Pégaso e Chitão

Muito feliz a idéia dos coordenadores de bibliotecas das Federações da Indústria em adotar o nome Pégaso para o novo programa de informati-zação das salas de livros. Pégaso é o cavalo alado da mitologia grega, símbolo da inspiração poética e da imortalidade. Mais feliz ainda a idéia que tiveram, ano passado, durante a realização da Semana do Conhecimento, em Brasília, de liberarem suas bibliotecas também para o público externo. Com o sistema Pégaso, o acesso e o atendimento ficarão mais ágeis. Em Rio Branco, na sede da Federação, situada à Avenida Ceará, funciona o NID, Núcleo de Informação e Documentação, onde nós, simples mortais, podemos tomar livros e filmes em DVD, emprestados, sem termos que pagar nada, preenchendo simplesmente uma ficha de usuário. O acervo é permanentemente atualizado, inclusive com periódicos e começa a se tornar uma referência na cidade.

Existe, inclusive, fila para determinados livros, como o Crepúsculo que está na moda entre os adolescentes, cujo exemplar já apresenta sinais de desmoronamento de tanto ser manuseado.

Acredito que um coordenador de biblioteca deve se sentir muito gratificado em saber que está contribuindo para a disseminação da leitura numa certa parte do mundo. Em Rio Branco, Socorro Carvalho está sempre pensando e propondo projetos nessa linha de incentivo à leitura. Ano passado mandou confeccionar canecas térmicas, para presentear aquele usuá-rio interno que tenha tomado emprestado algum livro, mesmo que tenha sido apenas um por ano. Nem precisa dizer que a procura superou as suas expectativas. Atualmente não é mais possível sequer divulgar o NID porque o espaço não comporta mais tanta gente a procura de livros e filmes em DVD.

Enquanto isso, as bibliotecas das escolas permanecem entrincheiradas contra o leitor de baixa renda, impedindo-o de pegar livro emprestado, devido à preocupação da “secretaria” com respeito ao “patrimônio público”. Nas bibliotecas das nossas escolas públicas podemos encontrar obras como Casa Grande e Senzala, A Microfísica do Poder, por exemplo, que são adotados em cursos de nível superior. Esses livros afora centenas de outros não podem ser emprestados, só pa-ra “consulta”. Mas é óbvio que existem jovens estudando em faculdades nesses bairros adjacentes às escolas e que poderiam utilizar tais livros. Ora, quem vai conseguir ler Casa Grande e Senzala ou Michel Foucault aos pouquinhos nas salas de leitura dessas escolas! O livro que lemos é antes de tudo uma presença que nos acompanha aonde formos, não só nos nossos pensamentos como no nosso ambiente doméstico. Am-biente doméstico que apresenta livros numa mesa, numa poltrona é um estímulo que não se pode negligenciar. Além do mais, caso algum exemplar venha a desaparecer não é o caso de chamar a polícia. Existem formas de ter controle sobre os empréstimos e precisamos dar crédito aos jovens leitores e não tratá-los como vândalos em potencial.

A proibição que existe na Biblioteca Pública de emprestar livros, “uma norma intransponível” é apenas uma forma de manter a elitização da cultura. Afinal, se meu filho precisa de um livro eu passo na livraria e compro. Mas tem muita gente neste Acre que não pode comprar livros para os filhos. Muitos jovens desejam ler o Crepúsculo e outros livros, mas não podem comprar. Resta o NID.

O Governo do PT é do tipo senhorial. Recentemente, fui convidada para o “Esquenta Maria Chita”, de um bloco de carnaval alternativo que seria realizado no Clube Tentamen. Dias depois veio a notícia que o “Governo” tinha impedido o evento no local porque aquele clube iria passar por reforma. Na verdade, deram só um banho de tinta para o “Esquenta Carnaval” da turma do Gabinete que está lá desde o primeiro mandato do Jorge Viana e que vão permanecer nos cargos até o último suspiro. Tudo no PT é vitalício, em especial, a maldade. A alienação do eleitorado acreano também é vitalícia. E o nosso ostracismo, por analogia,  também o é.

Ora, eles poderiam ter deixado o esquenta do Maria Chita naquele sábado e mandado passar a tinta na segunda-feira, afinal o “esquenta” deles seria no sábado seguinte. Mas eles agem como se a Tentamen fosse propriedade deles. Na verdade é propriedade dos herdeiros dos sócios-proprie-tários, a maioria do Segundo Distrito, um povo sem frescura que se tivesse sido consultado não negaria o espaço para o bloco do Maria Chita. A maior frescura sempre foi do Clube Rio Branco, aliás, essa turma deveria mandar reformar, tombar e restringir o acesso naquele espaço que é a sua cara.

Mas a Chita, a Chitinha e o Chitão são símbolos da classe baixa brasileira e também da condição subalterna, histórica, da própria economia brasileira. A Chita é um tecido de algodão com desenhos de flores coloridas que surgiu na índia e virou toalha de mesa em casas de pau a pique brasileiras. A fabricação da Chita no Brasil serviu para as vestes dos trabalhadores braçais e moradores de regiões rurais, e também pano característico das festas populares, sendo também a roupa de brincar das crianças. A produção da Chita e depois do Chitão crescia sempre em períodos de guerras mundiais, quando as potências européias suspendiam o fornecimento de manufaturados para o Brasil, estimulando a pobre manufatura nacional.

A confecção da boneca de carnaval Maria Chita por Silene Farias, com apoio do irmão Babi, artista plástico e de vários amigos e amigas entre os quais Detinha Thomás, é de um simbolismo flagrante porque ela, a Silene Farias sempre esteve em destaque no meio cultural sem ser parte da elite. Sabedora de que tradições são coisas que podem desaparecer, mas que também podem ser inventadas, fez realizar oficinas de bonecos quando foi dirigente do órgão municipal de cultura, e por último criou um bloco de carnaval, o Maria Chita, com música própria, um frevo que já se tornou tradição e até toca no rádio pela bondade de alguém.

Lembro-me bem que Silene Fa-rias era fã do Santinho, valorizava o esforço dele na Escola Carnavalesca do Bairro Quinze, e sempre esteve focada na cultura popular. Sempre foi uma liderança inegável no meio artístico de Rio Branco. Mas no ano passado, alguém “empoderado” do atual governo tentou impedir o bloco de sair, cujo trajeto é bem pequeno, do mercado municipal até a Gameleira. Foi preciso intervenção de um colaborador do próprio governo, que estava com a fantasia da Maria Chita para que as pessoas pudessem fazer seu carnaval de rua, ao seu modo alternativo e enraizado na cultura brasileira coisa que os governistas, incultos, são incapazes de entender. Se eles entendem, a coisa fica pior ainda, porque denota que são nazistas.

Falando sério, esse tipo de matéria não tem outro objetivo que não seja deixar registrada, para pesquisadores do futuro, a forma autoritária de pensar e agir da troupe governista. Eles morrem de rir, a perversidade é seu berço. Eles estão pouco se lixando para quem os critica. Mas bem que podiam aprender, pelo menos com os dirigentes da Federação da Indústria que têm mais com que se ocupar do que impedir que os jovens possam ler e ver filmes de graça, no aconchego de seus lares.

 

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