O ócio destrutivo

O ócio, o tempo livre, o ficar de papo para o ar, pode ser considerado por filósofos e escritores seguidores de Domenico De Masi, professor de Sociologia do trabalho, autor do livro “O ócio criativo”, como fundamental para a qualidade da produção.

Nesse caso, ficar sem trabalhar ou sem fazer absolutamente nada por algumas horas pode ampliar a criatividade do ser humano. Nesse caso. Só nesse caso em que o ser humano, em questão, está sobrecarregado de atividades.

No caso dos jovens acreanos a ociosidade está sendo totalmente destrutiva. Mais de 500 estão reclusos nas pousadas!

Longe de pensar para enxergar as oportunidades ou para valorizar o tempo, o espaço e o silêncio, nossos jovens dedicam sua ociosidade para em-brenhar nas drogas, roubar, fazer vandalismos, participar de crimes (seis adolescentes estão envolvidos no sumiço do garoto Fabrício Augusto!) e agora até vampirismo!
Fiquei chocada com o ritual de pacto de sangue que estão fazendo. Matéria de primeira página em A GAZETA, de quarta-feira, mostra até foto de adolescentes, entre 14 e 17 anos, cortando os braços com gilete e bebendo sangue!

Meu Deus!

É muita falta do que fazer!

Nossos jovens estão com tanto tempo de sobra e com a mente tão desocupada que só pensam em coisas destruti-vas. Mente desocupada é oficina do diabo, diz o ditado.

Em quê a vida de um jovem vai melhorar com o ato de se cortar, beber o sangue de outros e se deixar sugar???

Nossos jovens vão ganhar cicatrizes e doenças por contaminação.

Lastimável.

Mais lastimável ainda é a falta de perspectiva.

O dia tem 24 horas. Um jovem deve dormir 8 horas por dia, deve estudar, no atual sistema, por 4 horas e ainda sobram 12 horas!

Se um jovem gastar mais duas horas para as refeições, ainda lhe sobram 10 horas de folga. É tempo demais para não ser ocupado!

Se ele gastar mais duas horas tomando banho e se locomovendo ainda sobram 8 horas! Um expediente inteiro!

Se ele praticar duas horas de esporte por dia, ainda sobram 6 horas!  Se ele gastar mais duas horas em leituras e tarefas ainda lhe restarão 4 horas!

Se ele pode navegar na internet ou jogar vídeo game por mais duas horas ainda sobram duas horas! Duas horas para um jovem que não tem nada para fazer é tempo suficiente para inventar rituais macabros e ofensivos ao próprio corpo. É de doer.

O que me dói também é ver a piscina olímpica, da Escola Armando Nogueira, limpinha, azulzinha, dia e noite, comendo dinheiro em sua manutenção sem ser utilizada por nossos jovens.

Me dói ver as bibliotecas vazias e o Terminal Urbano lotado de jovens perambulando como se não tivessem casa para voltar.

O que está faltando? Pais fortes e participativos? Escolas técnicas? Ou atitude empreendedora por parte dos jovens?

Pare tudo. Entre em ócio criativo, reflita e aponte soluções. Do jeito que está não dá pra continuar.
 
* Eliane Sinhasique é jornalista, radialista e publicitária
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