Nazareth Araújo é a herdeira política de um mito

As novas gerações de acreanos talvez não se lembram de quem foi o primeiro governador eleito pelo voto direto no Estado. Pode ser que a maioria tenha lido sobre isso nos livros escolares de história, mas não tenham fixado. Quem sabe, conheçam apenas o nome e se aborreçam em ter que decorar. Talvez pensem que se tratava de mais um político com sede de poder. Mas a verdade é que um jovem filósofo, na época com 32 anos, sonhou em transformar as Terras de Galvez num oásis social na Amazônia. José Augusto, que era aliado do presidente socialista deposto pelo golpe militar de 64, João Goulart, tinha os conceitos mais progressistas que se pode imaginar para a política.
Nazareth
O professor de Filosofia já pensava em cooperativismo, reserva extrativista, reforma agrária, distribuição justa de renda e igualdade social. Idéias que os setores conservadores da sociedade brasileira considerava comunistas, no sentido pejorativo que o stalinismo autoritário forjou, no começo da década de 60. Em 1962, José Augusto encerrou o movimento autonomista acreano se elegendo o primeiro governador do Acre. Sentiu que teria a oportunidade de transformar a utopia em realidade. Mas as oligarquias que dominavam o Acre, aliada aos ditadores, abreviaram o sonho de José Augusto, em 1964. Ele faleceu em 1971 de desgosto por ter a sua trajetória interrompida pela brutalidade e a insensatez das forças políticas retrógradas.

A herança viva de um idealista
Apesar da sua trágica jornada política, José Augusto deixou uma herança viva. A esposa, Maria Lúcia Araújo, eleita duas vezes deputada federal. Na primeira, em 1966, foi cassada. Depois, em 1986, se tornou a representante das mulheres acreanas na nova Assembléia Constituinte do Brasil. A paixão política dos pais foi transmitida geneticamente para os filhos, o ve-reador Ricardo Araújo (PT) e Nazareth Araújo, recentemente procuradora-geral do Estado.

Apesar do êxito profissio-nal, a procuradora de carreira Nazareth Araújo resolveu trilhar os passos da paixão familiar, a política. Candidata a deputada federal, em 2002, Nazareth volta ao cenário político acreano para tentar uma cadeira na Aleac, em 2010. “É o mesmo sonho do meu pai. Poder ajudar o social através do processo político. O fato de ter, com o meu irmão, vereador Ricardo Araújo, voltado para o Acre tem muito a ver com isso. Ajudar a construir uma sociedade. Passamos 10 anos no Rio de Janeiro e voltamos para participar da evolução da sociedade do nosso Estado”, revelou.

Nazareth Araújo cresceu respirando política e envolvida por lembranças da atuação dos pais, que foram cassados durante a Ditadura Militar. “Minha mãe se elegeu em 66 e foi cassada. As pessoas diziam para que ela que não fizesse isso porque teria a criança que estava no seu ventre na cadeia. Nasci em janeiro de 67 e ela assumiu em fevereiro. Na época da junta militar minha mãe foi cassada. Voltou para o Congresso Nacional como deputada constituinte, em 86, e depois não quis mais”, destacou.

As lembranças do pai José Augusto são mais esparsas e dramáticas. “Ele faleceu decorrente dos processos que teve que responder. Tinha apenas 40 anos e estava desgostoso. Se for feita uma comparação entre as fotos da época que foi eleito, em 62, para o meu nascimento, em 67, parecia que ele tinha virado um avô. Estava muito magro e deprimido. Quando se tira o sonho de um idealista se rouba a alma dele. Quando ele voltou para o Acre, nos anos 50, queria fazer reservas extrativistas dentro dos seringais. Chegou a elaborar os decretos de desapropriação dos seringais. Isso desagradou muito o poder econômico do Acre, na época.

Quando a oligarquia percebeu que haveria uma mudança e que não seria apenas na estrutura do Estado, passou a persegui-lo. Ele queria passar o Acre de território para um estado moderno e participativo. O Banco que ele fundou era do Fomento Agrário do Estado do Acre. Ele implantou na zona rural o revolucionário método de ensino do Paulo Freire. Utilizou a Rádio Difusora Acreana, no seu início, para difundir aos métodos avançados de educação e debater as questões agrárias. Não tinha como ele não ser cassado”, relembra.

Todas as complicações políticas de José Augusto se refletiram na formação do caráter de Nazareth Araújo. “Lamento que o sonho do meu pai tenha durado tão pouco tempo. Ele queria os acreanos independentes para encerrar o ciclo autonomista. Sofri muito na minha infância porque morava no Rio de Janeiro, em plena Ditadura, e havia muito preconceito em relação aos cassados. As pessoas me perguntavam o que meu pai fazia. Não queria responder que meu pai era um político cassado e dizia que ele era professor de Filosofia”, salientou.

Na trilha do parlamento
Como mãe, mulher e profissional bem-sucedida, Nazareth, poderia se acomodar. Mas prefere participar diretamente das transformações sociais. “Tenho uma vivência política. Participo desse processo a mais de 10 anos. Na Procuradoria Geral do Estado a gente faz políticas públicas ajudando os que foram eleitos pelo povo num estado democrático de direito. Na Aleac, se eleita, vou poder contribuir muito com o conhecimento e a visão que tenho do Estado. Por isso, optei em atuar num outro espaço político que seria o parlamento. Quero passar um pouco da minha visão administrativa. Acredito que se chegar ao objetivo na minha jornada poderei somar ao processo que o Acre vive atualmente”, argumentou.

Apesar de confessar que os mais recentes governos do Acre, com Jorge Viana (PT) e Binho Marques (PT), realizaram parte dos sonhos do seu pai, Nazareth, ainda vê a necessidade de novas transformações. “Acredito que tem uma parte muito grande da sociedade que quer mudar a feição da política. As pessoas querem ética, cidadania e respeito à coisa pública. Algumas pessoas já chegaram a questionar porque vou encarar a disputa se tenho uma situação profissional estável. Como se a política fosse uma coisa ruim. Mas o exemplo que tenho de política de dentro da minha casa é que ela pode ser um importante instrumento de transformação social. É um movimento que pode ter conseqüências graves para a vida de uma pessoa que se coloca nesse ambiente. O meu pai doou a vida nesse ideal. Mas se observamos o que os recentes governadores já conquistaram e foram capazes de representar a sociedade acho que é uma luta que vale pena”, analisou.

Nazareth revela que prefere priorizar o coletivo como meta de vida. “É sair de uma confortável situação pessoal, mas estar fazendo alguma coisa pelo coletivo e pela sociedade que os nossos filhos herdarão. Se tenho condições de criar meu filho muito bem, sei que alguém ainda não tem o acesso a uma boa creche. Essas crianças acabam ficando pela rua e são adotadas por traficantes. A minha proposta é mostrar que todos vivem numa sociedade e que estamos interligados. Os problemas das camadas menos abastadas da população têm reflexos nas outras classes. Da mesma forma as atitudes que vem de cima se refletem nas camadas inferiores. E isso pode ser nefasto em termos de meio ambiente e de proposta social. Acho que ajudar a argumentar melhor por algumas políticas importantes que tenham essa visão é importante, revelou.

Mudança de trajetória
Convidada a ser candidata pelo senador Tião Viana (PT-AC), Nazareth, reforça os motivos de ter aceito o convite.  “O nome do meu irmão Ricardo foi cogitado, mas a minha candidatura foi pensada depois disso. Apesar do governador ter pedido para os seus secretá-rios não serem candidatos isso mudou um pouco pelo fato de eu ser uma profissional de carreira na minha função. Tenho a possibilidade de passar credibilidade pelo que faço. Isso foi pensado pelos líderes da FPA. O Binho sempre me dedicou muita confiança e foi uma honra fazer parte da sua equipe e fazer leis que vão ajudar muito a população com a visão que ele tem de inclusão social”, elogiou.

Para a procuradora o parlamento é a base para operar mudanças do executivo. “O nosso processo legislativo no Brasil ainda precisa ser muito melhorado. Quando a gente vê essa confusão tanto no judiciário quanto no executivo é por falta de atenção do legislativo. A gente precisa melhorar qualidade do legislativo nos seus processos internos para auxi-liar quem tem que executar. A sociedade precisa estar bem representada. E quem quer representar os acreanos tem que levar a sua mensagem. Acho que é muito importante receber o voto direto que significa a confiança das pessoas num processo democrático. Se está dando o poder para uma pessoa falar por você e votar leis que vão reger a sociedade. É uma coisa grandiosa”, concluiu.

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