Os donos do pedaço

Andar de ônibus faz parte da minha rotina diária. Isso me permitiu, ao longo dos anos, observar o comportamento dispensado ao usuário do transporte coletivo por motoristas e cobradores. Infelizmente, as experiências vividas e presenciadas, nos revelam profissionais, em muitas situações, despreparados para lidar com a coletividade.

A exemplo do que acontece diariamente com muitas pessoas, também já fui deixada para trás depois de horas num ponto de embarque; obrigada a caminhar longa distância por não ter tido a solicitação de parada atendida pelo motorista, isso em horário noturno; e até xingada por exigir alguns centavos de troco.

Da mesma forma já presenciei cenas de cortar o coração, como idosos, sendo sacolejados dentro dos coletivos, muitas vezes até caindo, em decorrência da alta velocidade; mães desesperada, tentando proteger suas crianças da correria insana dos motoristas de ônibus. Triste e cotidiana situação.

A vida do usuário, que deveria está em primeiro lugar, foi colocada de lado pela escala de serviço. Preocupados em chegar e sair nos horários determinados pela mencionada escala, motoristas cruzam o sinal vermelho, ignoram pontos de embarque e desembarque e até ultrapassam a velocidade permitida.

Nossas preocupações, que no passado, se resumiam ao aumento abusivo da tarifa, a ausência do troco e as precárias condições dos coletivos, se voltam agora para o flagrante desrespeito aos bens mais preciosos que tem o ser humano: sua dignidade e sua vida.

O que nos preocupa, neste caso, é que os abusos são praticados por trabalhadores. Homens e mulheres que não só prestam serviços, mas também se utilizam do sistema de transporte e por uma questão lógica, também estão sujeitos aos riscos decorrentes das práticas abusivas.

Diante dentro quadro nos perguntamos: De quem é a culpa neste caso? Das empresas, que não aperfeiçoam seus profissionais? Da Superintendência de Trânsito da Capital, que não fiscaliza? Dos usuários, que apesar de descontentes com esse tipo de prática, fica calado e não denuncia?

Com certeza de todos. Das empresas, quando elaboram escalas impossíveis de serem cumpridas no tempo estipulado e, mesmo assim, obrigam seus motoristas a cumpri-las. Da Rbtrans, que faz vista grossa aos abusos, deixando ao encargo do usuário as denúncias em caso de abuso. E do próprio usuário, que mesmo indignado e desrespeitado, nem sempre consegue anotar a placa do veículo e, por isso, finda não denunciando.

O que se espera nestes casos, é uma política de conscientização coletiva, puxada, neste caso específico, pelo gestor público responsável pela concessão do sistema de transporte coletivo. Cabe, entretanto, a nós, na qualidade de usuários e financiadores, despertar a atenção para esta problemática.

Enquanto nossas bocas se mantiverem fechadas, os ouvidos dos patrões do sistema coletivo e dos gestores públicos se manterão surdos para esta situação. Ademais, esperamos que motoristas e cobradores caiam na real e tratem os usuários do sistema de transporte coletivo com mais respeito, senão como seus legítimos patrões, mas como seres humanos.

*Dulcinéia Azevedo é jornalista e escreve às terças-feiras nesta coluna. E-mail: [email protected]

 

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