A educação em perigo

Se existe algo que deveria interessar a todos é a educação e sua congênere, a cultura. Isso porque a apropriação do conhecimento, sua aplicação, se beneficia ao todo ou somente à algumas partes, se é opor-tunizado a todos ou somente a uma minoria, se redunda em uma moral ou postura ética que almeje a justiça, se pressupõe um crescimento com base na solidariedade ou na competição, enfim, tudo isso e muito mais são aspectos a se considerar quando um candidato, por exemplo, fala em educação. Quase sempre quando ouço um candidato falar em educação eu penso se ele sabe mesmo do que está falando.

A revista Veja destacou, recentemente o invejável currículo de José Serra e a pobreza do de Dilma Rousseff, os dois presidenciáveis que estão à frente nas pesquisas eleitorais. É claro que isso tem um peso enorme. Ademais, José Serra deixou boas impressões do período em que foi ministro da Saúde. Mas eu me pergunto se ele colocará Paulo Renato, outra vez, no MEC como fez FHC do mesmo partido. Aliás,o setor educacional é reservado sempre para Paulo Renato quando os tucanos chegam ao poder.

Em São Paulo, o Sistema de Ava-liação do Rendimento Escolar do Estado comprovou, em 2008, que 82,5% dos alunos da oitava série não atingiram o nível esperado em Português, e 88,4% em Matemática. No Ensino médio estão abaixo do nível nessas mesmas disciplinas 70,6% e 94,8% respectivamente. Portanto, não é somente em nosso Estado que existem problemas quanto ao rendimento escolar, fato verificável por aqueles que atuam no cotidiano das escolas, que corrigem provas de vestibulares e concursos.

Em geral, culpam-se os professores. Estes, por sua vez, culpam a Secretaria de Educação cujos assessores estão sempre a inventar “modas” saídas não se sabe de onde ou mesmo das suas próprias cabeças e que não apresentam resultados esperados. E que a secretaria “faz a maior zona” sempre mudando, de uma hora para outra, a disposição das coisas, como aconteceu recentemente, diminuindo a carga horária de biologia e química, redistribuindo a de sociologia em todas as séries, pois, antes era somente no terceiro ano afora outras. Mudanças que acontecem não se sabe por que, calcadas em qual receituário, de qual teoria educacional,  sob qual justificativa e que afetam a relativa estabilidade que um sistema educacional precisa ter pois seus objetivos e metas requerem prazos muito longos.

Uma supervisora me disse que considera como ponto negativo, a contratação de professores saídos da rede privada de ensino superior que segundo ela deixam muito a desejar. Aqui, como em São Paulo, os concursos, por suas próprias regras, não preenchem todas as vagas, de maneira que é preciso contratar professores temporários, que são aqueles que não conseguiram ser aprovados em concursos mas que detém um diploma. O que denota um contra-senso.

Paulo Renato, secretário de Educação de São Paulo foi ministro da Educação durante o Governo de Fernando Henrique, quando tiveram início esses programas de educação à distância com toda sua parafernália tecnológica. Aqui no Acre, nos interio-res amarravam as antenas em pedaços de pau fincados no chão e preferiam assistir campeonatos de futebol. Quando presidente, Itamar Franco criou o Programa Biblioteca do Professor quando foram distribuídos, em todo o país kits com duzentos exemplares, cada um, de obras básicas, clássicas, necessárias para uma cultura geral tais como Casa Grande e Senzala, Raízes do Brasil, Formação econômica do Brasil, de Gilberto Freire, Sergio Buarque de Holanda e Caio Prado Jr, afora outros grandes autores, inclusive romancistas e poetas. Uma prefeitura do interior acreano permaneceu meses a fio com as caixas de livros num canto de paredes servindo como suporte.

Há uma diferença significativa na visão de Itamar Franco quanto às necessidades da educação daquela  apresentada por FHC. A mudança que ocorreu a partir de Fernando Henrique foi como uma avalanche de inúmeros programas para a Educação, na base da terceirização, com muita propaganda, marketing, distribuição de aparelhos de televisão por todo o país, antenas, kits de todo tipo, autorização de cursos superiores da iniciativa privada, aos milhares, dando muita ênfase ao ensino privado em geral. Sem contar que FHC extinguiu, em todo o país, à exceção de São Paulo e Rio de Janeiro, as delegacias do MEC cujos técnicos realizavam acompanhamento das prestações de contas dos prefeitos, orientando inclusive aqueles mais despreparados em gestão, acompanhamento da execução física dos projetos, quais seja, verificar in loco a construção de escolas, entre outras atividades.

A opinião de vários especialistas o ensino à distância não é apropriado para a formação inicial, em qualquer profissão, muito menos na de professor. Além disso, não proporciona uma formação humanística importante para a formação e o crescimento da pessoa.

O ensino presencial é como uma encenação teatral na qual o ator, no palco, é capaz de captar a temperatura da platéia, ou seja, se está “quente” ou “fria” e deve ter habilidade para envolver o espectador dispersivo. O professor convive com seus alunos, o ano todo, várias horas na semana, de modo que a sala de aula é parte constitutiva da formação geral do aluno e somente ele pode avaliar e sentir a transformação que se opera, um a um, em maior e menor graus, em seus alunos. Quanto mais investimentos na formação do professor muito melhor. Mas não existem programas de pós-graduação para os professores por uma questão econômica, para que ele não seja retirado da sala de aula e aumente o ônus para a folha de pagamento. Quando o ideal seria que os professores tivessem mais oportunidades de fazer pós-graduação e desse modo tornarem-se pesquisadores e não somente repassadores de conteúdos veiculados pelos livros didáticos adotados pelo sistema.

Além do mais, com tantas “inovações” e ingerências no ambiente escolar por parte dos tecnocratas, até hoje ninguém sabe como integrar conteúdos e realizar a inter-disciplinaridade tão propagada. Os conteúdos são descontextualizados, ou seja, o ensino de física deveria ser acompanhado da própria história da disciplina, o ensino de artes poderia trabalhar o teatro grego quando o professor de história estivesse trabalhando mundo antigo, e assim com todas as modalidades artísticas em todas as épocas e cenários estudados. Ocorreria, de fato, a junção dos antigos cursos de ensino médio Clássico e Científico.

Haveremos de lamentar sempre haverem separado a educação da cultura. Por fim, é preocupante ver a ascensão dos tucanos nas pesquisas, por temor que Paulo Renato volte, por exemplo. Mas, por outro lado, o governo Lula não apresentou nenhum projeto iluminador para a educação, mesmo porque o carro-chefe da economia brasileira continua sendo a monocultura e a exportação de produtos tropicais, que não demanda um ensino fortemente enlaçado com a pesquisa científica nem construção de laboratórios. De modo que Dilma Rousseff parece não ter nada a oferecer nesse campo, já tem cara de PAC, vai inundar cinco municípios na bacia do Rio Xingu, só pensa em infra-estrutura quando o essencial é a humanização deste país via educação com cultura.

Sócrates ensinava nas ruas e, quando começou a revolucionar com seu método de descons-trução dos sedimentos morais de uma sociedade segregacionista foi condenado a morte. Ele não precisava de prédios, salas, quadro nem pincel.

 

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