Tradição se inventa

Já vai para um século o surgimento da indústria alimentícia em São Paulo. Como se sabe a indústria como conhecemos hoje nasceu processando alimentos e fibras para fabricação de têxteis. Só depois surgiram os produtos pesados tais como maquinários. A entrada no mercado da bolacha cream craker da indústria acreana Miragina é mais que uma novidade, é um fato representativo daquilo que se chama “substituição das importações”. Compreendendo que o Brasil é uma união de Estados concorrentes, no plano da economia, cada um focado em seu crescimento próprio, a nova bolacha é como grito de guerra: “nós também temos cream craker!”. Resta, agora, que o consumidor acriano compre o produto, pois fazendo isso estará contribuindo com a oferta e expansão de empregos em nosso próprio Estado.

A fábrica Miragina, que já é tradição, tem em seu nascedouro o esforço e a fibra da senhora Miriam Felício, segundo ouvi de Angela Aguiar, 80 anos, funcionária pública aposentada que nasceu e cresceu em Brasiléia e preserva uma memória impressionante de fatos do período da sua infância e mocidade naquele município. Em especial, ela é um registro vivo da formação da cidade e das famílias fundadoras. Ano passado, de visita àquela cidade para rever amigos procurou o órgão de cultura da prefeitura oferecendo-se para informar sobre a história da cidade em troca de estadia por alguns dias, mas, não ficaram interessados e, responderam que “não tinham dinheiro para pagar-lhe diárias num hotel”. 

 Dona Ângela lembra bem da loja “Flor de Brasiléia” de Miguel Assis, fazendeiro e comerciante, pai de Miriam, por quem nutre grande admiração. Disse que numa tarde, sol a pino, caminhava para seu emprego quando teve um encontro com aquela, muito moça ainda, que caminhava segurando um  panelão, quando lhe indagou: o que é isso, Miriam, para onde você está indo? Ela estava indo levar sopa para os doentes do hospital “porque naquele tempo não tinha, como hoje, comida para os internos”.

Anos depois, ela reencontrou Miriam, já casada, aqui em Rio Branco, dirigindo uma padaria ao lado dos Correios. Mais tarde, do outro lado, na mesma rua, a Epaminondas Jácome, a encontrou vendendo bolos no que ela denominou de “uma puxada”, e, que a mesma foi para Belém, junto com o marido, A. Felício, aprender sobre o fabrico de bolachas na fábrica Palmares. Depois, o casal foi adquirindo equipamentos e maquinários para instalar a fábrica Miragina, nome este resultante da junção de Míriam com Geni Assis, sua única irmã. Do mesmo modo, Rosa Amélia, a lanchonete frente à fábrica, na rua do Aviário, deriva dos nomes de sua mãe e de sua sogra. Míriam Felício, que estudou em bons colégios de Belém, quando moça, é exemplo ou encarnação do que se chama vocação, pioneirismo e empreendedorismo. Além de que, segundo sua conterrânea, Ângela, é uma pessoa humaníssima.

Devido a essa inclinação que tenho de gostar de conversar com idosos, melhor dizendo, de ouvi-los, conheci, no recente almoço de aniversário do cabeleireiro Kelvinson, sua vizinha, D. Glória, na rua 1º Maio do Conjunto habitacional Bela Vista, versada em alta costura, que faz vestidos de noiva e outros,  com qualidade e requinte, habilidades que adquiriu no Rio de Janeiro, onde viveu por mais de cinquenta anos, fazendo escola em ateliês renomados de alta costura. Ela me disse que saiu muito moça da cidade de Cruzeiro do Sul porque sendo pobre iria acabar com filho na barriga, de algum figurão que iria largá-la sozinha como acontecia comumente naquela terra onde, no período, comandavam os coronéis de barranco.

Dona Glória, na casa dos oitenta, contou-me sobre sua vida no Rio de Janeiro, onde casada, desdobrava-se entre as obrigações domésticas e a carreira na alta costura. Desde que retornou ao Acre vem ministrando cursos, antes no Senac, agora na Casa da Amizade, de modo que grande parte das costureiras que atuam nesta cidade, como aquelas  do bairro da Sobral foram alunas dela. Mas destacou um problema, relativamente grave, a falta de mão-de-obra qualificada, sobretudo, no que se refere à carência de assistentes em seu ateliê de alta costura. O curso que ministra, atualmente, na Casa da Amizade, por iniciativa de Otília Melo, segundo ela, ainda necessita de muita coisa, sendo árdua a caminhada para se atingir o nível desejável de eficiência e qualidade.

É evidente o declínio em nossa Capital do sistema “S” no que se refere à formação de trabalhadores depois que passou para as mãos do empre-sariado local. Os cursos em oferta são caros, inacessíveis para quem está desempregado e mesmo empregado ganhando salário-mínimo, e sem inovações. Reformas nos prédios são feitas constantemente, mas, a atividade fim que é formação e qualificação para o trabalho deixa muito a desejar.

Muita gente se engana ao pensar que a grande indústria que despeja milhões de peças quase que descartáveis de vestuário tenha algum papel relevante afora a expansão do varejo e o consumo de roupas e calçados baratos e sem qualidade. Recentemente assisti, pela sky, uma matéria sobre a Tod’s fabricante italiana de calçados, que lançou, por último, três modelos em parceria com a Ferrari, e que funciona com trabalho artesanal, sendo seus artesãos pessoas da região e claro, altamente qualificados, havendo controle de qualidade, ainda, desde seleção de matéria-prima ao uso de tinturas naturais. A TOD’S lança mão, é óbvio, das ferramentas da infor-mática, mas não se deixa levar pela falsa idéia de maiores lucros têm a ver com quantidade. O gerente falou à reportagem que jamais entra-riam nesse modelo chinês de produção em massa, quando o “Made in China” representa, na  verdade, a utilização de mão-de-obra barata de países pobres. O “Made in Italy” é mais do que orgulho nacional é representativo de qualidade.

Do mesmo modo uma fabricante de espartilhos que opera com costureiras da região, qualificadas, matéria-prima selecionada, na qual figura a renda de Calais, uma cidade proletária, portuária da França que vive da cultura e do turismo.

Melhor seria se a troupe  dinâmica de empresários acreanos que viajam vez por outra à China viajassem à Itália para visitar milhares de fábricas de lingerie, visitar Bolonha, província onde as lojas são patrimônio de gerações de famílias tradicionais, onde as pessoas compram o peixe, a verdura, a fruta na rua com feirantes “velhos conhecidos” e que o modo italiano de produzir é representativo da mescla do trabalho artesanal qualificado com as inovações tecnológicas a par, ainda, com a presença de famílias tradicionais no mundo dos negócios.

Os povos indígenas produzem vestuário de algodão há mais de um século, quem sabe algum empresário não venha a investir em têxteis aqui no Acre, como os Felícios na indústria alimentícia. Maquinário, qualificação dos artesãos, selo de qualidade, subsídios e um novo Acre poderia ressurgir distante desse cenário de açougues tão somente, em cada esquina. De mais a mais, as esposas dos empresários não usam sapatos, roupas nem sapatos “made in China”. Elas usam Armani, Gucci, Arezzo, etc……

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