A “Via Cruscis” da dengue

Não se discute o empenho dos ges-tores públicos em disseminar práticas preventivas contra a proliferação do mosquito transmissor da dengue. Seja através da distribuição de panfletos educativos, do trabalho formiguinha dos agentes comunitá-rios de Saúde ou dos arrastões de limpeza da Semsur, as ações estão acontecendo.

E o que é melhor: estão sendo rea-lizadas em parceria com a comunidade. Eu até já sinto falta quando não escuto o barulho do carro do fumacê passar na rua lá de casa. Consciente dos riscos que o Aedes aegypti representa enquanto estiver voando por aí, à população colabora, muda de hábitos e até se submete a sacrifícios.

Por outro prisma, a mesma harmonia – e por que não dizer eficiência – não se constata  quando o paciente vai as Unidades de Pronto Atendimento em busca de tratamento. Ao ser despachado de volta para casa depois de horas de espera, é como se o doente estivesse sendo punido por estar doente.

Não adianta ensinar medidas preventivas ao cidadão é necessário tratá-lo quando este, por motivo alheio a sua vontade, adoeceu. Até porque, acredito que ninguém, em sã cons-ciência, pede para ficar doente, muito menos contrair dengue.

A saúde é direito de todos e dever do Estado promovê-la.

O mínimo que uma pessoa espera ao procurar o sistema público de saúde é ser tratada com humanidade e realizar os exames necessários a formulação do diagnóstico, indispensável ao início do tratamento. Ainda mais quando esta pessoa mora numa cidade que está em situação de alerta contra a dengue.

As denúncias de negligência em casos de pacientes que morreram com suspeita de dengue estão cada vez mais freqüentes. E não adianta dizer que é exagero da imprensa ou que os familiares estão sob forte emoção ao prestar tais declarações.
São mães, pais, maridos, filhos, irmãos, enfim, seres humanos, indignados por assistirem impotentes a dolorosa “Via Cruscis” que se transformou a ida as unidades de saúde.

Imaginem uma pessoa tomar onze litros de soro e ficar exposta no corredor de um centro de saúde, urinando nas próprias vestes, porque o estabelecimento não dispõe sequer de uma sonda. E você, na qualidade de parente ou amigo assistir a tudo isso.

*Dulcinéia Azevedo é jornalista e escreve às terças-feiras nesta coluna. E-mail: [email protected]

 

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