Eleição presidencial

Tomei um táxi no Rio de Janeiro e, como sempre, iniciei uma conversa com o motorista sobre política. Na Cidade Maravilhosa o termômetro eleitoral pode ser medido com as informações dos taxis-tas. Afinal, eles carregam clientes das mais variadas camadas sociais e, como os cariocas adoram conversar, podem passar uma visão das tendências de opinião pública.

Nesse caso, o motorista me contava que tinha acabado de fazer um cruzeiro marítimo pelo Nordeste com a esposa. Fiquei espantado. Esse tipo de viagem sempre foi para as elites. Comecei a especular sobre o cruzeiro do taxista. Tinha pago R$ 3 mil divididos em 10 vezes, cerca de R$ 300 por mês antecipadamente para não voltar das férias endividado. Tudo incluí-do menos o consumo de bebidas alcoólicas. Estava extasiado por ter podido oferecer à esposa um presente digno dos seus 30 anos de casamento.    

Perguntei como estava o movimento de passageiros. A resposta: “Nunca trabalhei tanto. Creio que nos últimos anos tivemos um aumento de 50%”, disse o motorista. E a política? “No Rio ainda nem sei quem são os candidatos, mas para presidente vou votar na candidata do Lula”, garantiu. Mas ela parece ser meio antipática, retruquei. “Mas não é candidata a miss simpatia. E o Serra (PSDB) também não é nenhum rei da simpatia”, me contestou o taxista.

Nesse breve diálogo com o taxista carioca a gente pode fazer várias leituras. A primeira é sobre o debate eleitoral que vai girar sobre o modelo econômico pós Lula. O presidente do PSDB, senador Sérgio Guerra (PSDB-PE), tem afirmado na imprensa que numa eventual vitória do Serra o câmbio em relação ao dólar será alterado. Os tucanos pretendem desvalorizar o real para favorecer as exportações. Nenhuma novidade porque a política econômica do Brasil sempre foi de favorecer a elite dos exportadores com a desculpa da geração de empregos.

O Governo Lula mudou isso. Com o câmbio flutuante e a distribuição de renda através de programas sociais permitiu a criação de um mercado interno consumidor forte. É isso que possibilita um taxista fazer um cruzeiro marítimo pagando através de financiamento. A renda do motorista também aumentou com o aquecimento do mercado interno e ele atende seus clientes com um carro zero financiado.

Ora, uma relação comercial saudável é aquela em que as exportações e as importações se equivalem. Comprar e vender são elos de um mesmo sistema. Um mercado interno forte torna o Brasil muito mais atraente e competitivo para investimentos do exterior. Também acredito que com o mercado brasileiro aquecido a geração de empregos é muito maior do que com a priorização das exportações que sempre beneficiou a mesma elite.     

O modelo econômico do Lula mudou a cara do Brasil, ainda que esteja longe do ideal. Mas o número de carros novos cresceu em todas as cidades, os aeroportos estão lotados com o crescimento do fluxo de passageiros, o comércio em geral aumentou o faturamento. Tudo isso é a conseqüência do fortalecimento do nosso mercado interno. Portanto, se o Serra sonha em ser o próximo presidente é bom mudar o seu discurso econômico. Não será difícil para os marqueteiros do Lula mostrarem para os eleitores que atualmente tem muito mais dinheiro circulando no país do que há oito anos.    

* Nelson Liano é jornalista
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