hora de haver uma profissio-nalização maior na comunicação. Os assessores devem pautar os jornalistas, mas não tentar ocupar os espaços deles nas redações. Isso não é bom para ninguém.  O resultado dessa prática poderá prejudicar ainda mais o nosso já combalido mercado de trabalho.                

* Nelson Liano é jornalista
[email protected]     

 

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