Medo

Quando criança o medo era meu companheiro. Pegar no sono com as luzes apagadas era um verdadeiro suplício. Andava na rua rezando baixinho e fazia o sinal da cruz todas as vezes que pressentia o perigo.

Quando meu pai morreu as coisas pioraram. Sentia-me ainda mais insegura e passei a ter medo da chuva. Acho que foi a forma que eu encontrei de ficar parecida com ele. Minha mãe contava que ele também ficava assustado quando começava a chover. Tinha apenas seis anos e meu sonho era ficar grande e parar de sentir medo.

Acreditava que quando chegasse à idade adulta tudo iria se resolver. Com estudo, trabalho, marido, filhos, seria feliz e não teria mais medo. O tempo se encarregaria de cicatrizar as feridas. O tempo passou. Estudei, casei, tive filhos, mas o medo não passou.

A diferença é que o medo de criança, que outrora me fez fazer planos e construir um futuro, agora é real. Não se restringe ao imaginário infantil, ronda lares, escolas, igrejas, redações, enfim, está em todo lugar. Não basta fazer o sinal da cruz, orar baixinho ou acender a luz para afastá-lo.
O medo que hoje me aflige é coletivo. É sentido por todos os acreanos que acompanham estarrecidos os trágicos acontecimentos divulgados pela imprensa. Não adianta fechar as portas, reforçar os cadeados, blindar os carros, contratar seguranças, enfim, adotar todas essas medidas de segurança já tão conhecidas de todos.

É necessário mais. É necessário exigir das autoridades responsáveis pela segurança pública ações concretas no sentido de erradicar o medo dos lares acreanos. Fazer com que as pessoas realmente se sintam seguras ao andar pelas ruas da cidade.

A psicologia nos explica que o medo é a nossa emoção mais antiga. Diante de um perigo mortal, perdemos de imediato o desejo de alimento, de sexo e de tudo o que não diz respeito a aquele perigo.

O aparelho digestivo, o repro-dutivo e todos os outros aparelhos secundários ficam instantaneamente bloqueados e o cérebro prepara o corpo para enfrentar seja uma eventual luta, seja uma possível fuga. Não fuja, lute. Não deixe que o medo neutralize as suas forças. A segurança é dever do Estado e direito de todo cidadão.

* Dulcinéia Azevedo é jornalista e escreve às terças-feiras nesta coluna. E-mail: [email protected]

Assuntos desta notícia

Join the Conversation