Por trás da Cortina de Ferro

Estou terminando a minha visita pelos países da extinta Cortina de Ferro. Sempre tive muita curiosidade para saber como é a vida das pessoas que habitam esses países que por mais de 50 anos viveram no regime comunista. A primeira coisa que descobri viajando pela Hungria, Eslováquia e República Tcheca é que o regime não foi escolhido pela população. Mas uma conseqüência natural dos acordos políticos entre os Estados Unidos e a União Soviética depois da segunda Guerra Mundial. Destroçados pelo nazismo os povos aceitaram pacificamente o impe-rialismo soviético. 

Mas conversando com uma amiga jornalista, em Praga, ela me contou que os tchecos nunca desejaram um regime fechado. Se alguém passar mais de dois dias na Capital Tcheca vai descobrir rápido que as pessoas são abertas e amantes das artes e da liberdade. Numa segunda-feira, fui ao teatro assistir uma peça Tcheca de críticas políticas. Estava completamente lotado. Apesar de não entender nenhuma palavra em tcheco nunca me diverti tanto. Os atores e atrizes, muito profissionais, ironizavam o novo capitalismo do país, a influência norte-americana sobre a cultura e os antigos conceitos comunistas. Sobrava farpas para todo mundo. A representação era tão boa que ficava fácil entender o contexto do espetáculo. Teatro, dança, ópera são populares em Praga, não uma coisa de elite.

Aliás, apesar da repressão que os tchecos sofreram durante o regime fechado, o comunismo deixou também algumas boas heranças. A principal delas é o sistema de transporte. Com o equivalente a R$ 2 é possível utilizar trens urbanos, metro e ônibus elétricos a vontade durante 24 horas. É só comprar um tíquete em qualquer loja e se movimentar. O incrível é que não tem nenhuma fiscalização. Depende da consciência de cada um.  Pensei: “se fosse, no Brasil, o governo teria um grande prejuízo porque ninguém iria pagar”.          

Outra marca deixada pelo comunismo é a saúde pública. Qualquer cidadão tcheco é tratado de maneira igualitária nos hospitais do país. Não existe medicina privada ainda. No entanto, segundo a jornalista, com a entrada da República Tcheca para a Comunidade Européia, os médicos começam a procurar outros países da Europa Ocidental para trabalharem. Assim começam a faltar profissionais especializados no sistema público de saúde. A razão é simples. Como todos os médicos são funcionários do governo têm um salário muito baixo, algo em torno de R$ 4 mil por mês. Um garçom pode ganhar muito mais. Tendo uma boa formação nas excelentes universidades públicas do país os profissionais acabam recebendo tentadoras propostas para imigrarem. Quem sabe o governo do Acre também possa também convidar alguns.

Os tchecos foram espertos. Ficaram com as coisas boas do comunismo e vivem a democracia plena. Não existem muitas diferenças entre as classes so-ciais como no Brasil. Nem muitos ricos e nem muitos pobres. Isso é visível. A classe média é dominante. A República Tcheca é um país muito agradável com um povo alegre e, sobretudo, amante da liberdade.      

* Nelson Liano é jornalista
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