A praça é do povo

Parafraseando a canção de Caetano Veloso, a praça do Palácio Rio Branco é do povo como o céu é do avião. Pelo menos é isso que tenho visto há pouco mais de 20 dias. Como faço a cobertura jornalística da Aleac passo sempre por ali e vejo a praça tomada pelos movimentos sociais. Nas minhas observações os discursos dos sindicalistas foram radicalizando e ganhando força. No começo era só o Sinplac, depois veio à adesão do Sinteac. Ninguém pode negar que os trabalhadores em Educação unidos ainda são maior categoria profissional do Estado. Além disso, os professores são importantes formadores de opinião da sociedade. É preciso atenção por parte do Governo. O desgaste de uma paralisação como essa é imensurável. Ainda mais em ano eleitoral. 

O fato é que o Acre conseguiu as suas grandes transformações a partir dos movimentos sociais. Isso é inegável. O sacrifício de Chico Mendes acabou se tornando uma bandeira ideológica que alterou o curso histórico do Acre. Mas o tempo não pára e as transformações conti-nuam a acontecer. Não se pode deitar sobre os louros da vitória e esperar. O destino costuma ser implacável nesses casos punindo o comodismo.

É preciso que se encontre uma solução urgente para a greve dos professores. Existe o risco de uma série de reações em cadeia. O fato das crianças e adolescentes não estarem freqüentando as aulas cria problemas domésticos indiscutíveis. Além disso, são milhares de seres humanos em idade de formação do caráter desocupados horas a fio. Vale lembrar o ditado popular que mente vazia é oficina do diabo. Sem falar que as necessárias reposições de aulas se tornarão outro transtorno. Isso se não houver a perda do ano letivo caso o movimento se radicalize ainda mais. Os estudantes do Acre ficariam um ano atrasado em relação aos outros estados?

Ouvindo os discursos dos sindicalistas enquanto faço as minhas pausas na Aleac para fumar o meu cigarro vou percebendo alguns detalhes. A cada dia eles incorporam mais elementos oposicionistas nos seus discursos provocados pelas insatisfações nas negociações. Será que o criador vai se voltar contra a criatura? É preciso pensar bem a respeito dessa situação e usar o bom senso.

A favor do Governo o fato de não estar usando nenhum tipo de repressão policial contra os sindicalistas. O movimento grevista ocupa com tranqüilidade a praça sem interferências externas. Vivemos tempos democráticos e o respeito das nossas autoridades constituídas deve ser aplaudido. Parece pouco, mas é muito. Houve tempos em que isso seria impossível. O pau iria cantar. Também são inegáveis os avanços da Educação acreana. Mas além do espírito democrático e o respeito ao direito dos movimentos so-ciais se manifestarem está na hora de entrar em cena o maior soberano de casos como esses: o diálogo.

* Nelson Liano é jornalista
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