Os viventes

Houvesse tempo escreveria um romance intitulado Os viventes, a respeito de pessoas como Carmecilda que cometeu suicídio por enforcamento, há dois dias, nos arredores de Mâncio Lima. Sobre pessoas que vivem à margem da história, porque só participa da mesma e da cultura as pes-soas capazes de compreenderem quem são, onde estão, para onde vão. Para isso precisariam participar do mundo onde acontece a produção, a compra e a venda de tudo, desde a barra de sabão, ao boi, e por fim, a própria alma. Onde o dinheiro circula, também aí, circula a informação. Participar do mundo produtivo é navegar nas vias e fluxos do dinheiro. Todos precisam ter algo para vender, inclusive o próprio conhecimento adquirido. A capacidade de consumir é que define a hie-rarquia social, da bicicleta, passando pelo Uno e depois pela Hyllux.

 A cultura não é só o fazer, como escrever livros e preparar o tacacá, fabricar o cocar, a flecha, a borracha, o vestido. É também a capacidade de ler e interpretar o mundo desde o ponto onde se está até as bordas do planeta. A Carmecilda vivia fora do circuito monetário, do fluxo das informações e por isso voltou-se contra si mesma, tirando a própria vida e deixando quatro crianças, a mais velha de nove anos. A notícia veiculada na página policial, trazia, quase escorregando no final da matéria um significativo detalhe: não recebia dinheiro do programa bolsa família. Quem vai se preocupar com essa notícia? Se fosse alguém que dirige uma Hyllux talvez causasse algum frisson na cidade.

O personagem narrador do romance que eu escreveria seria um velho doente que quando jovem levantou a bandeira do socialismo, com prazer e alegria, ou seja, não recebeu os pontapés, os choques elétricos nem os tabefes nos ouvidos, como os outros jovens dos grandes centros do país, centenas dos quais até mesmo perderam a vida após sessões de tortura. E que teria exercido altos cargos por ser descendente de políticos tradicionais. Entre os viventes muitos parentes dele, consangüíneos, pela dinâmica sexual de avôs e tios que fizeram filhos a granel seringais a fora. Ao final ele se olharia no espelho, carcomido e veria que não tinha vivido que só passara pela vida, como um transeunte igual a qualquer outro, que tivera acesso à informação, fizera faculdade, escrevera e publicara livros, mas, não transformara nada, muito menos a si mesmo.

Quanto aos viventes transitariam por todas as páginas com suas falas e participação eventuais, reportando suas existências moldadas por fragmentos. Ao leitor caberia sentir a sensação angustiante de uma parede gasosa nebulosa, asfixiante, incolor, a separar os dois mundos, o do qual pertence o descendente de coronéis de barranco e aquele onde se movem os viventes, que, ao final, numa imagem surreal, ascenderiam aos céus, cumprindo-se a promessa da igreja. Ao mesmo tempo em que se ouviria o choro de bebê nascendo: um neto do nosso herói às avessas. Os palcos ou cenários onde as ações se moveriam seria epidemias, desalojamento pelas enchentes, crimes hediondos, alcoolismo, vícios em drogas as mais vagabundas, por uma parte, banquetes, reuniões palacianas, arranjos familiares, disputa por cargos, aquisições, por outra.

Precisaria de tempo para escrever tal romance, não ter que fazer nada para ganhar dinheiro e manter filho barbado, afinal sou quase uma Car-mecilda. O “quase” é exatamente o diferencial entre conhecimento adquirido e não adquirido. O trabalho maior, na construção do romance, seria superar o tédio que a maioria das pessoas sente quando levada a encarar os fatos como eles se apresentam, preferindo viver no mundo fantasioso do glamour das novelas, do fashion e do big brother. Na verdade, o personagem central seria o próprio tempo, falando através do velho cuja alma, na realidade, já se eclipsara.

No fundo tal romance não passaria de um plágio, adaptado à nossa realidade local, de um conto de Allan Poe, no qual, um grupo de nobres, em razão da peste negra, refugiou-se num castelo onde a dispensa estava abastecida o suficiente para não ter que sair, mantendo-se as portas hermeticamente fechadas. Ao final, em pleno banquete todos notam uma presença impossível, não convidada e que entrara de modo inquietante: a própria morte.

Escrever um romance custa muito esforço, tanto por parte do nosso racional como por parte do emocional. E depois, é preciso ter quase a certeza de que as vendas compensariam os custos e o dinheiro gasto com a publicação. E depois existem idéias melhores para romances ótimos escritos com mais prazer e satisfação tanto para o escritor como para os leitores.

Voltando à realidade, depois desse exercício de esboço de romance de ficção, temos a considerar que os prefeitos não estão trabalhando com censo, com dados estatísticos,  e, que a assistência social nos municípios é inexistente ou muito falha. Do mesmo modo os responsáveis por programas como Fome Zero, Bolsa Família e outros, não estão exigindo com rigor, por parte dos municípios os dados indispensáveis para que tais programas assistencialistas cumpram a sua verdadeira função ou finalidade. É possível que pessoas estejam sendo beneficiadas sem que apresentem real necessidade. A conseqüência disso é que o Estado e o município de Mâncio Lima, nome de um expressivo seringalista do Juruá, terão que assumir a criação e educação das quatro meninas que ficaram órfãs, das quais, a de mais idade tem apenas nove anos. É possível também que as crianças sejam espalhadas por casas de famílias onde crescerão, limpando o chão e freqüentando escolas, como é a “cultura” da nossa “rea-lidade social”.

Tanta realidade é tão intragável e explica porque o Acre nunca gerou um Graciliano Ramos. Nossos escritores, com rara exceção, fogem léguas de distâncias de tal idéia, construir romances de ficção que traduzam o meio social e as idéias e opiniões que são produzidas por ele. A Carmecilda lançou o próprio corpo no vazio com uma corda amarrada ao pescoço. Aos vinte e oito anos de idade. Não existem homens nesse fato. Só quatro crianças, quatro meninas.

 

 

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