Nofertil: a pílula do homem

A descoberta do anticoncepcional para a mulher iniciou em 15 de outubro de 1951. O primeiro passo rumo à descoberta foi dado pelo cientista Carl Djerassi que sintetizou em laboratório a substância noretindrona, o primeiro progestogênio que poderia ser usado oralmente (o objetivo era descobrir um remédio para inferti-lidade e problemas menstruais).

Em 1956 os americanos Gregory Pincus e John Rock fizeram os primeiros testes com progestogênio em seis mil mulheres de Porto Rico e do Haiti (com o objetivo de suspender a ovulação) e foi um sucesso.

Em 1960 o primeiro anticoncepcional foi lançado nos Estados Unidos. No ano seguinte a pílula chegou à Europa e Austrália.
No Brasil, o anticoncepcional chegou em 1962 e em 1966 (quatro anos depois) já se consumia cinco milhões de comprimidos por mês. Em 1989, vendia-se 100 milhões de cartelas ao ano.

PÍLULA DO HOMEM
São feitas experiências no sentido de se achar a pílula anticoncepcional ideal, sem o risco da infertilidade. A maioria delas usa o hormônio pro-gestogênio para obstruir a produção de espermatozóides.

Os hormônios progestógenos enganam o organismo, que passa a funcionar como se não precisasse mais produzir outros hormônios, os responsáveis pela espermatogênese. 

O problema é que o bloqueio desse hormônio impede a produção de testosterona, hormônio ligado diretamente a libido, a atividade sexual e a composição óssea dos homens.

Neste caso, a solução é dar ao homem não só a pílula, como também injeções mensais de testosterona.

Pesquisadores do Instituto Médico da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, estudam uma proteí-na-chave que controla o batimento da cauda de espermatozóide, com a finalidade de criação de uma pílula anticoncepcional masculina com menos efeitos colaterais. 

A proteína parece estar presente apenas em uma parte da cauda do espermatozóide. Assim, na opinião dos pesquisadores, qualquer remédio voltado para esta proteína teria, provavelmente, um efeito extremamente localizado.

PÍLULA DO HOMEM NO BRASIL
O Brasil também caminha em busca do contraceptivo masculino. Uma das possibilidades é a pílula criada pelo médico baiano Elsimar Coutinho, a qual é fabricada com base no gosipol, um composto derivado do algodão, que inibe a produção de espermatozóides. Em suas pesquisas, Elsimar testou o gosipol em cerca de 1,5 mil homens do Brasil, China e África.

A versão masculina da pílula é um comprimido diário à base de uma substância extraída do algodão, o gosipol.

Essa substância é usada na natureza para esterilizar insetos e no homem inibe a produção dos esper-matozóides. Na China o medicamento foi testado em oito mil homens e fez todos ficarem temporariamente inférteis.

O gosipol (Nofertil) age interrompendo o processo de crescimento do esperma, tornando-o infértil, apresentando as seguintes vantagens: não origina aumento de peso; não modifica a libido; não interfere no principal componente da masculinidade (não muda os níveis de testosterona) ele é feito de uma planta; e seus efeitos são reversíveis. 

Os voluntários que tomaram um comprimido diário durante um ano e três meses, quando pararam de ingerir a pílula, o cálculo de esperma revelaram resultados normais.

De acordo com Elsimar Coutinho, o homem deve tomar o gosipol durante três meses, tempo estimado para que o corpo do homem esgote suas reservas de espermatozóides. Depois, o uso deve ser contínuo.

FORMA DE USO
O tratamento com o Nofertil é diá-rio e deve ser ingerido um comprimido de 20 miligramas por um período de 60 a 90 dias. Neste tempo, o homem deve ser acompanhado por um urologista que solicitará um esper-mograma após o prazo de uso.

Vale ressaltar que quando o Nofertil é suspenso, inicia-se imediatamente a produção de espermatozóides pelo homem.

 Se o uso do medicamento não ultrapassar um ano, os riscos de infertilidade são quase nulos e num prazo máximo de 90 dias, o homem volta a ser fértil.

O Nofertil é um remédio ideal para homens que têm filhos e famílias formadas e não têm mais a intenção de serem novamente pais.

IMPORTANTE
A descoberta do anticoncepcional masculino diminui a obrigação exclusiva das mulheres de evitar a gravidez, possibilitando que o homem utilize um aliado ao preservativo. O novo medicamento, sem dúvida, promete mudanças nos costumes da população.

Mas, a controvérsia no meio científico está longe de ser contornada. Exemplo disto é que alguns especialistas da área asseguram que a mulher casada, aceita que seu marido tome a pílula, porque dessa forma o homem compartilha com ela, a responsabilidade de evitar gestações não desejadas. Outros especialistas, porém, entendem que as mulheres podem ver a pílula do homem como uma ameaça a seu poder de decisão, ou seja, o direito de querer ou não ter filhos quando bem lhe convier.

* Terezinha de Freitas Ferreira é doutora em Enfermagem pela Universidade de São Paulo – USP. Professora do Centro de Ciências da Saúde e do Desporto – Ufac. Coordenadora do Mestrado e Doutorado Interinstitucional em Saúde Pública da Universidade de São Paulo – USP/Ufac.

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