Eles se acham!

É interessante observar que desde o primeiro mandato do Partido dos Trabalhadores no Acre que os órgãos e secretarias por onde passam altas somas de dinheiro, tais como infra-estrutura urbana, pavimentação com asfalto, reforma de praça ao custo de quatro milhões, passarela de mais de dez milhões, entre outras obras de impacto, vultosas, afora a concessão de florestas públicas para grandes empresários do sul, estão sob a direção de gente de fora. Ao passo que as secretarias que funcionam com recursos mínimos, só para manutenção, estão nas mãos de acreanos. Passam a idéia de que essas pessoas são insubstituíveis, competentes a um nível tal que os acreanos formados na Ufac em engenharia florestal, engenharia civil, economia e outros cursos jamais poderiam alcançar. Quando o que realmente se passa é que são discretos ao extremo, não “se misturam” com nossa gente, que não sabendo quem eles são não podem apontar o dedo e fazer cobranças, seja lá quais forem. Isso, porque, para se fazer críticas e cobranças é preciso um mínimo de intimidade, do tipo “eu sei quem você é, sei de onde veio”.

A recente greve dos professores expôs a Secretaria de Educação, por exemplo, que não tem a chave do cofre. Além do mais ninguém viu aqueles que hoje estão numa situação mais do que confortável mostrarem a cara. Marina Silva alçou-se ao poder montada nos ombros dos professores, ganhando projeção em suas greves, fazendo ecoar a sua voz, com microfone em punho, está ocupada, sabemos bem, com sua campanha. Não enviou nenhum representante para apoiar a antiga base. Só esperamos que ela não venha encarnar o mito de Ícaro. Afinal, o mais importante num projeto de “desenvolvimento” sustentável é a qualidade do ensino que demanda qualificação dos professores, que demanda bons salários para que possam além de se manter, cus-tear cursos de pós-graduação, por exemplo. E ademais, estavam lutando pelas perdas salariais, uma luta limpa, constitucional.

Edvaldo Magalhães a quem conheci liderando um movimento de professores na cidade de Cruzeiro do Sul, por sua vez, deixou ao abandono as velhas bases. A Naluh Gouveia, premiada com o cargo de Conselheira no Tribunal de Contas, também não deu as caras. Mesmo que estivesse coberto de razão, o Governo não precisava humilhar o movimento dos professores. Não precisava quebrar essa força, concorrer com ela, provar que pode mais. Os professores, em luta legítima, tornaram-se vilões, numa prova cabal de que a nova política de “democracia” nas escolas, com eleições para diretores e conselhos representativos da “comunidade”, é mais um instrumento manejado pelo Governo,  já que a socie-dade deu as costas para os grevistas.

Este é um governo  que corre na sua raia, concorrente do próprio povo. Todos os dias,  vemos o sorriso do governador estampado nas fotografias, ao lado de autoridades locais e internacionais, sendo que na página ao lado notícias as mais escabrosas também têm espaço todos os dias. Numa edição recente, deste jornal, uma manchete de capa mostrava uma passeata, quando manifestantes ostentavam cartazes pedindo providências quanto ao desaparecimento do adolescente cujas fotos estão por toda parte, na cidade. Na página seguinte, estava estampada a fotografia do governador com sorriso de orelha a orelha. O leitor poderá dizer que sou muito implicante, afinal, é como se estivesse sugerindo que o governador não possa sorrir. Mas, nesta semana, um estudante de colégio particular, aguardava o carro de sua mãe, ao meio-dia, no portão do colégio, junto com dezenas de outros estudantes, quando sentiu uma faca nas costelas e ouviu o seguinte: passa o celular e fique caladinho. Não dá para sorrir, com tanto banditismo.

Quando uma casa pegou fogo, na periferia, anos atrás, estando a mãe trabalhando fora, e suas crianças morreram tostadas, o primeiro pensamento que me ocorreu foi que a Secretaria da Mulher, na ocasião, deveria entregar o cargo. Mas ela deve ter pensado que o acontecido não lhe dizia respeito. Como ocorre, de modo geral, com as pessoas que exercem “cargo de confiança”, de “esquecerem” que seu comportamento, atitudes, decisões, forma de atuação deveriam ter o foco no bem público. Mas, livremos a Saúde de críticas, pois parece estar sendo bem conduzida. E havendo greve, o secretário também não teria as chaves do cofre.
Esse partido que está no poder, foi conduzido por uma grande frente de ativistas que atuava, nos mais diversos setores, em interface, de forma compacta, em

unidade: no movimento artístico, no movimento indígena, na imprensa alternativa, no movimento sindical, no movimento estudantil, cujas bandeiras de luta apontavam para uma nova direção, aquela dos direitos humanos, da participação, da democracia. Foi um projeto coletivo, movido a ideais, utopias, convicções e, sobretudo, honestidade de princípios. Esta foi a carta de crédito pela qual o partido que está no poder se apropriou para capitalizar alguns poucos e deixar os velhos companheiros e as novas gerações à margem dos negócios do Estado.

Agora mesmo, um grupo de empresários do Sul, está vindo explorar centenas de milhares de florestas sob as barbas da Derci Teles, combativa liderança sindical de Xapuri em assuntos de floresta que deveria ser, de forma mais que legítima, a Secretaria de Floresta, ou alguém indicado por seus pares, e não um estranho que não sabemos quem indicou e que nunca teve a gentil idéia de mandar colocar na praça um stand para divulgação e explicação, junto à comunidade em geral, do que vem a ser “plano de manejo”. Melhor seria renunciarem ao cinismo de propagar que esse é um governo participativo.

O bom da História é que tudo vem à luz, um dia, por mais que demore. Os historiadores do futuro produzirão uma imagem muito distinta da auto-imagem que o governo produz com sua assessoria dinâmica. O ruim é que o presente se esvai e o que se perde jamais será recuperado. Isso por causa de uma equação muito simples, de um lado uma massa que perambula pelas ruas sem chão, e, porque é sem chão, não decide, flutua num espaço que têm donos para onde quer que se vire, mas vota e seu quantitativo de votos é decisivo, e, de outro, um grupo de privilegiados que se acham  “eleitos de Deus”. Mas, é como se diz, “eles se acham”.

 
Dias atrás, assisti pela televisão, o caso de uma pessoa que morreu de uma enfermidade causada por excrementos de rato, de ratos que habitam os esgotos e essas áreas encharcadas, periféricas, onde não existem esgotos nem drenagem. O que nos chamou a atenção, contudo, foi que no enquadramento da câmera de vídeo, da reportagem, quando o repórter fazia perguntas a duas moradoras, estavam pelo menos trinta crianças e pré-adolescentes, em volta, curiosas.

O resultado daquela equação é que temos uma secretaria de assistência social que não promove planejamento familiar, aquilo a qual nossa amiga Carla Brito chama de “fazer com que os agentes de saúde andem de casa em casa colocando pílula anticoncepcional na boca das adolescentes”, uma população que mora em áreas insalubres e que se reproduz em progressão geométrica, sem perspectiva alguma, uma secretaria de planejamento que não “desperdiça” suas viagens à Brasília para captar recursos para amenizar a miséria, e sim para grandes obras que capitalizam as empreiteiras e os empresários em geral, uma Secretaria de Segurança que não pode impedir que essas crianças que nascem sob essas condições entrem no narcotráfico, na prostituição e no banditismo generalizado. Enfim, temos um governo para si e não um governo para todos. E que “se acha o máximo”.

 

 

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