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Francisco Assis
Francisco Assis dos Santos é filósofo e humanista. Email:[email protected]

Um tributo às mães!

Nesta semana experimentei o conflito de qual assunto abordar, aqui neste espaço, uma vez que, esta foi uma semana sobejada de acontecimentos que fogem ao marasmo: a greve dos professores da educação e de outras “categorias” “por reposição salarial” seria um bom prato; o aparecimento de mais casos de pedofilia na Igreja Católica; as intrigantes e incômodas mortes de presidiários na penitenciária Francisco de Oliveira Conde, aliás, nesta última morte, há indícios de que o crime teria sido encomendado.  São temas, alguns até macabros, entre outros, que fazem à notícia do momento. Contudo, orientado pelo jurássico método cartesiano de René Descartes, ordenei o pensamento e me despojei dos problemas complexos e angustiantes, do mundo moderno, para prestar tributo às mães, essas eternas santas protetoras. 

A extrema dependência da prole humana, em seus tenros anos, ensina-nos que, desde o princípio, deve haver mães que cuide de seus filhos, o que já constitui uma unidade básica da família. De outro modo, dizem os especialistas, a raça humana não poderia sobreviver.

A figura da mãe é, em longo dos tempos, emblemática, especialmente, quando a família, por questões econômicas, luta pela sobrevivência e não ocupa posição proeminente na sociedade. Ser mãe, embora todas as demais funções sejam igualmente reconhecidas, é o papel mais preponderante da mulher, isso é pródigo a partir dos relatos bíblicos. Esse papel de mãe era tão importante, em dias idos, que a esterilidade feminina chegava a ser  considerada uma maldição dos deuses, porquanto furtava a mulher de uma de suas funções mais importante na vida

Digno de nota é o uso metafórico que se faz, em diferentes culturas, desse nome afável: A nação de um indivíduo podia ser chamada de mãe; a terra é nossa mãe. O Estado por abrigar, com suas benesses a todos é em muitas ocasiões, chamado de mãe. Alguns governos, que para o velho Sócrates deveriam ser o pai e educador do povo, são verdadeiras mamães, especialmente para meia dúzia de afilhados e protegidos. Ultimamente o termo se tornou pejorativo; já que até comentarista de futebol quando se refere a um time fraco diz que a “defesa” é uma mãe.

Mas o que pontifica na história da mulher mãe é a afeição por seus filhos, fato que exemplifica nas Sagradas Escrituras, os cuidados especiais de Deus pelos seus filhos espirituais. Aliás alguém tem dito que a melhor comparação do amor de Deus por nós é tipificado no amor da mãe pelo seu próprio filho.

Nessa condição de superpro-tetoras, existem mães que vão as últimas conseqüências no afã de proteger seus filhos. Conta-se que, na antiga Mesopotâmia, uma família, pai, mãe e três filhos, estavam morrendo a mingua (a fome era grande e inexorável).

Numa noite, o pai  tomou uma decisão: venderia um dos três filhos aos mercadores do deserto e, com o dinheiro da venda, salvaria a família. A mãe, tal qual uma ave que, sob as asas, protege seus filhotes, se acercou dos filhos, enquanto discutia contra a decisão do marido. O grande drama era qual dos três seria o escolhido: O mais velho (argumentava a pobre mãe)  não podemos vender, é o primogênito, o primeiro fruto do nosso amor; o do meio é muito parecido com você marido, não, este, também, não podemos vender; o terceiro, este é que não podemos vender mesmo, já que se trata do caçula, o nosso dengo-dengo. Então, pai, mãe e filhos, sucumbiram todos, debaixo da fome implacável, morrendo um após outro.

Outra característica das mães, de qualquer época da história da raça humana, é vê os filhos como eternas crianças. No meu caso específico, mesmo estando na casa dos 60 anos, só deixei de ser menino após a morte de minha mãe. Todavia, ainda hoje, ressoam em minha memória:  “Vem tomar café, menino!” ou “Por onde você anda, menino!”

Sabemos de casos de mulheres que em ato de desespero existencial atiram seus filhos recém-nascidos, às vezes, até em lata de lixo. Essas pariram simplesmente. Não são mães; pois que uma mãe verdadeira jamais abandona, em qualquer circunstância, seu próprio filho. Maria, mãe de Jesus, foi corajosamente ao pé da cruz, onde o filho estava crucificado, enquanto muitos de seus “discípulos e amigos” fugiram ou se esconderam.

Santo Agostinho dizia que a memória é o presente do passado. Significa que é através da memória que cada um de nós consegue trazer o passado para o presente. As lembranças que eu guardo, na memória, da minha velha mãe (morreu aos 89 anos) são tantas e prazerosas.
Lembro de momentos ímpares que neste domingo, dia alusivo às mães, fará com que a saudade seja mais intensa no meu peito. Saudade em dizer, novamente: Benção mamãe!

* Francisco Assis dos Santos é professor e pesquisador (de gabinete) em Filosofia e Ciências da Religião. E-mail: [email protected]