Trabalhador não tem onde morar

Hospitalizada, no início desta semana, fiquei assistindo pela TV a dramática condição de vida dos moradores das encostas de Niterói e outras localidades do Rio de Janeiro, cujas moradias desabaram com as fortes chuvas causando mortes de familiares e amigos das pessoas entrevistadas. E fiquei pensando nesse problema que é antigo.

Na virada do século vinte, o Rio de Janeiro, debutou como capital da República, dando arrancada ao seu processo de urbanização capitaneado por Pereira Passos, Barata Ribeiro e o sanitarista Oswaldo Cruz, recém-chegado de Paris. A capital federal tinha urgência em resolver seus problemas de saúde pública, tais como erradicação da varíola, peste bubônica, malária, etc.. porque estava sendo incentivada a migração de trabalhadores europeus, brancos pobres, com o fito de branquear a nação, sob pena de ficar conhecida como uma nação de pretos, como o Haiti. No Congresso Nacional, um jovem deputado baiano lutava entre seus pares por uma condição digna aos negros recém-libertos, tais como assentamentos em lotes de terras à margem das ferrovias e dos rios navegáveis. Mas ele nada conseguiu com os demais deputados de maneira que os ex-escravos ficaram pelas ruas, sem trabalho e sem qualificação para o trabalho se houvesse.

Desde há algumas décadas que os escravos domésticos que tinham autorização para trabalhar por fora dormiam nos cortiços que existiam no centro do Rio de Janeiro. Para lá também acorriam os escravos fugitivos. Moravam em condições insalubres, sem saneamento, esgotos, em condições muito apertadas. E passaram a ser vistos como principal causa das endemias que acometiam a cidade. Tiveram início as demolições dos cortiços, pela prefeitura do Rio de Janeiro com auxílio dos empreiteiros interessados, por sua vez, em construir edifícios, viadutos, largas avenidas e outros equipamentos urbanos nos locais onde habitavam os negros. Devido a uma cirurgia na tíbia, que sofreu fratura, não posso me locomover em busca de livros para citar nomes e datas dos fatos narrados acima.

Mais uma vez, não se pensou na condição de vida dessas pessoas. Por ocasião da abolição não se pensou em garantir-lhes o próprio sustento de forma digna através de assentamentos como pretendia o jovem deputado baiano. Na demolição dos cortiços, as autoridades publicas,  não se deram ao trabalho de pensar em moradias decentes para os desalojados.  Diga-se, de passagem, que a demolição do cortiço Cabeça de Porco, no Rio de Janeiro, aconteceu de madrugada, estando os negros libertos dormindo. As marreta-das e os jatos de água lançados pelas mangueiras dos bombeiros que dominavam o pó que subia com a demolição os afugentaram de maneira que muitos, ainda tontos, subiram os morros próximos, carregando o que podiam, tipo roupas, em busca de abrigo. Sidney Chalhoub, autor de Cidade Febril, disse que o Rio de Janeiro saiu da era dos cortiços para entrar na era das favelas. Estas começaram assim, feitas de abrigos de papelão e restos de demolição. Os moradores das favelas, na maioria, negros e pobres, passaram a ser sempre os principais suspeitos, pela polícia, de todos os crimes possíveis e imagináveis.

Os pobres sempre optaram por morar em condições as mais precárias desde que mais próximos ao local de trabalho. No caso do Rio, os empregos de porteiros, empregados domésticos, jardineiros e outros, sempre foram ocupados por libertos que passaram a morar nos morros próximos, evitando o mais possível, transportes de longa distância. Afora os empregos e subempregos, de vendedores ambulantes, garis, lavador de pratos e inúmeros outros nesse setor de serviços em centros urbanos.

Não foram as fortes chuvas nem os temporais que acometeram o Rio de Janeiro neste final de semana os causadores das mortes de mais de cem pessoas, inclusive crianças. E sim, um velho problema que tem mais de cem anos quando foi alavancada a urbanização do Rio de Janeiro e que é a marginalização dos trabalhadores, dos programas de habitação e urbanização das grandes cidades que sempre priorizam os habitantes de renda média e alta esquecendo-se que os “serviços gerais” são sempre feitos pelos mais pobres que precisam, por sua vez, de moradia digna.

Em todas as grandes e médias cidades, os flagelados das enchentes e deslizamentos são sempre os mais pobres. É um verdadeiro absurdo, um país tão grande e tão pouco espaço para construção de casas para pessoas necessitadas que optaram por sobreviver de forma honesta, ou seja, trabalhando já que  milhares estão nos presídios. Na verdade não é absurdo nenhum essa situação sabendo-se que o espaço urbano é o principal centro de interesse da especulação imobiliária. A racionalidade da ocupação do espaço urbano é ditada pelos interesses corporativistas das construtoras que hoje, são quem decide, neste país, quem pode ter casa e quem não pode. Quanto aos programas habitacionais do Governo são tão ridículos que melhor nem comentar.

De tudo o que se denota é que os trabalhadores, não só no Brasil, mas no mundo inteiro são aqueles que não conseguem ter sequer um lugar digno para morar. Ao passo que os espaços habitáveis estão sob a égide daqueles que se capitalizam encima de metros quadrados cujos preços pularam para a estratosfera.

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