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Um vale de lágrimas

Minha vizinha Jorjonete Bino Fernandes fez minha amiga Socorrro Carvalho pular da cadeira quando disse sua idade real, isso porque ela aparenta ter trinta anos a menos. Ela disse que não come carne vermelha há trinta anos, que nunca fumou nem bebeu. Aparentemente um fato isolado e singular mas, com inúmeras implicações.

Para as ciências da sociedade humana existe uma nítida separação entre o cru e o cozido. Quando os homens aprenderam a utilizar o fogo para preparo dos alimentos tem início a cultura. O próprio corpo humano também passa por uma transformação quando a caixa craniana começa a desenvolver e o maxilar, por sua vez, começa a diminuir, um pelo maior uso do cérebro, outro pela menor força empregada na mastigação.

As altas culturas se estabelecem, antes de tudo, com base na culinária, por sua vez, tanto mais sofisticada quanto mais são utilizados vegetais os mais variados. Na Itália, berço do Renascimento, são cultivados vários tipos de alface. No vizinho Peru cujas populações nativas detêm milhares de anos de civilização são conhecidos dez tipos de grãos de milho, alimento base. Nas altas culturas os cereais constituem alimento básico. No extremo oriente, o arroz é o carro-chefe da alimentação, na América, o milho, na Europa, o trigo.

Existe ainda outro critério que é o surgimento do tabu, em especial o incesto, quando as sociedades humanas criaram interdições ao sexo entre parentes de primeiro grau.

Mas a separação entre barbárie e cultura nem sempre se apresenta de forma definitiva ou nítida. Além do mais persiste a hegemonia do patriarcado nos costumes, por mais sofisticada que uma sociedade se apresente, ou seja, as mulheres não têm direito à voz, a não ser em casos isolados e raros. Observa-se na política que a ascensão de mulheres se deve à sombra de seus maridos, e, mais raro através de uma passagem pela luta sindical, ou ambas as situações conjugadas.

No caso do Acre a linha fronteiriça entre barbárie e cultura está muito aquém do desejável num mundo onde as telecomunicações e a internet, afora os recursos tecnológicos mais variados pressupõem um nível elevado de civilização. Nós da História sabemos muito bem que existem temporalidades diversas, sobretudo no que se refere às mentalidades. E que convivem num mesmo espaço-tempo pessoas de temporalidades diversas, assim temos aqueles tidos como pós-modernos e aqueles que ainda estão no medievo. No caso do Acre uma maioria se encontra no medievo, ou seja, procura explicações e justificativas para as coisas no plano extra-físico, qual seja, razões teológicas para os acontecimentos. Outra expressiva parcela se encontra na barbárie como se denota nas páginas policiais casos de crianças estupradas por pais e padrastos.

As pessoas que são investidas em cargos de direção nos órgãos de cultura pensam que cultura é fazer artístico. Aquelas que dirigem os órgãos destinados à preservação da memória e história pensam que história serve para enaltecer os feitos dos heróis. Quando a História deveria ser útil para elucidar os problemas, em especial, essa barbárie que grassa em meio às populações marginais.

Todos nós sabemos que os nordestinos que vieram trabalhar na extração da borracha foram impedidos de cultivar seus alimentos, condicionados ao consumo de enlatados da indústria inglesa, de modo que o patrão seringalista lucrava por duas vias, pela exploração do trabalho e na venda dos produtos de consumo. Desse modo, em cem anos os acreanos não desenvolveram uma cultura alimentar baseada na agricultura que é um padrão histórico para todas as culturas. O consumo do trigo produziu Mozart e Beethovern. A experiência musical dos povos andinos é única e reconhecível por todo o mundo. O arroz integral produziu Confúcio.  A macaxeira é um produto pobre em nutrientes, rica em amido, mas não pode calçar uma cultura como ocorre com o milho, o arroz ou o trigo. 

O enaltecimento de heróis da dita revolução acreana não propícia, de modo algum, substrato cultural, mesmo porque ocorre apenas no plano do imaginário. Ou seja, a terra conquistada aos bolivianos não foi uma terra cultivada, amada, depositária do suor, dos corpos dos ancestrais, mãe a fornecer o sustento. Os seringueiros cortavam árvores e comiam peixe enlatado.

Pior, milhares foram expulsas, com a chegada dos pecuaristas e vieram constituir os bolsões de miséria nas periferias, sendo len-tíssimo o processo de ascensão social via estudo e trabalho conjugados. Milhares, sem eira nem beira, vêm ter aqui, a última fronteira, trazendo, no mais das vezes a escória da escória. Nesse sentido, o Acre quase parece um subproduto nacional. Isso porque as decisões políticas das elites locais, a par com as do Governo Federal geram mais problemas sociais que amenizam. Os crimes roubam a cena dos políticos e governantes porque segurança é um fator de prioridade máxima. O governo rompe florestas para construir estradas e propiciar circulação de mercadorias, sem ter tomado as medidas necessárias para produção e consumo interno, únicos capazes de gerar emprego e renda, em bases sólidas e por conseguinte diminuir a criminalidade. Abriu mercado para a Toyota e a Parmalat, mas, transformou nossa terrinha num vale de lágrimas.

Hoje os criminosos fazem pouco do governo e do sistema de Segurança Pública. E nós arcamos com todas as despesas, nós, os contri-buintes, inclusive com os órgãos dos direitos humanos que vigiam de perto a polícia para proteger a integridade física de bandidos cínicos.

Voltando ao início deste artigo, minha vizinha Jorjonete Bino lembrou nos tempos de Aloísio Queiroz, quando um criminoso urinava nas calças, de medo, quando recebia ordem de prisão. Não havia tortura, havia sim disciplina férrea, de modo que os presidiários eram obrigados a sair da cama as três da madrugada e pegar na enxada, trabalhando na terra e na criação de porcos, galinhas e outros. Ela disse que de manhã cedo chegavam nas repartições públicas os produtos hortifrutigranjeiros, gratuitos, produtos dos trabalho dos presidiários. É claro que esse tipo de ação pública não tem mais lugar nos dias de hoje, mas também não deveríamos ser obrigados, com nossa contribuição a pagar uma folha sequer de alface para alimentar aos seqüestradores, assassinos e estupradores de criancinhas.

Nem a macaxeira nem a imitação das práticas artísticas de outras culturas poderá elevar o teor espiritual dessas camadas subumanas entregues à cegueira da violência e do abuso sexual.