Prévias eleitorais

A recente pesquisa de prévias eleitorais da CNT/Sensus, feita junto ao público(??) dizendo quem é quem na corrida presidencial, além de contraditória, em relação a outras também recentes, denota preocupação exagerada em ascender a pré-candidata do governo a altura dos índices plenamente favoráveis ao candidato do PSDB. Essas pesquisas, sem desmerecer o lado científico da análise, à luz das predições religiosas mais parecem profecias místicas que só existem para satisfazer o orgulho humano ou o desejo de poder. Tais pesquisas supostamente dão aos seus proponentes, munição para combater os seus “inimigos” políticos, obter vantagens com empresários (apoio de campanha) e nos negócios pessoais; além, é claro, de florescer os anseios de vaidade, exibicionismo e presunção. Em outras palavras: presunção elevada ao quadrado. Aliás, uma definição de marketing aceita por grande parte dos profissionais que lidam com “venda” ou “mercado” é a seguinte: marketing é a realização de atividades de negócios que dirigem o fluxo de bens  e serviços do produtor ao consumidor, para satisfazer as necessidades e desejos do consu-mista e as metas e objetivos do fabricante. Assim, estou entre aqueles que guardam má impressão do marketing por considerar um termo ilusório, criado só para “camuflar” a palavra “venda”.

De todas as previsões desses institutos de pesquisas espalhadas por esse mundão eu só acredito naquela que disser que, mais uma vez, as próximas eleições serão de caráter pragmático. Todavia essa predição seria indispensável, pois que essa tem sido a tônica das eleições no Brasil nos últimos 50 anos. Mesmo porque, para essas agências da especulação de “intenção de votos” pouco importa se a teoria, de alguns políticos, é verdadeira ou falsa. O importante é que dê resultados práticos e imediatos

A maioria da gente sabe que, do lado de cá do Atlântico, as eleições têm base numa ética situacional. O eleitor quer ter sua rua asfaltada, a praça de sua cidade embelezada, quer ter emprego garantido com salário em dia, o pastor quer telhas para cobrir casas de oração, o padre quer reformar a igreja, enfim: todos querem resultados práticos. Desmentir essa verdade é ser no mínimo hipócrita. Veja por exemplo, a injeção de recursos, a partir de março deste ano oriundo do Governo Federal via PAC. Só o programa Bolsa-Família já ultrapassa R$ 900 milhões. Entre aqui e as eleições gerais o Brasil vai virar “canteiro de obras!”

Outra grande besteira é gastar R$ com propaganda institucional orientando o eleitor a “votar consciente” ou “votar com ética” etc., quando se sabe que no Brasil, o eleitor, com raríssima exceção, sempre vota por interesses secundários. E mais, nem a ação e o papel destacado da Justiça Eleitoral, hoje com cobranças mais rígidas, fará com que os contumazes fabricantes de “lista remunerada” deixem de usar esta “engrenagem” em favor de suas candidaturas, nesta próxima eleição.

Esse pragmatismo eleitoral ou do voto vai demorar a ser debelado da vida pública tupiniquim, uma vez que se faz presente, há tempos, nas entranhas da classe política brasileira; alimenta-se de: sistemas populistas; dos caciques com seus falsos paternalismos; casuísmo e  clientelismo; conchavos político; cooptações e barganhas da pior espécie que tanto mal faz ao Brasil em longo dos anos.

Essa promiscuidade entre política partidária e marketing nos faz distanciar, cada vez mais, daquela idéia clássica, oriunda do pensamento platônico, de que as noções políticas são permeadas por um elevado senso moral e que os padrões éticos representados na virtude da sabedoria, da coragem, da moderação e da justiça, que deveriam se fazer presentes na política, propria-mente dita, e nas suas formas de governo; nos dias atuais, é uma verdadeira utopia, para não dizer de elevado conceito abstrato, isto é:  impossível à luz da experiência humana, porquanto política e ética  que deveriam andar lado a lado estão,  hoje, trilhando caminhos ambíguos, não tem nada a ver uma com a outra

* Francisco Assis dos Santos é professor e pesquisador (de gabinete) em Filosofia e Ciências da Religião. E-mail: assis [email protected]

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