O outro lado da redação

Sou de um tempo não muito distante, apesar de não parecer, em que os repórteres não tinham preguiça mental, possuíam o dom de escrever em poucos “toques” – sem maldade – o título de uma matéria, tirando a essência para seduzir os leitores que vissem apenas a manchete. Tempos do “doido” do Chico Araújo, o “ligeirinho” do Edinho, do saudoso J. Edson, entre tantos que passaram pela redação de A GAZETA.

Agora o que se vê são repórteres criados na geração Crtl + Shfit + aperta + aperta + aperta, isso até o título caber em uma linha que não caberia nos tempos da linotipo. Muitas vezes tento entender o título, pois de tão apertar entre os caracteres, as palavras ficam coladas, de difícil “tradução”.

Lembro das palavras nada educadas de outro saudoso, o Zé Leite, quando afirmava: “por%$%, nem o pai dele vai ler um parágrafo do tamanho do $#$W%@%@% dele”. São os famosos “doutores” de redação. Esses acham que o pobre leitor – muitos também preguiçosos – tem a obrigação de ler as teses de mestrados, onde um parágrafo mais parece a Bíblia de tão grande que são. Não, não mesmo. Ninguém tem a obrigação, por melhor que a matéria seja de ler um texto cansativo, nem mesmo os melhores amigos do dito repórter.

Em cima dessas teses, os austeros repórteres que escrevem, pensando estar mandando material especial para a Folha de São Paulo o O Estadão, de quatro páginas, devem lembrar da pobre realidade dos jornais acreanos, onde temos, no máximo, uma página dupla, ou mais conhecida por central. No mais são páginas simples, com direito a meia página de publicidade – graças a Deus, afinal no final do mês quero receber – , repartidas pelas colunas, sejam de concurso, diversidade, políticas, entre outras.

Adoro ouvir o repórter dizendo “tem que caber e mais quatro fotos do tamanho da minha cara”. Fico imaginando que estão de brincadeira, preferindo rir e devolver na lata: “corta a matéria ou fica só a matéria com uma foto pequena”. Na maioria das vezes fica apenas a foto pequena. Culpa minha? O #[email protected]%@%.

Vale uma dica do saudoso Piteco – repórter que também era diagramador, editor, fotógrafo, entre outras porras loucas – que afirmava: as legendas não são repetições do título, muito menos um trecho copiado do texto, mas algo inédito, que não foi escrito nem no texto, muito menos no título.
Muitas outras críticas poderiam ser feitas, mas para receber críticas dos caros colegas estes breves 2.400 caracteres. O que pode ser repetido pelos demais colegas na hora de escrever neste espaço semanal, que preferem utilizar 3 mil ou mais, deixando o corpo 10, 9 e algumas vezes 8.

Ramiro Marcelo é diagramador de origem e repórter formado.
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