Povo contra povo

Convenhamos que o maior inimigo do povo é o próprio povo. Vivemos em duas cidades, uma reformada, embelezada, bem iluminada e limpa devido ao trabalho incessante dos garis, o Centro. Outra, nas bordas, com lixo morando ao lado, ou seja, o  inimigo mora ao lado. Na verdade, o inimigo mora no interior das pessoas. Uma vez, a Leila Jalul me disse “é mais fácil tirar as pessoas da miséria do que a miséria de dentro das pessoas”.

A degradação ambiental é antes de tudo um problema social que decorre, por sua vez, do sistema educacional no país. São quatro séculos que pesam nas costas do cidadão brasileiro de um sistema extremamente difícil de resolver: duzentos anos de educação transplantada e, consolidada, pela ação missionária e militante dos jesuítas, e duzentos anos de tentativas e erros, experiências malogradas, sem ser possível sair do impasse.

A educação implantada pelos jesuí-tas era focada na catequese com instrumentos modernos como o ensino bilíngüe para converter as populações indígenas, lançando de uma língua mais falada, entre elas, no caso a do ramo Tupi, mas de conteúdo defasado quando compreendemos a instrução pública com foco voltado para a ciên-cia e o desenvolvimento tecnológico, implantada na primeira metade dos oitocentos por Napoleão Bonaparte na França que se queria competitiva e industrializada. A educação dos jesuítas não possibilitava a ciência, a experimentação e muito menos o desenvolvimento da capacidade crítica.

O objetivo da educação dos jesuítas era a formação de uma sociedade constituída por cidadãos obedientes, curvados ante a hierarquia social onde o topo era ocupado por homens proprietários de latifúndios destinados à agricultura extensa de um só produto para exportação. Além disso, a atividade comercial portuguesa impunha um consumo condicionado pelo monopólio presente em seus entrepostos. Por isso que as populações litorâneas do Brasil estavam sempre acometidas por enfermidades as mais diversas em razão do consumo de produtos manufaturados e industrializados oriundos da Europa, centro desenvolvido, enquanto que as populações dos sertões alimentadas por produtos orgânicos e auxiliadas por medicinas populares apresentavam melhor qualidade de vida.

Esse quadro se repetiu aqui na Amazônia no final dos oitocentos e inicio dos novecentos quando, nos seringais, as populações de extra-tivistas eram condicionadas a comprar do Barracão, até mesmo comida em lata, vinda da indústria inglesa em razão da perseguição ao lucro, por parte dos seringalistas que ganhavam tanto na exploração do trabalho como na revenda de mercadorias industrializadas. Vem de longe, portanto, esse condicionante cultural de esperar e acreditar que, “só é bom o que vem de fora”.

Programas educacionais são implantados, vindos de fora, elaborados por algum grupo de pedagogos e cientistas sociais, lobistas, “amigos do ministro” de plantão. Sempre foi assim no Brasil. Nos grandes centros, pelo menos, os sindicalistas da área educacional promovem debates e exercem à crítica a esses programas impostos, por compreender que falta sempre à população como um todo, capacidade crítica, iniciativa e propensão à mudança.

Políticos da situação estão sempre dizendo que é “lindo, lindo o trabalho que está sendo feito no campo da educacional”. É lindo, mesmo, não se pode negar que os projetos dos arquitetos têm elementos de ordem plástica. Não se pode negar que “gera empregos”, para pedreiros, nem que o governo está “aquecendo a economia”, pois as construtoras e as lojas de material de construção estão tendo seus lucros. Não se pode negar que a todo mundo são implantados programas novos, vindos de fora, claro, que mais parecem camisa de força com suas exigências sobre os professores que não têm liberdade para sequer para contra-argumentar.

 Não se pode negar que os resultados de quaisquer programas educacionais são antes de tudo, “visíveis” na capacidade de mobilização e participação enquanto exercício da cidadania, no comportamento, sobretudo, na qualidade de vida que não pode derivar tão somente das políticas governamentais e sim, muito mais, da capacidade de exercer a crítica e de promover mudanças. A profusão de lixo por toda parte, na periferia, o descaso para com o ambiente, a maneira como as crianças são tratadas, mal cuidadas e mal alimentadas, a preferência por pós de composição química em vez de suco de graviola ou outras frutas, a extrema violência como jovens revoltados e agressores tratam seus próprios vizinhos, roubando-lhes o pouco que têm, até matando, é uma evidência de que a doutrina educacional que está sendo conduzida não é capaz de promover a verdadeira inclusão que não é de ordem material, não pode ser feita com bolsa-família e sim de ordem espiritual, com programas de iluminação dos espíritos.

Com esse quadro parece muito difícil qualidade ambiental e qualidade de vida. Existe um Código Florestal no Brasil em vias de ser alterado, e tanto o código como as propostas de alteração são do conhecimento apenas das cúpulas e organizações não-governamentais. Ora, sabedores que haveria uma audiência pública ontem, uma ampla mobilização deveria ter sido feita junto à sociedade, de informação, discussão e debates, em especial nas escolas públicas. De maneira que a audiência pública fosse acontecer no Ginásio do Sesi, por exemplo, ou no Arena da Floresta. As declarações do atual governador atestam que ele é contrário às alterações propostas pelo agronegócio. Mas ele já está finalizando seu mandato. Uma audiência pública precisa de um grande número de pessoas mobilizadas e conscientes para produzir um fato. Impacto político. No Pará, ano passado, uma audiência pública envolvendo a construção de uma hidrelétrica mobilizou lideranças indígenas e sindicatos rurais de tal modo que teve que ser cancelada e transferida de local e data, pois, o auditório não podia comportar tanta gente.

Lamentavelmente, essa postura de parecer “iluminados”, insubstituíveis, capazes e competentes de “cuidar” do Acre, não pode reverter o processo, A periferia cresce e isola o centro. A maior parte, dos não esclarecidos, aumenta de número e pressiona o pequeno grupo, do centro, de iluminados, de luz insuficiente. Policiais civis atiraram num jovem universitário, esta semana, e alegaram ter sido “engano”. Temos essa situação hoje de povo contra povo, porque policial é povo. O lixo e o desmazelo para com o entorno de suas casas, suas ruas e seus bairros, a produzir enfermidades, é mais uma evidência de que o povo está contra o povo. Os órgãos de comunicação têm seus holofotes focados apenas no Governo, na pessoa do governador principalmente, como nos tempos de Getúlio Vargas. Adotam a postura de não focar os problemas pensando que desta forma eles vão desaparecer.

Todas essas pessoas que estão no Governo, com exceção daqueles que vieram de fora e daqueles que participaram do poder no período da Ditadura Militar, seja no próprio governo, seja na Universidade, passaram pela “escola” da militância política, quando as reuniões e os encontros primavam pela democracia, aconteciam nas salas de aula da Universidade, das escolas, dos centros comunitários nos bairros, nas praças públicas, nas esplanadas do Palácio ou da Assembléia. Sabem o que é mobilização. Sabem o que é participação. Sabem o que é tomar decisões com base nos coletivos. Só não tiveram imunidade contra a tendência ao fechamento e negação do debate que, de modo surpreendente, não ocorria nos governos do PMDB.

 

 

 

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