Sobre partidos e vampiros

Parece claro que vivemos hoje um fenômeno político caracterizado pela convergência em razão de um partido único. No caso o partido situacionista. O PT mais parece uma grande nave com um motor potente, o nosso dinheiro público, arrastando um comboio sem fim de barcos menores. O processo eleitoral já não traduz o embate entre os partidos e sim, estratégias montadas com a finalidade de minar possíveis candidaturas de oposição. Além de que, criam-se, também, oposições de fachada para confundir um eleitorado de vista fraca.

Na teoria, os partidos deveriam representar forças sociais em jogo, classes sociais em seu ancestral antagonismo entre capital e trabalho. Assim teríamos partidos com doutrinas variáveis, mas, tendo em comum o empenho em alcançar o Parlamento para legislar de acordo com a conveniência dos grandes proprietários, seja de áreas rurais produtoras para exportação, seja de fábricas e outros bens geradores de lucro ao custo do trabalho de seus empregados. Do mesmo modo, teríamos partidos cujas doutrinas, divergentes no sentido da abordagem do problema, teriam em comum o interesse em defender a classe trabalhadora dos seus ancestrais inimigos: a ameaça do desemprego, a super-exploração, os salários baixos ou defasados.

Hoje o quadro partidário se apresenta tão nebuloso que não mais é possível distinguir quais as intenções dos partidos, mesmo porque nem se fala mais em programas. As filiações ocorrem com finalidades outras que não a de escolha de um ou outro programa. Em nossa localidade o sentido das filiações quase sempre traduz a defesa do próprio cargo. O partido que está no poder trabalha no sentido de adesões pura e simples sem critério nenhum, com a finalidade única de permanecer no poder. E, no entanto, entre todos, é o único que nasceu da verdadeira luta da classe trabalhadora, em seus embates com os patrões da indústria paulista. Sendo assim, assistimos hoje a uma profusão de siglas cujos representantes ficam a borboletear e negociar com o partido majoritário oferecendo minutos no horário eleitoral, cabos eleitorais e sabe Deus que mais, em troca de cargos ou outros tipos de concessões e privilé-gios. É o que se chama, em linguajar comum, de balaio de gatos.

No âmbito da classe trabalhadora os sindicatos são inoperantes, recebem verbas estabelecidas por lei e não precisam fazer força, não precisam demonstrar trabalho, muito pelo contrário, devem permanecer quietos e silenciosos, para dar a impressão de que vivemos o melhor momento da nossa história quanto ao tipo de governo.

O Estado, por sua vez, deslocou sua função de mediador entre as classes, para gestor financeiro majoritário. Assim me parece o Estado brasileiro: um banco privado, no qual os correntistas são os contribuintes, em especial, a grande maioria das camadas médias, que não só depositam “para fundo perdido” como vivem a bater a cabeça contra o teto, totalmente tolhidas em seus projetos de vida. Os servidores públicos, por exemplo, tornaram-se escravos do Estado. As camadas médias são proibidas de ganhar dinheiro além do teto estipulado pelo leão da receita. Suas existências são pautadas por dívidas sem fim, um carrilhão de dívidas que se sucedem sem trégua. Camadas sociais essas que estão sempre devendo, seja para os bancos, seja para os comerciantes e empresários em geral, seja para a União, pois tudo que podem comprar tem que ser na base do crédito ou financiamento, a longuíssimo prazo. Vivem imersas em bolas de neve as famílias de Cristo.

As camadas médias, além disso, mantém desde o emprego do operário que trabalha na fábrica de iogurte, até os mecânicos de oficinas para carros danificados. Mantém os trabalhadores domésticos e aqueles que prestam serviços gerais desde o conserto de encanação doméstica, de instalação elétrica e de toda a parafernália eletrônica do âmbito doméstico. Com a quarta parte de suas rendas/salários, tiradas à força pelo leão, o Governo da União, impiedoso, faz distribuição entre os desvalidos, que não possuem absolutamente nada, a não ser a própria prole, conseguindo dessa forma, matar dois coelhos de uma só cajadada: manter a economia aquecida, ou seja, garantir o consumo de têxteis e alimentos da indústria nacional e, garantir os votos da maioria esmagadora. Isso é o que comumente se denomina “nivelamento por baixo”. É desse modo que o partido dos trabalhadores compreende trabalhar em prol do “social”. Vivemos um “Socialismo de Estado” que funciona das camadas médias para baixo, a base da pulverização das migalhas. No plano político, configura-se o partido único em torno do qual gravitam os demais sendo o interesse comum a participação do bolo em conluio com a classe abastada.

Tudo o mais, que possa traduzir como fatores dinâmicos para a transformação social e desafogo das camadas médias, tais como a ação de sindicatos e o papel transformador dos estabelecimentos de ensino, em especial, as universidades, estão inertes. Os meios de comunicação também estão sob a supervisão e o controle do Estado. Nós das camadas médias estamos, pois, no mato sem cachorro, pois não podemos concorrer com o potencial eleitoreiro de programas do tipo bolsa-família, nem podemos contar nunca com uma classe alta mais ou menos esclarecida, em especial, aqui, neste lugar, onde novos vampiros acorreram para ficar e, ficam a beber o sangue, de canudinho, dos rapazes e moças que por absoluta necessidade vão bater as suas portas pedindo emprego. Sem contar que estão se apoderando de gordas fatias do mercado, empurrando o valor dos imóveis para o alto e, explorando ao máximo os assalariados.

 

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