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Estão na China os donos do Acre

Desisti de conversar com amigos que trabalham em setores voltados para o incentivo às artes em geral, do Sesc, das fundações de cultura do Estado e do município, no sentido de que fomentassem uma política de formação para os novos escritores que não sabem como escrever romance. Pior, escrevem e publicam sobre coisas que não interessam a quase ninguém ler.

Lembro-me bem que a Silene Farias, quando esteve na liderança do teatro amador nesta Capital conseguia recursos para trazer teatrólogos que vinham fazer oficinas fosse de direção, de montagem, de cenografia, de preparação para atores e esse tipo de estímulo apresentava bons resultados quanto à qualidade dos espetáculos que eram montados a seguir. Ela trouxe José Celso Martinez, Celso Nunes, João das Neves, afora outros grandes nomes do teatro brasileiro. Além do mais não se tratava tão somente de incrementar a tecnologia teatral, mas também de promover uma elaboração crítica do fazer teatro a par com a realidade social.

Os espetáculos no Teatro de Arena eram antenados com a problemática social, em especial a situação dramática que ocorria com a pressão exercida pelos pecuaristas recém-chegados junto aos seringueiros e indígenas. Enquanto isso, no Teatro ocupado pelo grupo do atual governador Binho Marques, situado na Estação Experimental, os espetáculos reproduziam cenários e situações de centros urbanos desenvolvidos tais como “B em Cadeira de Rodas”, “Assunta do 21”. Eles faziam algum tipo de experimentação teatral do tipo amador e selecionavam as peças com base em critérios que nunca conseguimos entender. No teatro do Sesc, o espetáculo A Grilagem do Cabeça colocava no palco a situação dos índios Apuriña às voltas com um grileiro a quem eles denominavam de Cabeça Branca. Estava deflagrada a guerra contra os “paulistas” quando jornalistas, poetas, atores, escritores usavam seus talentos e criatividade como armas de luta e resistência.

Quaisquer coisas que se fizer, seja escrever um artigo, um livro, dar aulas, pintar quadros, fazer palestras, enfim, se não almejar mudanças não causa efeito, não tem repercussão na sociedade, nem fica na memória. Tanto é que muitos se lembram dos espetáculos do Teatro de Arena do Sesc mas ninguém mais, absolutamente, lembra que existiu um teatro na Experimental.

Isso explica porque o ambiente artístico em Rio Branco é tão borocochô, sendo o Binho governador. Os teatros permanecem fechados quase que o ano inteiro perdendo-se – o que é pior – uma gorda fatia do mercado, pois, muitas famílias com salários compatíveis para propiciar entretenimento de qualidade para suas crianças não têm para onde levá-las aos finais se semana, a não ser passear naquele trenzinho da praça.  Obviamente que as pessoas responsáveis pelo teatro ou pelas políticas artístico-culturais são dependentes do jogo político partidário e do apadrinhamento tradicional, não sentindo necessidade de estimular, favorecer, incentivar as iniciativas independentes.

Ora, não é possível fazer teatro de qualidade sem liberdade. A comédia na Grécia Clássica nasceu em tempos de liberdade, quando era possível criticar, satirizar, sem riscos de retaliações nem perseguições. Hoje existe um filão muito rico para temáticas que é a questão ambiental, por exemplo, o problema do lixo, da extinção de animais silvestres, afora outros, mas nosso governo não pretende que as novas gerações tenham seu potencial crítico despertado pela força do imaginário alavancado por espetáculos de qualidade, por exemplo.

Nossos governantes foram para a China junto com seus parceiros, os altos empresários oferecer nossas florestas e o gado de propriedade dos grandes pecuaristas. Duvido muito que tenham levado algum representante de associação de produtores, algum sindicalista rural. Duvido. Duvido também que tenham colocado essa questão da exportação de madeira e carne, para a China, através do corredor para o Pacífico com a sociedade civil organizada, ou seja, com as diversas organizações não governamentais, povos indígenas, produtores rurais, mesmo a universidade, através dos centros de pesquisadores, enfim, com todos os setores pensantes e comprometidos com um meio de favorecer o crescimento econômico de forma sustentável. Duvido.

Aliás, há uma certa semelhança de nome entre a República Popular da China e a Frente Popular do Acre, pelo menos no fato de que de  “popular” não têm nada. A China, imperialista, invadiu o Tibete, forçou o Dalai Lama ao exílio desde meados do século passado, explora seus recursos, tais como minérios e madeira e, ainda promove campanhas de ateísmo naquele país. Está muito distante da compaixão que move as reflexões e atitudes do Dalai Lama, premio Nobel da Paz. A China se tornou “mercadológica”, abraçou o consumismo desenfreado, tipicamente norte-americano, mas, permaneceu avessa às liberdades, o governo inibe e reprime manifestações, não existem direitos humanos, liberdade de expressão, direito à greve, nada, absolutamente nada que se  assemelhe a uma democracia. Empresas chinesas já estão em diversos países dos trópicos, com a conivência de governantes corruptos explorando madeira de forma predatória.

Antigamente, nesta cidade, o jornal oficial chegava às mesas dos funcionários públicos cedo da manhã quando era possível saber sobre quem tinha viajado, com recursos públicos, para onde, para fazer o que, quanto tinha recebido de diárias. Hoje não se sabe nadica de nada. Se antes, os funcionários públicos eram pessoas relativamente politizadas, capazes de emitir  opinião, hoje não passam de uns “bostas n’água”.

Antigamente, também, aqui no Acre, quando alguém nos aborrecia costumávamos dizer assim: “vá pra Caixa Prego! Ou, então: “vá para a China”. Tão distantes nos pareciam esses lugares. Agora, a China virou vizinha.

Em vez de “paulistas” serão chineses, a perturbar o equilíbrio ambiental. Afinal, a China é campeã em irresponsabilidade ambiental em seu próprio território. Só que aquela turminha aguerrida que fazia teatro com jeito de crítica e denúncia não pode mais, pela idade, movimentar a cidade. Melhor para aqueles que foram vender o Acre para os chineses.