O aviso das águas

Apesar de estar viajando acompanho diariamente o noticiário do Acre e do Brasil. Fiquei estarrecido com a situação do Rio de Janeiro depois das fortes chuvas dessa semana. Me lembrei de uma situação parecida, em 1988, quando eu trabalhava como editor de política da extinta TV Manchete. Era véspera de Carnaval e estava fechando o telejornal noturno quando começou o temporal no Rio. Para se ter uma idéia da intensidade da tragédia meu horário de sair era por volta da meia-noite e o diretor de jornalismo da emissora me ligou e pediu para permanecer. Fiquei praticamente 48 horas trabalhando editando textos e imagens da enchente que vitimou centenas de pes-soas. O que aconteceu agora foi um replay ainda mais intenso.

Uma constatação de que os governos e prefeituras da capital carioca não fizeram quase nada de 88 para 2010 para impedir que tragédias como essa ocorram. O fato é que as cidades brasileiras não estão preparadas para suportarem a intensidade das chuvas tropicais. Cresceram de maneira caótica sem o menor planejamento e pagam um preço alto pela falta de infra-estrutura urbana. Histórias como essas do Rio de Janeiro são comuns também em São Paulo, Belo Horizonte e Rio Branco. Mora-dias construídas em áreas de risco expondo famílias inteiras à vulnerabilidade das forças da natureza.

É preciso criar planos eficientes para remoção de pessoas que habitam áreas de risco. O Governo do Acre já vem fazendo alguma coisa nesse sentido através do seu projeto habitacional com a retirada de ribeirinhos do Rio Acre para outras moradias. A questão é dotar esses novos bairros de estrutura para que as famílias não queiram retornar aos seus lugares de origem. Inclusive, é preciso tomar medidas mais fortes caso haja insistência.

No tempo do governador do Rio, Carlos Lacerda, nos anos 60, foi feita experiências de remoções de famílias de favelados para conjuntos habitacionais em Jacarepaguá. A maioria voltou. As principais favelas no Rio ficam próximas da orla litorânea e ninguém quis deixar o mar para morar distante. A Cidade de Deus é exatamente um conjunto habitacional que foi ocupado, num primeiro momento, por favelados que depois venderam suas casas para pessoas ainda mais pobres. Acabou virando um reduto de marginalidade e de problemas sociais infindáveis para os cariocas.

Algo similar também aconteceu em Cruzeiro do Sul quando moradores do bairro da Lagoa, que alaga em todo inverno amazônico, foram removidos para um conjunto habitacional, mas acabaram voltando. O mesmo já ocorreu em Rio Branco, nos bairros ribeirinhos. Portanto, não dá para brincar de fazer política popular para agradar gregos e troianos com si-tuações extremas. A irresponsabilidade de um chefe de família que não quer sair de uma área perigosa coloca em risco a vida de crianças inocentes a quem não foi dada a oportunidade de escolher o melhor lugar para se viver. Já é hora dos governos que têm verdadeiros interesses em preservar a vida e os direitos dos seus cidadãos e cidadãs agirem com rigor para que as mesmas tragédias causadas pelas chuvas em vários lugares do país não se repitam eternamente.

* Nelson Liano é jornalista
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