No ciclo do pau-brasil

Logo após o seu descobrimento, o Brasil foi arrendado a um consórcio de cristãos novos liderados por Fernando de Noronha, por um período de doze anos, quando teve início o chamado ciclo do pau-brasil, uma atividade econômica extrativista. Com participação nas transações intercontinentais. O pau-brasil entrava no ciclo industrial europeu, no caso a indústria têxtil, na produção de corante vermelho. A força de trabalho era encontrada entre os indígenas que cortavam, desbastavam e transportavam até os navios, as pesadas toras de pau-brasil, em troca de miçangas, espelhos, anzóis e machados. O ciclo do pau-brasil, portanto, assinala o início das exportações do Brasil de uma matéria-prima em estado bruto e que entrava no mercado com altíssimo valor agregado. Foi, por isso, o primeiro mau negócio do Brasil, pois,  Portugal não lucrava tanto quanto os Países Baixos.

O ciclo do açúcar, décadas depois, já assinala o momento em que as exportações saem do mero extrativismo para a produção propriamente, primeira iniciativa desse tipo, em todo o continente americano, apesar de ter sido à base do sistema escravista, fonte lucrativa de tráfico, já em desuso nos paises do hemisfério norte que davam início ao trabalho assalariado. Diga-se de passagem, sempre foi muito estranho o fato de que nenhuma instituição do período defendesse o africano da escravidão. É conhecido por todos os estudantes de história do Brasil os conflitos entre colonos e jesuítas na questão da es-cravização dos indígenas. As bulas papais resguardavam o direito à liberdade por parte dos indígenas, mas, quanto aos negros, guardavam silêncio mortal, conforme se lê em Sergio Buarque de Holanda organizador de uma História do Brasil colonial.

A pecuária, por sua vez, foi um fator de interiorização e ocupação dos sertões, das vastas terras que não eram utilizadas para a produção de açúcar, algodão, cacau, tabaco. Aconteceu na medida do próprio crescimento do rebanho em áreas inóspitas como a caatinga, em áreas vicejantes como o Rio Grande do Sul. Sempre foi uma atividade secundária, voltada para o consumo da própria colônia, com alguma exportação de couro para Portugal.

Estimulada ainda, pelo fato de que os vaqueiros poderiam a cada cinco anos formar também seu próprio rebanho. Sendo, contudo, uma atividade rendosa para aqueles homens que possuíam capital o suficiente para adquirir cabeças de gado, mas, não tão suficiente para entrar no negócio da produção e exportação do açúcar. Um engenho capaz de moer dez mil arrobas por ano, e com 950 hectares de lavoura, valia 48 mil cruzados ou 168 quilos de ouro, o dobro de uma nau. Conforme li na obra “história da indústria no Brasil” de Eduardo Bueno, além de outros dados contidos nesta matéria.

Na virada do século 19 para o 20, tradicionais boticas do Rio de Janeiro, como a Granado e a Silva Araújo, começaram a se transformar em laboratórios farmacêuticos, produzindo medicamentos em escala indus-trial. A transformação teria sido estimulada pelas exposições industriais promovidas pela sociedade Auxilia-dora da Indústria nacional. Em 1920, o primeiro censo oficial da indústria de medicamentos, realizado pelo Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio, registrou a existência de 455 estabelecimentos industriais de “especialidades Pharmacêuticas”, que empregavam 1.680 pessoas, Destes, 49 haviam sido fundados antes de 1889, antes da República, portanto. A indústria química e farmacêutica era então o quarto setor industrial mais importante do país, atrás apenas da indústria de alimentos, têxtil e de vestuá-rios. A pomada Boro Borácica – tida como o primeiro produto farmacêutico industrializado do Brasil – era fabricada desde 1882 pelo laboratório Daudt. De propriedades cicatri-zantes e, indicada em “ferimentos, brotoejas, assaduras e queimaduras em geral”, a pomada era resultado de um caminho que se abrira em 1861, quando boticários e pequenos farmacêuticos participaram da Exposição Nacional da Indústria.

Fundada em 1870 pelo português José Antonio Coxito Granado, a Pharmácia Granado & Cia era fornecedora oficial da Coroa e ponto de encontro da elite imperial. A partir de 1897, começou a produzir as especia-lidades e os produtos de beleza que antes importava como Água Inglesa, Magnésia Fluída e Vinho de Quino. Em 1903, o Polvilho Antisséptico, era seu maior sucesso. A Farmácia Silva Araú-jo, fundada em 1871, por Luiz Eduardo Silva Araújo, fazia medicamentos à base de extratos vegetais e era o local preferido para o encontro dos médicos da corte.  O Laboratório Orlando Rangel, fundado em 1892 foi quem começou a produzir o Elixir de Noz de Kola. “Com injeções de grandes verbas e investimentos maciços em propaganda, a indústria farmacêutica foi incrementando sua saúde financeira, tal e qual Jeca Tatu – o celebre personagem que em 1914 Monteiro Lobato transformou em garoto-propaganda do Biotônico Fontoura”, escreve Bueno..

A Amazônia aparece no cenário com seus ciclos de extrativismo vegetal, o das drogas do sertão, século dezesseis, o da borracha, século dezenove e início do século vinte. E por fim a pecuária, a todo vapor hoje, no Acre, para consumo e exportação. Nesse entremeio, naturalistas e botânicos coletaram diversas plantas de uso dos indígenas, com propriedades farmacológicas, hoje identificadas com seus próprios nomes, afora o nome em latim da espécie, como é padrão em botânica. O carro chefe da economia acreana é a pecuária, seguida de perto pelo extrativismo de madeira, como no tempo do ciclo do pau-brasil. Árvores centenárias são exportadas em estado bruto ou transformadas em pó para exportação para a indústria européia de móveis. Enquanto isso, a máquina burocrática só aumenta,  assustadoramente, bem como a dependência de verbas federais, e outros financia-mentos, vultosos, tendo as florestas públicas como garantia.

O que se denomina de desenvolvimento sustentável parece ser, em parte, o extrativismo de produtos não madeireiros, a saber: óleo de Copaíba, de Andiroba, o vinho de jatobá, sementes para artesanato, afora outros, que são vendidos em qualquer esquina, em estado natural,  para os raros adeptos da medicina popular. Sem contar que a Copaíba é uma das árvores preferidas pelos extratores de madeira que a exportam em forma de compensado.
Na página de ontem, neste jornal, uma manchete chamava a atenção para a viagem de nosso governador e de nosso ex-governador aos Estados Unidos onde foram falar do nosso desenvolvimento sustentável. E que nosso governador ficou surpreendido com “o interesse impressionante sobre o Acre em todas as partes do mundo, sobretudo, nos grandes centros de estudo”. E que foi procurado por investidores. Na matéria, o ex-governador Jorge Viana disse que: “a gente tem que melhorar ainda mais a capacidade técnica do Governo e dos nossos gestores e Harvard é um centro importante para isso”. Ele disse ainda, estar preocupado com a juventude e os técnicos das áreas rural ou florestal “para que o novo modelo de desenvolvimento sustentável melhore a vida da população e crie uma economia competitiva”.

Já vamos para duas décadas que essas pessoas governam o Acre e emitem esse discurso de um desenvolvimento sustentável. E o esforço é grande para adivinhar como isso será feito. Sobre investimentos em laboratórios e criação de faculdades de farmácia, eles nunca falaram. Talvez tenhamos que esperar que os eternos gestores façam cursos em Harvard para perceber uma lógica histórica tão óbvia. Quem sabe um dia seja produzido no Acre  um biotônico, à base de vinho de Jatobá, com o nome de Biotônico Chico Mendes!.

 

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