Com 100% do território protegido, Acre tem agropecuária eficiente

A tese de que o grande número de áreas protegidas por questões ambientais ou demarcadas para grupos minoritá-rios colocam em risco a produção do agronegócio nacional é desmitificada a partir de análises de dois pesquisadores de uma das instituições científicas mais respeitadas do Brasil: a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária). Judson Ferreira Valentim e Carlos Maurício Soares de Andrade são autores do estudo “Tendências e Perspectivas da Pecuária Bovina na Amazônia Brasileira”.
Boi
A pesquisa aponta que, mesmo tendo uma cobertura florestal de 80%, o Acre é um dos estados da região onde a pecuária mais se desenvolveu nas últimas décadas. Já números do IBGE apontam evolução também na agricultura. Com 100% dos mais de 16 milhões de hectares do território protegido por unidades de conservação e áreas indígenas, o Acre serve como um referencial de que é possível desenvolver a produção no campo a partir de tecnologias simples, sem precisar entrar floresta adentro.

Entre 1975 e 2005, o rebanho bovino local cresceu mais de 1.300%. No mesmo período, a taxa de crescimento da área de pastagem foi de 732%. Com mais de dois milhões de cabeça de gado, o Acre apresenta outro resultado positivo em sua pecuária: a de ocupação de animais por hectar. Enquanto que a média nacional é de um boi por hectare, nas fazendas acreanas esta proporção é de 1,8 por 1h.

“Estamos 80% acima do restante do país”, comemora Judson Valentim, autor do estudo e chefe do escritório da Embrapa no Estado. Em três décadas, essa variação saltou 134%. Paralelo aos bons resultados da pecuária está uma agricultura que a cada ano tenta crescer. Sem incentivo, os produtores rurais preocuparam-se em investir muito na criação de animais (que tem resultados mais lucrativos) do que na diversificação de culturas plantadas.

Segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), entre 1998 e 2008 a área colhida com culturas anuais aumentou 29%. A plantação de milho é um exemplo desse agronegócio que cresce sem desmatar, respeitando uma das regiões da Amazônia mais conservada.

Há 10 anos, a colheita de milho não chegava a 33 mil toneladas. Em 2008, a produção chegou a 61 mil toneladas. Esse resultado crescente vem em contramão com os índices decrescentes de desmatamento da Amazônia. Última análise do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) mostra que a área desmatada entre agosto de 2008 a julho de 2009 foi 42% menor diante do período anterior.

O crescimento da produção sem a necessidade de que mais e mais áreas de floresta virassem pasto, só foi possível graças à adoção de tecnologias desenvolvidas pela Embrapa e outras instituições de pesquisa. O uso de técnicas capazes de recuperar pastos degradados, como o capim forrageiro, evitou que 213 milhões de hectares em todo o Brasil fossem incorporados à pecuária.

Na Amazônia Legal, essa economia foi de 147 milhões de hectares. “O país e o Acre têm áreas suficientes para impulsionar a produção sem ser necessário desmatar”, diz Valentim. Pesquisas da instituição apontam as soluções para essa equação (produção/preservação) que para muitos é quase impossível de ser solucionada.

Para tais projetos entrarem em prática, é preciso que os governos entrem em ação, pois muitos exigem o dispêndio de recursos que, para a maioria dos pequenos produtores, sai muito caro. A mecanização é outra forma de aprimorar os resultados no campo. No entanto, são necessários incentivos e subsídios para a compra destes maquinários.

O estudo dos pesquisadores aponta, também, a adaptação do sistema produtivo da região às exigências ambientais.  Mais uma vez o Acre tem dado passos à frente no sentido de ajudar os produtores a não se encrencarem com o que manda a lei. Através de sua Política de Valorização do Ativo Ambiental Florestal, o governo oferece mecanismo e incentivos para que pequenos e médios produtores recuperem as áreas degradadas dentro da reserva legal. 

 

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