O Presidente Responde

Fábio Negreiros, 28, enfermeiro de Cuiabá (MT) – Em que estado o sr. deixa o cenário econômico para o próximo presidente?

Presidente Lula – Posso assegurar a você que deixo numa situação muito favorável. Veja que pela primeira vez nos últimos cinquenta anos, nosso país está combinando crescimento econômico com inclusão social e democracia política, uma coisa extraordinária. De 2003 a 2009, o Brasil teve crescimento médio anual de 3,6%, muito acima do que aconteceu nas décadas passadas, e este ano vamos crescer mais de 5%. Aliás, muitos economistas estão prevendo 6% ou mais. Desde o início do nosso governo, já criamos 12,4 milhões de novos empregos com carteira assinada e vamos ultrapassar 14 milhões até o final do ano. Graças, entre outras iniciativas, aos programas sociais e aos aumentos reais do salário mínimo, 24,1 milhões de pessoas saíram da situação de pobreza. Nada menos que 31 milhões ingressaram na classe média. Devido ao fortalecimento do mercado interno e ao nível das nossas reservas internacionais, que estão hoje em US$ 245 bilhões, conseguimos enfrentar e superar a pior crise mundial dos últimos 80 anos sem maiores prejuízos. Mesmo com a crise, não pedimos um tostão emprestado a instituições financeiras internacionais e ainda emprestamos US$ 14 bilhões ao FMI. Sinceramente, Fábio, eu gostaria muito de ter tomado posse, em 2003, com a economia brasileira nestas condições.

José Calvino de Andrade Lima, 68 anos, escritor e poeta de Recife (PE) – Por que o governo não propõe uma  Emenda Constitucional unificando as polícias Civil e Militar? Só assim não haveria disparidade salarial e as PMs deixariam de submeter-se à hierarquia militar.

Presidente Lula – Na maior parte das democracias do mundo, há mais de um tipo de polícia. Em geral, uma delas tem perfil militar, enquanto outra é responsável pelas investigações. Os papéis de uma e outra são complementares. Entre as atribuições da Polícia Civil, a principal é apurar e elucidar crimes. Cabe à PM, sobretudo, o policiamento ostensivo com o objetivo de fazer a prevenção, ou seja, de inibir a ocorrência de delitos, além de dar pronta resposta a ilegalidades flagrantes. Para aprimorar as nossas polícias, estamos desenvolvendo um dos maiores programas de educação policial do mundo, envolvendo 80 cursos de pós-graduação em segurança pública, assim como uma grande rede de educação a distância que, a cada quatro meses, reúne quase 200 mil policiais. Na mesma direção, realizamos no ano passado a 1ª Conferência Nacional de Segurança Pública, que mobilizou quase meio milhão de pessoas.

Cerilo Lalico, 53 anos, assistente social de Belém (PA) – Por que o Brasil não cria um órgão (Organização dos Estados Sul-Americanos e do Caribe – Oesac) que possa tratar dos negócios do nosso subcontinente frente aos demais, como o Nafta e a UE?

Presidente Lula – Cerilo, essa entidade sobre a qual você fala já existe. É a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac), fundada com a participação brasileira, em fevereiro último. A entidade foi criada durante a 2ª Cúpula da América-Latina e do Caribe, realizada no México – a 1ª Cúpula tinha sido rea-lizada no ano passado, em Sauípe, na Bahia. Foi uma iniciativa importante para o Brasil e para toda a região. Umas das prioridades da política externa brasileira é exatamente o fortalecimento do processo de integração regional. Somos sócios-fundadores do Mercosul e promovemos a formação da União de Nações Sul-Americanas (Unasul). O empenho brasileiro em aprofundar vínculos com países da região pode ser comprovado também pela realização, em Brasília, nos dias 26 e 27 últimos, da 1ª Cúpula Brasil – Comunidade do Caribe. Não faltam, portanto, iniciativas com o objetivo de nos unir política e economicamente, de forma a nos tornar mais fortes, pois temos de interagir com poderosos agrupamentos regionais. No que se refere especificamente a negociações comerciais, os países do Mercosul já negociam em conjunto com outras partes, inclusive com a União Européia. Estamos caminhando firmemente no rumo da consolidação do processo de integração em diversas frentes.

Assuntos desta notícia

Join the Conversation